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	<title>Rumos do Brasil &#187; Plínio de Arruda Sampaio</title>
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	<description>Propostas para um país melhor</description>
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		<title>As duas novas reformas agrárias</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 15:19:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Plínio de Arruda Sampaio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Jurídica]]></category>
		<category><![CDATA[MST]]></category>
		<category><![CDATA[reforma agrária]]></category>

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		<description><![CDATA[Reforma agrária/ a favor Reforma-se algo que não está funcionando a contento. Altera-se então a forma de alguma coisa, sem alterar sua substância. Por isso mesmo, uma mesma coisa pode ser reformada várias vezes. Com a estrutura agrária acontece exatamente o mesmo. Todas as vezes em que ela emperra a realização do projeto de algum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h2>Reforma agrária/ a favor</h2>
<p>Reforma-se algo que não está funcionando a contento. Altera-se então a forma de alguma coisa, sem alterar sua substância. Por isso mesmo, uma mesma coisa pode ser reformada várias vezes. Com a estrutura agrária acontece exatamente o mesmo.</p>
<p>Todas as vezes em que ela emperra a realização do projeto de algum grupo social importante, esse grupo propõe uma reforma agrária.</p>
<p>Na época moderna, o motivo principal das reformas agrárias foi a rigidez da estrutura agrária herdada da Idade Média porque impedia o pleno funcionamento do mercado capitalista e das instituições capitalistas no campo. De modo geral, essas reformas agrárias foram distributivistas -promoviam a desapropriação de grandes latifúndios e seu parcelamento em lotes familiares.</p>
<p>Nos anos 50 do século passado foi esse tipo de reforma agrária que entrou na agenda política do país (proposta apresentada pelas demais forças progressistas) racionalizada pela Cepal, sob o argumento do atraso do setor agrícola e dos seus efeitos no processo inflacionário. Foi incorporada pelos governos que &#8220;compraram&#8221; a ideia do presidente Kennedy, o qual viu a possibilidade de evitar a propagação da Revolução Cubana num processo moderado de distribuição das terras dos latifúndios latino-americanos.</p>
<p>A proposta de reforma agrária deu ensejo a um intenso debate teórico em torno do problema da terra. O golpe de 1964 encerrou o debate, o qual só foi reaberto 20 anos depois, agora sustentado por novas organizações populares e novos partidos de esquerda. Muitos intelectuais &#8211; inclusive os que hoje a renegam &#8211; encarregaram-se de justificá-la teoricamente.</p>
<p>Não se tratava mais da reforma de 1964, porque os militares, nos seus 20 anos de governo, haviam realizado a modernização do campo sem distribuição massiva de terra, porém a um preço social e ecológico altíssimo. Tratava-se de corrigir essas distorções. Portanto, tratava-se agora de reforma agrária social, destinada a humanizar o capitalismo agrícola e a preservar o meio ambiente.</p>
<p>Hoje o governo Lula praticamente enterrou esse tipo de reforma agrária. Por isso os movimentos populares foram levados a radicalizar sua pressão sobre a terra. Além das ocupações, promoveram marchas, fechamento de estradas, danificação de pedágios e, ultimamente, danificação de instalações e plantações de propriedade de grandes agronegócios. Em uma sociedade anestesiada, incapaz de sensibilizar-se por argumentos racionais, que se move unicamente pressionada por gestos ostensivos, tais atitudes se justificam pelo estado de necessidade, pois não há outra forma de chamar a atenção para o descaso criminoso do governo com a população rural.</p>
<blockquote><p>Hoje o governo Lula praticamente enterrou esse tipo de reforma agrária.</p></blockquote>
<p>Qual a leitura a ser feita então a respeito de fatos como a derrubada de laranjais da fazenda Cutrale; a danificação das mudas de transgênicos na Syngenta; a ocupação dos latifúndios do banqueiro Dantas no Pará?<br />
Esses e outros gestos publicitários visam bloquear um processo de reforma agrária atualmente em plena marcha e, ao mesmo tempo, propor um projeto alternativo de reforma. O processo de reforma a ser bloqueado está sendo executado aceleradamente.</p>
<p>Origina-se na contrarrevolução neoliberal dos anos 90 e na nova divisão internacional do trabalho que dela decorreu.</p>
<p>Essa nova divisão alterou o lugar da economia brasileira no mercado capitalista internacional e isto está a exigir a transformação rápida da sua atual estrutura agrária, a fim de que os grandes agronegócios internacionais montem uma formidável economia exportadora de quatro produtos altamente demandados pelas economias que lideram a nova fase do capitalismo -soja, álcool de cana de açúcar, carne e madeiras.</p>
<p>O grande capital internacional assumiu por conta própria a realização dessa reforma e a está implementando, mediante a compra de terras e de empresas agrícolas, de que é exemplo a compra da Usina Santa Elisa pelo grupo Dreiffyus.<br />
Por ação e por omissão, o governo Lula apoia entusiasticamente essa nova reforma agrária. Por omissão, quando paralisa o raquítico programa de assentamentos da &#8220;reforma agrária social&#8221;; por ação: quando edita leis que permitem legalizar 67 milhões de hectares de terras griladas na Amazônia, a fim de que os grileiros (convertidos em proprietários legais) as vendam aos grandes agronegócios para produção de soja e para criação de gado nessas terras; quando realiza pesados investimentos na transposição das águas do rio São Francisco, a fim de criar uma economia exportadora de frutas tropicais, comandada pelos grandes agronegócios e destinada a países do hemisfério norte; quando prorroga a entrada em vigor de leis que protegem as florestas.</p>
<p>Requisito indispensável para o êxito dessa reforma agrária dos ricos é calar os movimentos sociais do campo, especialmente aquele que, aqui e no exterior, simboliza a luta da população pobre pela terra: o MST. O capital transnacional não vai aonde pode correr riscos.</p>
<blockquote><p>O MST e a CPT (órgão da CNBB) levantaram essa bandeira.</p></blockquote>
<p>O serviço que os intelectuais hoje dedicados a desmoralizar o MST prestam a essa nova reforma agrária consiste em fornecer argumentos pseudamente racionais para justificar a criminalização desse movimento.</p>
<p>A outra reforma agrária -a dos movimentos autênticos do campo e das forças sociais progressistas- visa contrarrestar a reforma concentradora dos agronegócios e atender às necessidades de 6 milhões de famílias pobres do campo. Trata-se de consolidar a agricultura familiar -que responde tanto pela maior porcentagem da produção de alimentos quanto da oferta de empregos no campo e de desapropriar todos os imóveis de tamanho superior a 1.000 hectares, a fim de redistribuir essas terras à população rural sem terra.</p>
<p>O MST e a CPT (órgão da CNBB) levantaram essa bandeira, cabendo às forças progressistas que ainda restam na nação empunhá-la e levá-la adiante.</p>
<p>A estrutura agrária que se formará nesse processo criará a base material requerida para viabilizar um rigoroso processo de zoneamento agroecológico da produção e um programa de descentralização do abastecimento alimentar da população. A prioridade que deverá ser dada a esses objetivos não é incompatível com o aproveitamento da demanda externa pelas &#8220;commodities&#8221; agrícolas porque o país possui uma enorme quantidade de terras.<br />
Os desertores da reforma agrária, que hoje se ocupam de intrigar a opinião pública contra o MST, não conseguem separar o fato social do movimento político: o MST é um movimento político socialista que, diante do fato social representado pelo conflito fundiário, organiza a luta de uma das partes do conflito -a população rural sem terra- do mesmíssimo modo que a CNA; a bancada ruralista; os partidos da direita; a grande mídia (com matérias escandalosamente facciosas); e os intelectuais a serviço desses interesses organizam a luta da outra parte no conflito: o agronegócio.</p>
<p>Para que o debate sobre as duas reformas agrárias seja racional, é preciso pôr de lado a impostura da imparcialidade.</p>
<p>Este analista toma partido -está do lado dos sem-terra- e é deste ponto de vista que interpreta racionalmente a realidade do campo. Quem diz não estar de lado nenhum, mas do lado do Brasil, não está dizendo a verdade: o Brasil não tem lado no conflito agrário, porque é impossível realizar uma reforma que atenda ao mesmo tempo quem quer a concentração e quem quer a desconcentração da propriedade rural.</p>
<p>Contudo há uma crítica a ser feita à ocupação da fazenda da Cutrale. Segundo a empresa, os ocupantes destruíram 7.000 pés de laranja. Erraram: deviam ter destruído 70 mil (o que nem seria muito notado numa fazenda de 1 milhão de pés) a fim de chamar mais a atenção para o fato de que essa fazenda ocupa ilegalmente terras públicas com a conivência do Poder Judiciário.</p>
<p>Muito mais do que 70 mil são as vidas de crianças estão sendo destruídas pelo desemprego agrícola; pelos salários escandalosamente baixos dos trabalhadores rurais; pela precariedade das habitações rurais -fonte de doenças que destroem vidas.</p>
<p>O MST está certíssimo na sua tática de luta. Só lhe falta proclamar com maior vigor e clareza a cumplicidade de Lula na reforma agrária do agronegócio e cobrar mais apoio dos partidos de esquerda, das igrejas, da universidade, dos ecologistas (que precisam sair de cima do muro e assumir a luta camponesa), bem como exigir do Poder Judiciário e do Ministério Público, cujos juízes e promotores permitem o protelamento indefinido ações de desapropriação e não fiscalizam as violências policiais cometidas contra os lavradores nas reintegrações de posse, o cumprimento de suas obrigações.</p>
<p class="RDB-sem-capital">O MST deve cobrar: a população rural é credora e não devedora.</p>
<p><em>Este artigo foi publicado originalmente na Folha de São Paulo do dia 05/12/2009.</em></p>
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		<title>Para além da ambiguidade – uma reflexão sobre a Constituição de 1988</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/10/27/para-alem-da-ambiguidade-%e2%80%93-uma-reflexao-sobre-a-constituicao-de-1988/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 Oct 2009 15:52:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Plínio de Arruda Sampaio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Jurídica]]></category>
		<category><![CDATA[Constituição de 1988]]></category>
		<category><![CDATA[neoliberalismo]]></category>
		<category><![CDATA[social democracia]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 5 de outubro de 1988, Ulysses Guimarães promulgou festivamente o texto que batizou de “Constituição Cidadã”. A nova Carta constitucional do país começou a vigorar em clima de entusiasmo. Ela continha importantes reformas no arcabouço do Estado brasileiro, especialmente nos capítulos dos Direitos Sociais; da Família, Criança, Adolescentes e Idosos; dos Índios. Todos eles [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 5 de outubro de 1988, Ulysses Guimarães promulgou festivamente o texto que batizou de “Constituição Cidadã”.</p>
<p>A nova Carta constitucional do país começou a vigorar em clima de entusiasmo. Ela continha importantes reformas no arcabouço do Estado brasileiro, especialmente nos capítulos dos Direitos Sociais; da Família, Criança, Adolescentes e Idosos; dos Índios. Todos eles consagram direitos que protegem os trabalhadores, as minorias, os aposentados, as pessoas que necessitam de serviços públicos de educação e saúde.</p>
<p>Os capítulos da Ordem Econômica e Financeira e do Meio Ambiente armaram o país para continuar o processo de industrialização, sem o qual não é possível construir um Estado Nacional dotado de verdadeira autonomia. As normas relativas à proteção do meio ambiente estabeleceram parâmetros claros para evitar que o interesse econômico ponha em risco o equilíbrio ecológico.</p>
<p>No campo da distribuição da justiça, as mudanças também não foram poucas: a constitucionalização dos Juizados Especiais; a criação da Defensoria Pública; a ampliação dos sujeitos aptos a propor Ação Direta de Constitucionalidade. Menção especial merecem as novas atribuições do Ministério Público, facultado agora a intervir diretamente no processo constitucional, bem como a instaurar inquérito civil público na defesa de interesses difusos e coletivos – dois importantes avanços democráticos cujos primeiros efeitos já começam a se fazer sentir em nossa sociedade.</p>
<p>Nada disso alterava substancialmente a estrutura do Estado brasileiro, mas contribuía para a construção de uma sociedade menos injusta e mais democrática.</p>
<p>Entretanto, os acontecimentos que se seguiram ao texto promulgado em 1 de outubro de 1988 mostraram ter sido fruto de uma ilusão. Baseava-se no falso pressuposto de que a nova ordem econômica e política neoliberal, já então hegemônica em todo o mundo capitalista desenvolvido, ainda não havia fechado as portas para o prosseguimento de projetos de construção nacional nos países de sua periferia.</p>
<blockquote><p>A saga da constituinte não foi inútil&#8230;</p></blockquote>
<p>O entusiasmo com a participação popular e a surpresa com a debilidade da direita criaram essa consciência equivocada, não só entre os social-democratas, mas também entre socialistas convictos. Até mesmo Florestan Fernandes – o constituinte de esquerda com maior cabedal teórico, crítico acérrimo do método de elaboração da Carta – deixou-se entusiasmar. Em 1 de outubro de 1988, fazendo um apanhado geral do texto em vias de ser aprovado, ele escreveu no Jornal do Brasil: <em>“Na prática, se houver imaginação e coragem, e surgirem meios orgânicos de transformação da ordem existente, será possível combinar a liquidação do caos do passado recente e do presente, a construção de um Estado capitalista democrático contrabalançado por um forte poder popular, a luta radical e proletária pelo socialismo”.</em></p>
<p>Apesar dessa ilusão, a saga da constituinte não foi inútil porque, embora não tenha sido possível sustentar o texto inicial, ainda subsistem dispositivos constitucionais que asseguram a vários setores populares melhores condições de resistência contra o avanço do capitalismo neocolonizador. Não fossem estes dispositivos, o sofrimento da classe trabalhadora, durante o período mais duro da desarticulação do Estado desenvolvimentista, teria sido muito maior, como aconteceu na Argentina, país que passou diretamente da ditadura para a “democracia” neoliberal.</p>
<blockquote><p>Não fossem estes dispositivos, o sofrimento da classe trabalhadora teria sido muito maior, como aconteceu na Argentina&#8230;</p></blockquote>
<p>É importante tomar consciência dos motivos da implacável demolição do texto promulgado em 1988 e da surpreendente integração do PT ao “<em>establishment</em>”. Se, nem mesmo nos países ricos do hemisfério norte a social democracia teve condições de manter a hegemonia diante da onda neoliberal, muito menos houve condições para construir um regime social-democrata em um país subdesenvolvido, periférico e dependente.</p>
<p>Essa consciência fundamenta a critica às duas principais estratégias reformistas que a esquerda adotou desde os anos cinqüenta do século passado: a nacional democrática (até 1964) e a democrática-popular (pós 1964). O equívoco dessas estratégias consiste em admitir que haja, nos marcos do capitalismo brasileiro, setores progressistas, dispostos a participar da construção de um Estado nacional controlado pelas forças populares e empenhado em implantar a justiça social.</p>
<p>Os brasileiros precisam se convencer de que não há qualquer possibilidade de estabelecer um regime deste tipo sem romper com a dependência externa da sua economia e sem promover uma drástica redução das desigualdades sociais.</p>
<p>Não é nada fácil formular uma estratégia para atingir o estágio em que tal revolução possa tornar-se possível, por causa da dispersão da massa e de seu reduzido grau de consciência a respeito tanto dos seus direitos como do potencial de sua ação coletiva. Pode-se mesmo supor que a força política que defenda uma estratégia de ruptura corre o risco de ficar, durante muito tempo, sem espaço para participar da disputa política real.</p>
<p>A transformação da sociedade brasileira somente poderá ser construída se esta força política for capaz de realizar um movimento duplo – <em>mas não ambíguo</em> – de conscientização das massas: por um lado, atuar no limite das contradições da Carta burguesa, de modo a forçar a predominância de seus princípios universalistas sobre as disposições que institucionalizam uma draconiana dominação de classe: por outro, difundir, por meio de militância política e de criatividade intelectual, alternativas concretas para construir um outro Brasil – justo, autônomo, livre da nefasta herança do período colonial.</p>
<p>No que toca ao primeiro movimento, alguns artigos do texto de 1988 são instrumentos de luta eficazes. Urge, pois, defendê-los com unhas e dentes, até que o povo consiga produzir um movimento político de primeira grandeza que possibilite cortar privilégios dos poderosos e reconhecer direitos dos hoje oprimidos. Só então haverá condições para convocar uma nova Assembléia Nacional Constituinte.</p>
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