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	<title>Rumos do Brasil &#187; José Luis Fiori</title>
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	<description>Propostas para um país melhor</description>
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		<title>Para reler o &#8220;velho desenvolvimentismo&#8221;</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 23:29:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Economia Política]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>A hegemonia do pensamento desenvolvimentista, na America Latina, deita raízes na década de 30, se consolida nos anos 50,  passa por uma auto-crítica  nos anos 60,  e perde seu vigor intelectual na década de 80. Nesse percurso é possível identificar três grandes “matrizes teóricas” que organizaram o debate em torno ao “papel do estado” no desenvolvimento econômico, e contribuíram para a construção e legitimação da ideologia “nacional-desenvolvimentista” : i) a teoria weberiana da “modernização”,  contemporânea da teoria das “etapas do desenvolvimento econômico“, de  Walter Rostow. Sua proposta de modernização supunha e apontava, ao mesmo tempo,  de forma circular, para uma idealização dos estados e dos sistemas políticos europeu e norte-americano; ii) a teoria estruturalista do &#8220;centro-periferia&#8221; e do “intercambio desigual”, formulada pela CEPAL.  Sua defesa intransigente da industrialização lembra o nacionalismo econômico de Friedrich List e Alexander Hamilton, mas  não dá a mesma importância destes autores, aos conceitos de nação, poder e guerra;  e, finalmente,  iii) a teoria marxista da &#8220;revolução democrático-burguesa&#8221; que via no desenvolvimento e na industrialização o caminho necessário de amadurecimento do modo de produção capitalista e da própria revolução socialista. Sua interpretação e estratégia traduziam de forma quase sempre mecânica experiências de outros países, sem maior consideração pela heterogeneidade interna da América Latina<br />
.  Estas três teorias consideravam que o desenvolvimento econômico era um objetivo indiscutível e consensual,  capaz de constituir e unificar a nação; se propunham construir economias nacionais autônomas e sociedades modernas e democráticas; consideravam que a industrialização era o caminho necessário da autonomia e da modernidade, ou mesmo da construção socialista;  e, finalmente, propunham que o estado cumprisse o papel estratégico de condotieri desta grande transformação. Com o passar do tempo, entretanto, duas coisas chamam  a atenção, nesta história desenvolvimentista.   A primeira, é que apesar desta ampla convergência estratégica, as políticas desenvolvimentistas só tenham sido aplicadas de forma  muito pontual, irregular e descoordenada. E em todo este período só se possa falar da existência de dois &#8220;estados desenvolvimentistas&#8221;, na América Latina:  o mexicano, com muitas reservas; e o brasileiro, que foi o mais bem sucedido, do ponto de vista do crescimento econômico. E a segunda coisa que chama muito a atenção é que exatamente no Brasil, a matriz teórica e estratégica que teve mais importância não foi nenhuma destas três, pelo contrário, foi a teoria da “segurança nacional” formulada pelos militares brasileiros que tiveram um papel central na construção e no controle ou tutela do “estado desenvolvimentista”, entre 1937 e 1985. O “desenvolvimentismo militar”  deu  seus primeiros passos no Brasil, com a Revolução de 30 e com o  Estado Novo, mas só nos anos 50, se transformou numa ideologia e numa estratégia específica e diferenciada dentro do universo desenvolvimentista, sendo a única que associava explicitamente a necessidade do  desenvolvimento e da industrialização, com o objetivo prioritário da “defesa nacional”.<br />
Como contribuição ao debate contemporâneo, vale uma rápida anatomia  deste projeto militar, que teve grande sucesso econômico, mas foi muito frágil do ponto de vista político e social:<br />
i.    Os militares brasileiros propunham um projeto de expansão do poder nacional e uma visão competitiva do sistema mundial. Mas definiam sua estratégia de defesa a partir de um “inimigo externo” estritamente ideológico e longínquo, que nunca ameaçou nem desafiou efetivamente o país, e que foi importado da Guerra Fria.<br />
ii.    A natureza exclusivamente ideológica deste “inimigo externo” permitiu aos militares transportá-lo para dentro do país,  transformando todas as reivindicação e mobilizações sociais internas, em manifestações que ameaçavam sua paranóia anti-comunista. Daí veio o caráter conservador, autoritário e anti-popular deste  projeto desenvolvimentista.<br />
iii.    Por sua vez, a desmobilização ativa da grande maioria da sociedade explica a composição heterogênea, oligárquica e quase sempre liberal da coalizão de interesses que sustentou política e socialmente, o sucesso econômico do desenvolvimentismo militar brasileiro. Uma coalizão que se manteve unida enquanto duraram as altas taxas de crescimento e se desfez rapidamente na hora da grande crise econômica internacional, do início dos anos 80..<br />
iv.    Por último, o projeto desenvolvimentista dos militares brasileiros utilizou a política macro-econômica como uma espécie de “variável de ajuste”. Ela nunca foi consistentemente ortodoxa nem heterodoxa,  foi apenas a resultante possível, a cada momento,  do grande paradoxo deste projeto: a necessidade de crescer e “fugir para frente, para manter unida uma coalizão de forças predominantemente anti-estatais e anti-desenvolvimentistas.</p>
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		<title>A miséria do &#8220;novo desenvolvimentismo&#8221;</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2011/10/29/a-miseria-do-novo-desenvolvimentismo/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 Oct 2011 20:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Economia Política]]></category>

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		<description><![CDATA[“O capitalismo só triunfa quando se identifica com o estado, quando é o estado”               Fernand Braudel, “O Tempo do Mundo”, Editora Martins                                                                       Fontes, SP, p: 34 ________________________ O &#8220;debate desenvolvimentista” latino-americano não teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido à uma discussão macro-econômica entre “ortodoxos”, neo-clássicos ou liberais, e “heterodoxos”, keynesianos ou estruturalistas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“O capitalismo só triunfa quando se identifica com o estado, quando é o estado”</em></p>
<p><em>              Fernand Braudel, “O Tempo do Mundo”, Editora Martins      </em></p>
<p><em>                                                                 Fontes, SP, p: 34</em></p>
<p>________________________</p>
<p>O &#8220;debate desenvolvimentista” latino-americano não teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido à uma discussão macro-econômica entre “ortodoxos”, neo-clássicos ou liberais, e “heterodoxos”, keynesianos ou estruturalistas. Na verdade, ele não teria existido se não fosse por causa do estado, e da discussão sobre a eficácia ou não da intervenção estatal, para acelerar o crescimento econômico, por cima das “leis do mercado”. Até porque, na América Latina como na Ásia, os governos desenvolvimentistas sempre utilizaram políticas ortodoxas, segundo a ocasião e as circunstancias, e o inverso também se pode dizer de muitos governos europeus ou norte-americanos ultra-liberais ou conservadores que utilizaram em muitos casos, políticas econômicas de corte keynesiano ou heterodoxo. O <em>pivot </em>de toda a discussão e o grande pomo da discórdia sempre foi o estado, e a definição do seu papel no processo do desenvolvimento econômico.</p>
<p>Apesar disto, depois de mais de meio século de discussão,  o balanço teórico é decepcionante.. De uma forma ou outra a “questão do estado” sempre esteve presente, nos dois lados desta disputa, que acabou sendo mais ideológica do que teórica. Mas o seu conceito foi sempre impreciso,  atemporal e ahistórico, uma espécie de “ente” lógico e funcional criado intelectualmente para resolver problemas de crescimento ou de regulação econômica. Desenvolvimentistas e liberais sempre compartilharam a crença no poder demiúrgico do estado, como criador ou destruidor da boa ordem econômica, mas atuando em todos os casos, como um agente externo à atividade econômica. Um agente racional, funcional e homogêneo, capaz de construir instituições e formular planos de curto e longo prazo orientados por uma idealização do modelo dos “capitalismos tardios” ou do estado e desenvolvimento anglo-saxão. E todos olhavam negativamente para os processos de monopolização e de associação do poder com o capital, que eram vistos como desvios graves de um “tipo ideal” de mercado competitivo que estava por trás da visão teórico dos desenvolvimenjtistas tanto quando dos liberais. Além disto, todos trataram os estados latino-americanos como se fossem iguais e não fizessem parte de um sistema regional e internacional único, desigual, hierarquizado, competitivo e em permanente processo de transformação. E mesmo quando os desenvolvimentistas falaram de estados centrais e periféricos, e de estados dependentes, falavam sobretudo de sistema econômico mundial que tinha um formato bipolar relativamente estático, onde as lutas de poder entre os estados e as nações ocupavam um lugar bastante secundário..</p>
<p>No final do século XX, a agenda neoliberal reforçou um viés da discussão que já vinha crescendo desde o período desenvolvimentista: o deslocamento do debate para o campo da macroeconomia..Como volta a acontecer  com o chamado “neo-desenvolvimentismo” que  se  propõe inovar e construir  uma terceira via ( uma vez mais), “entre o populismo e a ortodoxia”. Como se tratasse de uma gangorra que ora aponta para o fortalecimento do mercado, ora para o fortalecimento do estado. Na prática, o “neo-desenvolvimentista” acaba repetindo os mesmos erros teóricos do passado e propondo um conjunto de medidas ainda mais  vagas  e gelatinosas do que já havia sido a ideologia nacional-desenvolvimentista dos anos 50. Passado a limpo, trata-se de um pastiche de propostas macroeconômicas absolutamente ecléticas, e que se propõem fortalecer, simultaneamente, o estado e o mercado; a  centralização e a descentralização; a concorrência e os grandes “campeões nacionais”; o público e o privado; a política industrial e a abertura; e uma  política fiscal e monetária, que seja ao mesmo tempo ativa e austera. E finalmente, com relação ao papel do estado, o “neo-desenvolvimentismo” propõe que ele seja recuperado e fortalecido mas não esclarece em nome de quem, para quem e para quê, deixando de lado a questão central do poder, e dos interesses contraditórios das classes e das nações.</p>
<p>Neste sentido, fica ainda mais claro que o desenvolvimentismo latino-americano sempre teve um parentesco maior com o keynesianismo e com “economia do desenvolvimento” anglo-saxônica, do que com o nacionalismo econômico e o anti-imperialismo, que são a mola mestra do desenvolvimento asiático. .E que, além disto, os  desenvolvimentistas latino-americanos sempre compartilharam com os liberais, a concepção econômica do estado do   paradigma comum da economia política clássica, marxista e neo-clássica. Este paradoxo explica – aliás &#8211; a facilidade teórica com que se pode passar de um lado para  o outro, dentro do paradigma líbero-desenvolvimentista, sem que de fato se tenha saído do mesmo lugar..</p>
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		<title>O xadrez chinês</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2011 23:17:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[“One of the most important challenges for the US foreign policy is to effect a transition from immediate and vexing challenges of the Middle East to the long-term and deeply consequential issues in Asia”.  Kurt Campbell, US assistant secretary for east Asia and Pacific, FT,12/10/2011 &#160; No dia 21 de outubro de 2011, o presidente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“One of the most important challenges for the US foreign policy is to effect a transition from immediate and vexing challenges of the Middle East to the long-term and deeply consequential issues in Asia”. </em></p>
<div>
<p style="text-align: right;"><em> Kurt Campbell, US assistant secretary for east Asia and Pacific, FT,12/10/2011</em></p>
</div>
<p>&nbsp;</p>
<p>No dia 21 de outubro de 2011, o presidente Barack Obama anunciou   o fim  da “guerra da America no Iraque”, e a retirada definitiva das tropas norte-americanas do território árabe. E tudo indica que não foi uma decisão isolada do governo Obama, devendo ser somada à outras iniciativas muito importantes, como a de negociar com as forças talibãs do Afeganistão, distanciar-se do radicalismo israelita, apoiar a mudança dos governos aliados do norte da África,  aceitar uma nova safra de governos islâmicos moderados, em quase todo o “Grande Médio Oriente”, e finalmente, reconhecer, de forma implícita, a participação do Irã, neste redesenho político regional. Em tudo isto é possível identificar traços de derrota e de vitória norte-americana, mas talvez o mais importante sejam duas mudanças estratégicas de largo fôlego, que estão sendo sinalizadas pela nova posição dos americanos: a primeira, na administração do poder global dos EUA, que passa a ser mais “imperial” e “terciarizada”; e a segunda, nas suas prioridades, que passam a ser a Ásia, e a disputa  pela hegemonia do  Pacífico Sul. Numa tentativa de recuperar, em pleno vôo,  o tempo perdido pelos EUA  durante a “guerra global ao terrorismo”, do presidente George Bush. Uma década em que a China se expandiu vertiginosamente e ocupou posições cada vez mais importantes, dentro do tabuleiro econômico e geopolítico asiático, enquanto os EUA permaneciam atolados no seu “grande médio oriente”. Esta mudança de prioridade, entretanto, não significa que haja consenso dentro do establishment norte-americano, sobre a forma de enfrentar o “desafio chinês”. Pelo contrário, existe uma divisão irreconciliável entre duas posições opostas. De um lado se colocam os democratas e os republicanos que pensam como Henry Kissinger, e consideram que a expansão chinesa pode ser benéfica para o mundo, e para os interesses norte-americanos, se os EUA souberem construir uma parceria estratégica com a China, administrando divergências e conflitos de interesse, evitando um enfrentamento frontal, e compartindo, no longo prazo, a supremacia regional, com os chineses. No lado oposto, se posicionam os que compartem a convicção do cientista político, John Mearsheimer, de que “uma China rica será inevitavelmente um estado agressivo e determinado a conquistar a hegemonia regional”. Concluindo junto com ele, que os EUA deve se antecipar, bloqueando os interesses chineses e estabelecendo alianças militares com todos os concorrentes regionais da China.</p>
<p>Na prática, entretanto, o caminho vem sendo construído longe dos dois extremos, através de negociações  e respostas pragmáticas, mais ou menos agressivas, segundo as circunstancias. Desde 2009, pelo menos, o governo chinês vem defendendo sua soberania sobre o “Mar do Sul da China”, de forma cada vez mais assertiva, considerando-o parte do seu “core interest”, em conflito com o Vietnã, Filipinas, Malásia  Taiwan e Brunei. Recentemente, os governos do Vietnã e das Filipinas denunciaram uma “ séria violação das leis internacionais” por parte da China, na sua disputa pelas ilhas Paracel e Spartly, e ambos governos  fizeram acenos explícitos em favor de uma presença militar mais ativa dos EUA, na região. Por outro lado, a secretária de estado, Hillary Clinton, declarou no Vietnã,  em 2010, que o mesmo “Mar do Sul da China”, “faz parte do interesse nacional dos EUA”, e que os EUA se sentem no direito e dever de participar de qualquer conflito e negociação regional, em franco desafio à posição chinesa. Esta disputa deve seguir e se aprofundar, com o aumento geométrico da importância econômica regional da China e com o fortalecimento contínuo do Comando Pacífico dos EUA, que já é o seu comando regional mais  poderoso. Além disto, deve-se incluir nesta competição, a participação de outros estados poderosos, como é o caso do Japão, Índia, Rússia e também do Vietnã. E o que se deve prever é um aumento contínuo  do poder militar dos EUA, simultâneo com o crescimento da dependência econômica de toda a região, com relação ao desenvolvimento chinês. E o que é mais paradoxal, é que a própria relação econômica siamesa entre a China e os EUA deve aumentar junto com a sua disputa regional, configurando um quadro e um desafio de enorme complexidade. Neste contexto, o mais provável é que a disputa e os próprios conflitos se prolonguem e se repitam, por muito tempo, e com um alto grau permanente de incerteza. Como se fosse numa partida de wei gi, o jogo chinês em que a regra básica (como no caso do go japonês) é a do “cerco contínuo”,  e da “coexistência combativa”, com os adversários, sem que existam jamais vitórias nem vitoriosos definitivos. Uma espécie de jogo de xadrez, sem cheque-mate.</p>
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		<title>O custo intangível do fracasso europeu</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 22:27:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[    “Se fosse possível hierarquizar sonhos, a criação da União Européia estaria entre os mais importantes do século XX. Depois de um milênio de guerras contínuas, os estados europeus decidiram abrir mão de suas soberanias nacionais, para criar uma comunidade econômica e política, inclusiva, pacífica, harmoniosa, sem fronteiras, sem discriminações e sem hegemonias. Um verdadeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>    “Se fosse possível hierarquizar sonhos, a criação da União Européia estaria entre os mais importantes do século XX. Depois de um milênio de guerras contínuas, os estados europeus decidiram abrir mão de suas soberanias nacionais, para criar uma comunidade econômica e política, inclusiva, pacífica, harmoniosa, sem fronteiras, sem discriminações e sem hegemonias. Um verdadeiro milagre, para um continente que se transformou no centro do mundo, graças à sua capacidade de se expandir e dominar os outros povos, de forma quase sempre violenta, e muitas vezes predatória.”</em></strong></p>
<p><em>JLF: “Os sinos estão dobrando”, Valor Econômico, junho de 2008</em></p>
<p>_______________________</p>
<p>Os sinais de desagregação são cada vez maiores e freqüentes, e já não cabe duvida que o processo de “unificação européia” entrou num beco sem saída.  É quase certo o calote da dívida grega, e é cada vez mais provável a ruptura da zona do Euro, que teria um efeito em cadeia, de grandes proporções, dentro e fora do Velho Continente. Ao mesmo tempo, a vitória da França e da Inglaterra, na Líbia, aumentou a divisão  e aprofundou o cisma alemão dentro da OTAN. Por outro lado, os governos conservadores europeus estão em queda livre, e sua alternativa social-democrata não tem mais nenhuma identidade ideológica. Os intelectuais batem cabeça e a juventude busca novos caminhos um pouco sem rumo. O próprio ideal da unificação européia tem cada vez menos força, entre as elites, e dentro de sociedades em que se dissemina a violência e a xenofobia. Parece  iminente o fracasso europeu.</p>
<p>Em tudo isto, chama a atenção que o avanço da catástrofe anunciada venha sendo acompanhado por uma consciência cada vez mais nítida e consensual a respeito das causas últimas, econômicas e políticas, da própria impotência européia.. Do lado econômico, todos reconhecem a falta de um Tesouro europeu com capacidade unificada de tributar e emitir dívidas, junto com um BC capaz de  atuar como emprestador de última instancia, em todos os mercados, garantindo a liquidez dos atuais títulos soberanos nacionais que deveriam ser extintos e substituídos por um único título publico unificado, para toda a zona do euro. E quase todos já reconhecem a impossibilidade de uma moeda soberana e de um BC eficaz, sem um estado que lhes dê credibilidade e poder real de ação, em particular nas situações de crise. Uma posição que só poderia ser cumprida, neste momento, pela  Alemanha, que não quer ou não pode fazê-lo, ou por um estado central que ninguém aceita..</p>
<p>Do mesmo forma, pelo lado político, o aumento da fragilidade e da fragmentação da Europa, vem sendo atribuído pelos analistas, de forma quase consensual, ao fim da Guerra Fria e à unificação da Alemanha, junto com o aumento descontrolado da UE e da OTAN, que passaram da condição de projetos defensivos, para a condição de instrumentos de conquista territorial e expansão da influencia militar e econômica do ocidente, dentro da Europa do Leste, e já agora, também, na Ásia Central e no Norte da África. O alargamento em todas as direções, da UE e da OTAN, aumentou suas desigualdades sociais e nacionais, e reduziu o grau de homogeneidade, identidade e solidariedade que existia no início do processo de integração, quando ele era tutelado pelos EUA, e tinha um inimigo comum,  a URSS..</p>
<p>Agora bem, quando os analistas da crise européia se dedicam a traçar cenários futuros, quase todos calculam o tamanho da desgraça em termos estritamente econômicos, em bilhões e trilhões de euros. E pouco se fala dos custos intangíveis do fracasso europeu no campo das idéias, dos valores e dos grandes sonhos e símbolos que movem a humanidade. Um verdadeiro impacto atômico sobre duas pilastras fundamentais do pensamento moderno: a crença na viabilidade contratual de um governo ou governança mundial; e a aposta na possibilidade cosmopolita, de uma federação ou confederação de republicas, pacíficas, harmoniosas, e sem fronteiras ou egoísmos nacionais. Duas idéias européias que foram concebidas num continente extremamente belicoso e competitivo, mas que foi o grande responsável pela criação e universalização do  sistema de estados nacionais modernos e do próprio capitalismo. Agora os europeus estão experimentando na pele a impossibilidade real de suas utopias, ao tentarem construir um governo cosmopolita e contratual a partir de estados nacionais extremamente desiguais,  ponto de vista do poder e da riqueza.</p>
<p>O problema grave e insanável é que a falência do “contratualismo” e do “cosmopolitismo,  deixa os europeus  sem mais nenhum sonho ou utopia coletiva. Em poucas décadas, no final do século XX, eles enterraram o seu socialismo, e agora, no início do Século XXI, estão jogando na lata do lixo, o seu “cosmopolitismo liberal”. E estão deixando o resto do sistema mundial, sem a bússola do seu criador, porque o sistema seguirá em frente, mas o seu <em>“software”</em> europeu está perdendo energia e está se apagando.</p>
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		<item>
		<title>A Líbia, a Otan e o Grande Médio Oriente</title>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 13:32:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[“Se aqui e no exterior todos perceberem que estamos prontos para a guerra a qualquer momento, com todas as unidades das nossas forças na linha de frente prontas para entrar em combate e ferir o inimigo no ventre, pisoteando-o quando estiver no chão, para ferver seus prisioneiros em azeite e torturar suas mulheres e filhos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Se aqui e no exterior todos perceberem que estamos prontos para a guerra a qualquer momento, com todas as unidades das nossas forças na linha de frente prontas para entrar em combate e ferir o inimigo no ventre, pisoteando-o quando estiver no chão, para ferver seus prisioneiros em azeite e torturar suas mulheres e filhos, então ninguém se atreverá no nosso caminho”.</p>
<div>
<p>     John Arbuthnot  Fisher, <a title="Primer Lord del Almirantazgo" href="http://es.wikipedia.org/wiki/Primer_Lord_del_Almirantazgo">Primeiro Lord do Almirantado da Marinha Real Britânica,</a>  (cit. in Norman Angell, A Grande Ilusão, Editora UNB, 2002, p: 275)</p>
</div>
<p>É preciso ser muito ingênuo ou mal informado, para seguir pensando que a “Guerra da Líbia”, foi feita em nome dos “direitos humanos” e da “democracia”. E ainda por cima, acreditar que o governo de Muamar Kadafi foi derrotado pelos “rebeldes” que aparecem nos jornais, em poses publicitárias. Tudo isto, enquanto a aviação inglesa comanda o ataque final das forças da OTAN,  à cidade de Sirta, depois de ter conquistado a cidade de Trípoli. Até o momento, a &#8220;primavera árabe&#8221; não produziu nenhuma mudança  de regime na região, mesmo na Tunísia e no Egito,  e não há nenhuma garantia de que os novos governos sejam mais democráticos, liberais ou humanitários que seus antecessores. Até porque, quase todos os seus líderes ocuparam posições de destaque nos governos que ajudaram a derrubar, com o apoio de uma multidão heterogênea e desorganizada. Sendo que, no caso da Líbia, não se pode nem mesmo falar de algo parecido a uma &#8220;mobilização massiva e democrática&#8221; da oposição, porque se trata de fato de uma guerra selvagem e sem quartel, entre regiões e tribos inimigas, que foram mobilizadas e &#8220;pacificadas&#8221; transitoriamente, pelas forças militares da OTAN.</p>
<p>Segundo Lord Ismay, que foi o primeiro Secretário Geral da OTAN, o  objetivo da  aliança militar criada pelo Tratado do Atlântico Norte, assinado em 1949, era &#8220;manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães para baixo&#8221;. E este objetivo foi cumprido plenamente, durante todo o período da Guerra Fria.  Mas depois de 1991, a OTAN passou por um período de &#8220;crise de identidade&#8221; e redefinição do seu papel dentro sistema internacional. Num primeiro momento, a organização militar se voltou para o Leste e para a ocupação/incorporação de alguns países da Europa Central que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia. Além disto decidiu participar diretamente das Guerras do Kosovo e da Sérvia. E ao mesmo tampo, lançou, em 1994, um projeto de intercambio militar  e de segurança, com os países árabes do norte da África, o chamado “Diálogo Mediterrâneo”.  Dez anos depois, na sua reunião de cúpula de 2004, em Istambul, os dirigentes da OTAN decidiram expandir o seu projeto de segurança e criaram a &#8220;Iniciativa de Cooperação de Istambul&#8221; (ICI), voltada para os países do Oriente Médio. Além disto, neste mesmo período, a OTAN, que não havia apoiado as guerras do Afeganistão e do Iraque, decidiu aderir e colocar-se ao lado das tropas anglo-americanas, instalando suas forças também na Ásia Central.</p>
<p>Foram os ingleses que cunharam o termo &#8220;Oriente Médio&#8221;,  para referir-se aos territórios situados no meio do seu caminho, entre a Inglaterra e a Índia, e que  pertenciam ou estavam sob a tutela do Império Otomano. Incluindo os territórios que foram retalhados e divididos depois do fim da 1º Guerra Mundial, sendo transformados em “protetorados” da Inglaterra e da França, que já eram, naquele momento, as duas maiores potências imperiais da Europa, tendo submetido e colonizado a maior parte da África Sub-Sahariana, e todos os países árabes do norte do continente, hoje incluídos no “Diálogo Mediterrâneo” da OTAN. Mas foi o presidente norte-americano, George Bush, quem cunhou o termo “Grande Médio Oriente”, apresentado pela primeira vez na reunião do G8, realizada em Sea Islands, nos EUA, em junho de 2004. A idéia era definir e unificar um novo espaço de intervenção geopolítica, que iria do Marrocos até o Paquistão, e deveria ser objeto da preocupação prioritária das Grandes Potências, na sua guerra contra o “terrorismo islâmico”, e a favor da “democracia” e dos “direitos humanos”. Desta  perspectiva, se pode compreender melhor o significado geo-estratégico da “primavera árabe”, e da Guerra da Líbia.</p>
<p>Assim mesmo, o que se deve esperar que ocorra depois da guerra? Na Líbia, haverá um longo período de caos, seguido da formação de um governo de coalizão tribal, instável e autoritário, sob o patrocínio e a tutela militar da OTAN.  Ao mesmo tempo, estará dado um passo decisivo na construção de uma força de intervenção “ocidental”, capaz de projetar seu poder militar sobre todo o território islâmico do Grande Médio Oriente. E de passagem, estará criado o primeiro “protetorado colonial” da OTAN, na África. Triste sina da África !</p>
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		<title>A geopolítica angloamericana</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Aug 2011 11:12:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[“Venho hoje reafirmar uma das mais antigas, uma das mais fortes alianças que o mundo já viu. Há muito é dito que os Estados Unidos e a Grã Bretanha compartilham de uma relação especial” &#8211; Presidente Barack Obama:  “Discurso no Parlamento Britânico”, em 25/5/11.   Existe uma idéia generalizada de que a Geopolítica é uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Venho hoje reafirmar uma das mais antigas, uma das mais fortes alianças que o mundo já viu. Há muito é dito que os Estados Unidos e a Grã Bretanha compartilham de uma relação especial” &#8211; Presidente Barack Obama:  “Discurso no Parlamento Britânico”, em 25/5/11.</em></p>
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<p>  Existe uma idéia generalizada de que a Geopolítica é uma “ciência alemã”, quando na verdade ela não é nem uma ciência, nem muito menos alemã. Ao contrário da Geografia Política, que é uma disciplina que estuda as relações entre o espaço e a organização dos estados, a Geopolítica é um conhecimento estratégico e normativo que avalia e redesenha a própria geografia,  a partir de algum projeto de poder específico, defensivo ou expansivo.  O “Oriente Médio”, por exemplo, não é um fenômeno geográfico, é uma região criada e definida pela política externa inglesa do século XIX, assim como o “Grande Médio Oriente”, é um sub produto geográfico da “guerra global ao terrorismo”, do governo Bush, do início do século XXI.  Por outro lado, a associação incorreta, da Geopolítica com a história da Alemanha, se deve a importância que as idéias de Friederich Ratzel (1844-1904) e Karl Haushofer (1869-1946) tiveram – direta ou indiretamente – no desenho estratégico dos desastrosos projetos expansionistas da Alemanha de Guilherme II (1888-1918) e de Adolf Hiltler (1933-1945). Apesar disto, as teorias destes dois geógrafos transcenderam sua origem alemã, e idéias costumam reaparecer nas discussões geopolíticas de países que compartilham o mesmo sentimento de cerco militar e inferioridade na hierarquia internacional. Mas a despeito disto,  foi na Inglaterra e nos Estados Unidos que se formularam as  teorias e estratégias geopolíticas mais bem sucedidas da história moderna.</p>
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<p>Sir Walter Raleigh (1554-1618), conselheiro da Rainha Elizabeth I, definiu  no fim do século XVI,  o princípio geopolítico que orientou  toda a estratégia naval da Inglaterra, até o século XIX.  Segundo Raleigh, “quem tem o mar, tem o comércio do mundo, tem a riqueza do mundo; e quem tem a riqueza do mundo, tem o próprio mundo”. Muito mais tarde, quando a Marinha Britânica já controlava  quase todos os mares do mundo, o geógrafo inglês, Halford Mackinder (1861-1947), formulou um novo princípio e uma nova teoria geopolítica, que marcaram a política externa inglesa do século XX. Segundo Mackinder, “quem controla o “coração do mundo”  comanda a “ilha do mundo”, e quem controla a ilha do mundo comanda o mundo”. A “ilha do mundo” seria o continente eurasiano, e o seu “coração” estaria situado &#8211; mais ou menos -  entre o Mar Báltico e o Mar Negro, e entre Berlim e Moscou. Por isto, para Mackinder,  a maior ameaça ao poder  da Inglaterra, seria que a Alemanha ou a Rússia conseguissem monopolizar o poder  dentro do continente eurasiano. Uma idéia-força que moveu a Inglaterra nas duas  Guerras Mundiais,  e que levou Winston Churchill a propor – em 1946 &#8211; a criação da “Cortina de Ferro”  que deu origem a Guerra Fria.</p>
<p>Do lado norte-americano, o formulador geopolítico mais importante da primeira metade do século XX, foi o Almirante Alfred Mahan (1840-1914), amigo e conselheiro do Presidente Theodor Roosevelt, desde antes da invenção da Guerra Hispano-Americano, no final do século XIX. A tese geopolítica fundamental de Mahan, sobre a “importância do poder naval na história”, não tem nenhuma originalidade. Repete Walter Raleigh, e reproduz a história da Marinha Britânica. E o mesmo acontece com as idéias de Nicholas Spykman (1893-1943), o geopolítico que mais influenciou a estratégia internacional dos EUA na segunda metade do século XX. Spykman desenvolve e muda um pouco a teoria de Mackinder, mas chega quase às mesmas conclusões e propostas estratégicas. Para conquistar e manter o poder mundial, depois da Segunda Guerra, Spykman recomenda que os EUA ocupem o “anel” que cerca a Rússia, do Báltico até a China, aliando-se com a Grã Bretanha e a França, na Europa, e com a China, na Ásia . No cômputo final, o que diferencia  a  geopolítica anglo-americana é a sua pergunta fundamental: “que partes do mundo há que controlar, para dominar o mundo”. Ou seja, uma pergunta ofensiva e global, ao contrário dos países que se propõem apenas a conquista e o controle de “espaços vitais” regionais. Além disto, a Inglaterra e os EUA ganharam, e no início do século XXI, mantém sua aliança de ferro com o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia: derrotaram e cercaram a Rússia; mantém seu protetorado atômico sobre a Alemanha e o Japão; expandiram sua parceria e seu cerco preventivo da China; estão refazendo seu controle da África;  e mantém a América Latina sob a supervisão da sua IVº Frota Naval. E acabam de reafirmar sua decisão de manter sua liderança geopolítica mundial.</p>
<p>Existe, entretanto, uma grande incógnita no horizonte geopolítico anglo-americano. Uma vez conquistado o poder global, é indispensável expandi-lo, para mantê-lo. Mas, para onde expandi-lo?</p>
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		<title>As mesquinharias e a História</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 00:40:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios Especiais]]></category>

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		<description><![CDATA[[...] foi de mesquinharia em mesquinharia, de pequena em pequena coisa, que finalmente as grandes coisas se formaram.” M. Foucault, “A verdade e as formas jurídicas” p: 16, 2003, Nau Editora, RJ O filósofo francês, Michel Foucault (1926-1984), teve participação decisiva no debate epistemológico da segunda metade do século XX, questionando de cima abaixo, a visão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">[...] foi de mesquinharia em mesquinharia, de pequena em pequena coisa, que finalmente as grandes coisas se formaram.”</p>
<p style="text-align: right;">M. Foucault, “A verdade e as formas jurídicas” p: 16, 2003, Nau Editora, RJ</p>
<p style="text-align: left;">O filósofo francês, Michel Foucault (1926-1984), teve participação decisiva no debate epistemológico da segunda metade do século XX, questionando de cima abaixo, a visão clássica da filosofia ocidental, a respeito da ciência e da história. Junto com vários outros pensadores europeus e norte-americanos, colocou sob suspeita a existência de um conhecimento e de um “método científico” universal, e criticou a ideia de uma história humana evolutiva, progressiva e teleológica. Para Foucault, a história é  descontínua, plural e dispersa, e “as coisas que parecem ser as mais evidentes,  nascem sempre da confluência de encontros, acasos, ao longo de uma história frágil e precária.” A visão da ciência e do conhecimento de Michel Foucault remete à uma discussão epistemológica extremamente complexa. Mas sua visão da história acabou se popularizando, ao se associar de forma simplificada à sua própria afirmação de que sempre houve alguma “mesquinharia” na origem de todos os grandes acontecimentos históricos. Como ele dizia, toda grande mudança teve “pequenos começos, baixos, mesquinhos, inconfessáveis.” O que Foulcault nunca explicou foi como  identificar e distinguir  uma “mesquinharia” que terá “grandes conseqüências”, de uma “mesquinharia” que será esquecida imediatam,ente pelos seus contemporâneos.</p>
<p>Com certeza, o problema não é simples nem fácil de responder. Basta comparar alguns acontecimentos bem conhecidos.. Por exemplo,  todos os que assistiram pela televisão, os atentados de 11 de setembro de 2001, tiveram certeza imediata de que estavam frente à uma “mesquinharia” que mudaria o rumo da história. Mas quase ninguém conseguiu perceber – na hora &#8211; a importância e as conseqüências catastróficas do tiro que foi dado pelo estudante Gavrilo Princip, de 19 anos de idade,  no dia 28 de junto de 1914, na cidade de Sarajevo, na Boznia-Hersogovina, responsável pela morte do arquiduque Francisco Ferdinando, e de sua esposa, Sofia Chotek, herdeiros do trono da Áustria. Uma micro-história rocambolesca, que deu origem à Primeira Guerra Mundial,  foi responsável por  um dos maiores genocídios da história humana, e mudou radicalmente a história da Europa e do Mundo. Outra dificuldade aparece quando se compara uma mesma “mesquinharia” e suas conseqüências, em momentos e contextos distintos. Como é o caso, por exemplo, da “compulsão sexual” do presidente Kennedy, que contribuiu para sua aura de jovem rico, de sucesso e traquinas.  Ao contrário do presidente Clinton, que tinha o mesmo entusiasmo sexual, e quase sofreu um impeachement por conta de sua relação com Monica Lewinski, que paralizou inteiramente o seu segundo mandato. Para não falar do caso mais recente do senhor Dominique Strauss-Kahn, que perdeu a presidência do FMI e da França (provavelmente), graças às suas “mesquinharias sexuais”. Ou seja, como se pode ver, não é fácil de saber, de antemão, quais mesquinharias ficarão e quais irão para a lata de  lixo da história.</p>
<p>Agora mesmo, o Brasil está vivendo uma experiência epistemológica extremamente interessante e ilustrativa, a respeito deste assunto. O caso de um mesmo personagem político, que comete duas vezes duas “mesquinharias” parecidas, mas com  conseqüências opostas.  Primeiro, foi a quebra do sigilo bancário do jardineiro Francenildo, e agora foi a denuncia do seu enriquecimento súbito, segundo parece, no tráfico de influencias dentro do setor público. O mais provável é que estas duas mesquinharias tivessem passado desapercebidas, caso se  tratasse apenas de um homem comum,  sanitarista de interior, ou representante de algum laboratório produtor de vacinas, com grande compulsão financeira e que subiu rápido na vida,  fazendo uso de suas boas relações publicas. Mas tudo isto muda obviamente de figura e importância quando se está falando de um homem de estado, que esteve situado no epicentro da política econômica, e agora supervisiona as  nomeações e decisões estratégicas de um governo em pleno processo de formação. No caso do jardineiro Fracenildo, o afastamento do Ministro da Fazenda permitiu uma virada à esquerda que abriu as portas para o sucesso do segundo governo Lula. Mas neste segundo caso, as conseqüências que estão em pleno curso estão apontando numa direção absolutamente oposta. Graças às novas “mesquinharias financeiras” do mesmo personagem, o que vinha sendo  apenas um governo insípido e tecnocrático – de economistas para economistas –  agora está assumindo a  imagem do seu principal condutor político: a de um velho lobbista do setor privado, junto aos centros de poder responsáveis pelas compras, vendas  e  investimentos do setor publico; e a de um representante político ativo, e membro novo-rico da direita econômica.</p>
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		<title>Hegemonia e Império</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Mar 2011 16:03:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>O passeio de fim de semana da família Obama, ao Brasil, passaria à história como um acontecimento turístico carioca e uma gentileza internacional, se não tivesse coincidido com o desastre nuclear do Japão, e com o início do bombardeio aéreo da Líbia. Em particular, porque a decisão dos EUA de atacarem o país norte-africano, foi tomada no território brasileiro, um pouco antes do jantar festivo que o Itamaraty ofereceu  à deleção norte-americana. Esta decisão, sobretudo, serviu para relembrar aos mais apressados, que os EUA seguem sendo a única potência mundial com “direito” de decidir  - onde e quando quiser – e com a capacidade de  fazer intervenções militares imediatas, em qualquer conflito, ao redor do mundo. Uma lembrança oportuna, porque se tornou lugar comum, na imprensa e na academia &#8211; à direita e à esquerda &#8211; falar do declínio do poder americano, enquanto se acumulam as evidências no sentido contrário.  </p>
<p>Depois de 1991, e em particular depois do fim da URSS, a Europa deixou  de ser o centro de gravidade do sistema internacional, que passou para o outro lado do Atlântico. E ao mesmo tempo, os EUA se transformaram na “cabeça”  de um novo tipo de “poder global”. Um império que não é colonial,  não tem  estrutura formal, e que possui fronteiras flexíveis, que são definidas em cada caso, em última instancia, pelo  poder naval e financeiro dos EUA  E desde o início do século XXI, os EUA estão enfrentando as contradições, os problemas, e as trepidações produzidas por esta transição e esta mudança de status: da condição de uma “potencia hegemônica”, restrita ao mundo capitalista, até a década de 1980, para a condição de “potência imperial global”. Hoje, é impossível prever como será administrado este novo tipo de Império, no futuro. Porque ele segue sendo nacional e terá que  terá que conviver, ao mesmo tempo, com cerca de outros duzentos estados que são ou se consideram soberanos. E além disto, porque dentro deste sistema, a expansão do poder americano é a principal responsável pela multiplicação dos seus concorrentes, na luta pelas hegemonias regionais, dentro do sistema mundia.</p>
<p>O que está se assistindo, neste momento, é uma mudança na administração do poder global dos EUA. Este processo está em pleno curso, mas será longo e complicado, envolvendo divisões e lutas dentro e fora da sociedade e do establishment norte-americano.  Mesmo assim, o mais provável é que ao final deste processo, os EUA  adotem uma posição cada vez mais distante e “arbitral” com relação aos seus antigos sócios, e em todas as regiões geopolíticas do mundo.. Estimulando as divisões internas e os “equilíbrios regionais” de poder, jogando os seus próprios aliados, uns contra os outros, e só intervindo diretamente em última instancia,  segundo o modelo clássico do Império Britânico.</p>
<p>Este novo tipo de poder imperial dos EUA não exclui a possibilidade de guerras, ou  de fracassos militares localizados, como no Iraque ou Afeganistão, nem a possibilidade de crises financeiras, como a de 2008. Estas crises financeiras não deverão alterar a hierarquia econômica internacional, enquanto o governo e os capitais americanos puderem repassar os seus custos, para as demais potências econômicas do sistema. E as guerras ou fracassos militares localizado seguirão sem importância enquanto não ameaçarem a supremacia naval dos EUA em todos os oceanos e mares do mundo, e enquanto não escalarem na direção de uma “guerra hegemônica” capaz de atingir a supremacia militar norte-americana.</p>
<p>De qualquer forma, é óbvio que este novo poder imperial não é absoluto nem será eterno. Como já foi dito, sua expansão contínua cria e fortalece poderes concorrentes, e  desestabiliza e destrói os “equilíbrios” e as instituições, criadas pelos próprios EUA,  estimulando a formação de  “coalizões de poder” regionais que acabarão desmembrando aos poucos o seu poder imperial, como aconteceu com o Império Romano.  Por outro lado, a nova engenharia econômica mundial deslocou o centro da acumulação capitalista e transformou a China numa economia com poder de gravitação quase equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova geo-economia internacional, intensifica a competição capitalista, e já deu início à uma  “corrida imperialista”, cada vez intensa na África e na América do Sul, aumentando a possibilidade e o número dos conflitos localizados entre as Grandes Potências. Além disso, o poder imperial americano deverá enfrentar uma perda de legitimidade crônica dentro dos EUA, porque a diversidade e a complexidade nacional, étnica e civilizatória do seu império, é absolutamente incompatível com a defesa e a preservação de qualquer  tipo ou sistema de valores universais, ao contrário do que sonha uma boa parte da sociedade norte-americana.</p>
<p>De qualquer maneira, o passeio da família Obama aos trópicos, e a retórica simpática e amena do presidente americano serviram para demonstrar como funciona na prática, o “tratamento entre iguais”, quando um deles é um Império..</p>
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		<title>As ondas do poder e os ciclos da moeda</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Feb 2011 14:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reagindo à Crise Mundial]]></category>

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		<description><![CDATA[“The time has come for a new economic policy for the United States.. Accordingly, I have directed the Secretary of the Treasury to suspend temporarily the convertibility of the American dollar&#8230;” Speech by Richard Nixon,  15 August 1971 &#160; Na história do sistema capitalista, só existiram duas moedas internacionais: a Libra e o Dólar. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-3272" href="http://www.rumosdobrasil.org.br/2011/02/24/as-ondas-do-poder-e-os-ciclos-da-moeda/dolar/"><img class="aligncenter size-medium wp-image-3272" title="dolar" src="http://www.rumosdobrasil.org.br/wp-content/uploads/2011/02/dolar-300x192.jpg" alt="" width="300" height="192" /></a>“The time has come for a new economic policy for the United States.. Accordingly, I have directed the Secretary of the Treasury to suspend temporarily the convertibility of the American dollar&#8230;”</p>
<p>Speech by Richard Nixon,  15 August 1971</p>
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<p>Na história do sistema capitalista, só existiram duas moedas internacionais: a Libra e o Dólar. E só se pode falar da existência de três sistemas monetários globais: o “padrão ouro”, que ruiu na década de 1930; o “padrão dólar”, que terminou em 1971;  e  o “padrão dólar-flexível”, que nasceu na década de 1970 e está passando por uma turbulência, neste início do Século XXI.  Os dois primeiros sistemas se apoiaram numa relação fixa entre a Libra e o Dólar, e uma base  metálica comum, o ouro;  mas o terceiro sistema, o “dólar-flexível”,  não  tem nenhum tipo de padrão metálico de referencia, apoiando-se apenas no poder  dos EUA de definir o valor da sua moeda nacional/internacional, e  dos seus títulos da dívida pública.</p>
<p>Apesar de certa imprecisão histórica, se pode dizer que o “padrão ouro” nasceu depois da vitória inglesa nas guerras bonapartistas, e junto com a supremacia econômica britânica, na América e na Índia. Por sua vez, o “padrão dólar” só se impõe a todo mundo capitalista, depois da vitória americana na II Guerra Mundial. O “sistema dólar-flexível”, entretanto, nasceu de forma diferente, de  uma decisão unilateral e “pacífica”, tomada pelo governo americano. EUA. No dia 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon  decretou o fim da conversibilidade do dólar em ouro, estabelecida em Bretton Woods, em 1944, num discurso à Nação em defendeu a necessidade de um novo sistema monetário internacional. No mesmo discurso, Richard Nixon explicou aos “países amigos” que haviam terminado a época dos “desenvolvimentos a convite”, patrocinados pelos EUA,  e responsável pelo sucesso de algumas economias nacionais que agora estavam competindo com a própria economia norte-americana. Por isto, Richard Nixon apelava aos governos amigos para que colaborassem com a desvalorização do Dólar e o restabelecimento do equilíbrio econômico mundial. Alemanha, Japão e França aceitaram a imposição americana e valorizaram suas moedas, aceitando Smithsoninan Agreement , que vigorou durante 14 meses. Depois disto, a história se complicou, e os EUA tiveram que apelar &#8211; no final dos anos 70 &#8211;  para um política agressiva de valorização unilateral do dólar,  que provocou  uma recessão e um ajuste radical da economia mundial, que tomou toda a década de 1980. Mas apesar dos seus efeitos negativos sobre o “resto do mundo”,  é possível dizer que o novo sistema “dólar-flexível” foi um sucesso do ponto de vista dos grandes interesses econômicos americanos, públicos e privados, durante pelo menos 25 anos..</p>
<p>Esta história econômica é bastante conhecida, mas em geral não se inclui na explicação do sucesso dos EUA, outras coisas que passaram no mesmo ano de 1971. Para começar, no mês de maio de 1971, os EUA e a URSS anunciaram o início de negociações com vistas a um acordo de limitação dos seus sistemas balísticos, e sobre vários tópicos de interesse comercial. Negociações que culminaram com a reunião de cúpula realizada em Moscou, um ano depois,  quando   os presidentes  Richard Nixon e Leonid Breshnev assinaram o primeiro Tratado de Controle de Armamentos, SALT I,  e vários outros acordos comerciais que  marcam o início da détente, entre EUA e URSS, vigente durante toda a década de 1970. Por outro lado, no mesmo mês de maio de 1971, o governo americano respondeu positivamente à proposta feita pelo primeiro-ministro chinês, Chou En-lai, de iniciar negociações visando uma reunião de cúpula entre os presidentes dos EUA e da China.  Os passos que foram dados em seguida pelos dois governos mudaram a face do mundo, começando pela visita secreta de Henry Kissinger à Pequim, em julho de 1971, e culminando com a reunião entre os presidentes Richard Nixon e Mao Tsé-Tung, realizada em fevereiro de 1972.  Na época, Henry Kissinger escreveu uma nota para o presidente Nixon, dizendo: “estabelecemos a base para você e Mao virarem uma página da história. O processo que iniciamos agora enviará ondas supersônicas por todo o mundo&#8230;”.<a href="file:///C:/Users/Moys%C3%A9s/Documents/IDZ-RUMOS/AS%20ONDAS%20DO%20PODER%20E%20OS%20CICLOS%20DA%20MOEDA.doc#_ftn1">[1]</a> E de fato, a relação entre EUA e China que nasceu naquele momento revolucionou a história  mundial. O que em geral não se reconhece, entretanto, é a importância que tiveram as novas relações dos EUA com a URSS e com a China, para ampliar o espaço monetário do dólar, fora do sistema capitalista, e impor a nova política monetária dos EUA aos seus aliados do mundo capitalista. Uma boa lição para antecipar os próximos passos, no momento em que os EUA procuram -, uma vez mais – “ajustar”, a sua moeda e a sua economia nacional, seguindo a coreografia de 1971.</p>
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<p><a href="file:///C:/Users/Moys%C3%A9s/Documents/IDZ-RUMOS/AS%20ONDAS%20DO%20PODER%20E%20OS%20CICLOS%20DA%20MOEDA.doc#_ftnref1">[1]</a> Kissinger, H. Apud R. Dallek, Nixon e Kissinger, Parceiros no Poder, E, Zahar, RJ, p:292</p>
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		<title>O grande jogo de Barack Obama</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jan 2011 02:22:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos últimos dois meses de 2010, o presidente Barack Obama tomou decisões e obteve vitórias internacionais que poderão mudar radicalmente a geopolítica mundial do Século XXI. Graças à intervenção direta do presidente americano, a reunião da OTAN, em Lisboa, no mês de novembro, conseguiu aprovar um “Novo Conceito Estratégico” que define as diretrizes da organização [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos dois meses de 2010, o presidente Barack Obama tomou decisões e obteve vitórias internacionais que poderão mudar radicalmente a geopolítica mundial do Século XXI. Graças à intervenção direta do presidente americano, a reunião da OTAN, em Lisboa, no mês de novembro, conseguiu aprovar um “Novo Conceito Estratégico” que define as diretrizes da organização para os próximos dez anos, com a previsão de retirada de suas tropas do Afeganistão, até 2014, e com decisão de instalar um novo sistema de defesa antimísseis da Europa e dos EUA, com a possível inclusão da Rússia e da Turquia, apesar da resistência do governo turco a cooperar com os países que estão obstaculizando sua entrada na UE.  Esta vitória parcial do governo Obama, se somou à aprovação pelo Congresso americano, em dezembro, do acordo bilateral de controle de armas atômicas, que havia assinado com o presidente Dmitry Medvedev, no mês de abril, e que foi ratificado pelo parlamento russo, poucos dias depois de sua aprovação pelo Senado dos EUA.  Estas iniciativas enterram definitivamente o projeto Bush de instalação de um escudo balístico na fronteira ocidental da Rússia, e aprofundam as relações entre as duas maiores potências atômicas mundiais, desautorizando a mobilização anti-russa dos países da Europa Central, promovida e liderada atualmente, pela Polônia e pela Suécia.</p>
<p>Neste mesmo período, no Oriente Médio, o presidente Obama aumentou sua pressão contrária à instalação de novas colônias israelenses em território palestino, e diminuiu a intensidade retórica de sua disputa atômica com o Irã, sinalizando de forma discreta, a disposição para um novo tipo de acomodação regional. Como  ficou visível, com o acordo político que permitiu a formação do novo governo iraquiano do premier Nuri al Maliki, com a intervenção do irão e com o apoio dos EUA, apesar de que Maliki não fosse o candidato preferido dos norte-americanos. E provavelmente, a crise atual do governo libanês só terá uma solução pacífica e duradoura, se envolver, de novo, um ajuste de posições e interesses entre os EUA e o Irã, mesmo que ele seja informal e não declarado.</p>
<p>Estas vitórias e decisões do governo Obama, estão apontando para uma nova política internacional dos EUA, de aproximação com a Rússia, e de acomodação negociada das crises sobrepostas, do Oriente Médio e da Ásia Central. No caso da aproximação da Rússia, os EUA contam com o apoio da Alemanha, por cima das resistências e das divergências intermináveis da UE, e se ela tiver sucesso, deverá redesenhar o mapa geopolítico da Europa moderna. Dentro da nova aliança, a Rússia colaboraria com a estabilização da Ásia Central, e ocuparia um lugar de destaque na em uma negociação silenciosa – que já está em curso – envolvendo o Irã e a Turquia, por cima das alianças tradicionais dos EUA, dentro da região, com vistas a construção de um novo equilíbrio de poder, no Oriente Médio, Em compensação, a Rússia teria o apoio norte-americano para retomar sua “zona de influencia”, e reconstruir sua hegemonia nos territórios perdidos, depois da Guerra Fria, sem as armas, e pelo caminho do mercado e das pressões diplomáticas, como já vem ocorrendo neste momento.</p>
<p>Esta nova estratégia é  ousada e de alto risco, mas não é  original. No auge do seu poder, logo depois da II Guerra Mundial, os EUA perderam o controle da Europa Central para a URSS,   em seguida perderam o controle da China, para a revolução comunista de Mao Tse Tung,  e foram obrigados à um armistício inglório, na Guerra da Coréia. Como conseqüência, os EUA tiveram que mudar sua estratégia do imediato pós-guerra, e transformaram a Alemanha e o Japão, nas peças econômicas centrais da  aliança em que se sustentou a sua posição durante a Guerra Fria. Duas décadas depois, em plena época de ouro do “capitalismo keynesiano”, os EUA voltaram a ser derrotados no Vietnã, Laos e Cambodja, e perderam o controle militar do sudeste asiático. E de novo mudaram sua política internacional, construindo uma aliança estratégica com a China, que dividiu o mundo socialista, fragilizou a URSS, e redesenhou a geopolítica e o capitalismo do final do século XX. Deste ponto vista, o grande jogo proposto pelo governo Obama, para o mundo pós-Iraque e pós-Afeganistão, aponta na mesma direção da década de 1970, só que com o sinal trocado.  Agora se trata de uma proposta de aliança estratégica com a Rússia, que bloquearia a expansão chinesa na Ásia, mas que também envolverá algum tipo de apoio ou “convite” ao desenvolvimento do capitalismo russo,  bloqueado pelo seu excessivo viés “primário-exportadora”.</p>
<p>Roosevelt concebeu uma aliança parecida com a URSS, em 1945, mas sua proposta foi atropelada pela sua morte, e pela estratégia desenhada por Churchill e Truman, que levou à Guerra Fria.  Agora de novo, o projeto de Barack Obama pode revolucionar a geopolítica mundial, mas também pode ser atropelado – entre outras coisas &#8211; pelas mudanças presidenciais que ocorrerão nos EUA e na Rússia, no ano de 2012.</p>
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