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	<title>Rumos do Brasil &#187; Fernando Mattos</title>
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		<title>Globalização e trabalho</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 15:00:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando Mattos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reagindo à Crise Mundial]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_826" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.rumosdobrasil.org.br/wp-content/uploads/2009/11/globalizacao-e-trabalho.jpg"><img class="size-medium wp-image-826" title="Globalização e trabalho" src="http://www.rumosdobrasil.org.br/wp-content/uploads/2009/11/globalizacao-e-trabalho-300x205.jpg" alt="Ilustração: William Medeiros" width="300" height="205" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: William Medeiros</p></div>
<p>O processo de globalização gerou uma série de assimetrias e movimentos tendenciais importantes, cuja análise mais cuidadosa muitas vezes escapa ao debate recente, centrado nas propostas de reformas necessárias para “superar” a crise financeira internacional. Este teve origem com o amplo processo de desregulamentação dos fluxos de capitais, ocorrido de forma mais acentuada a partir da “contra-revolução“ liberal iniciada com as eleições de Margareth Thatcher, na Inglaterra, em 1979 e de Ronald Reagan, nos EUA, em 1980, e que desaguou na crise de 2007-2008   </p>
<p>Dados das contas nacionais dos principais países capitalistas, referentes aos anos 1980 em diante, revelam pelo menos três movimentos bastante claros: (a) queda da parcela salarial na renda nacional na maioria dos países; (b) aumento da taxa de lucro (ou taxa de retorno) nas atividades produtivas; (c) o referido aumento da taxa de lucros não tem se traduzido em aumento na taxa de investimento produtivo na quase totalidade dos países capitalistas desenvolvidos.</p>
<p>Uma parte importante da literatura crítica acerca do processo de globalização financeira dos idos tempos do neoliberalismo destaca que o crescimento da acumulação financeira tem superado, de forma destacada, a acumulação do capital em sua esfera produtiva. A despeito da correção desse diagnóstico, a ênfase nessa suposta dicotomia entre capital financeiro e capital produtivo esconde um fato ainda mais significativo e este sim um resultado da globalização sob o capitalismo contemporâneo: trata-se da degradação do mercado de trabalho, manifesta na ampliação da massa de valor extraída do Trabalho, no aumento do desemprego na maior parte dos países desenvolvidos (para não falar dos subdesenvolvidos), na concentração da renda, da riqueza e do tempo livre (sobre esta última, falaremos mais à frente).  A já mencionada queda da parcela salarial resulta desse processo de degradação do Trabalho e é apenas a face mais visível aos que analisam o capitalismo contemporâneo somente pelos dados habitualmente utilizados pelos analistas do mercado financeiro.</p>
<p>A queda da parcela salarial é que “abriu espaço” para a ampliação da “taxa de retorno”, mas a essência do processo de financeirização está no fato de que essa massa de lucros crescentes foi distribuída na forma de rendas financeiras. Ademais, deve-se destacar que a financeirização da riqueza acaba norteando os critérios de aplicação do capital produtivo, cada vez mais compelidos pela necessidade de acumulação de curto prazo e alta lucratividade (pelo menos até a queda do Muro de Wall Street, em outubro do ano passado) até então possibilitada pelas diversas e criativas modalidades de aplicações financeiras.</p>
<p>As decisões de abrir mão da liquidez em favor de aplicação do capital na esfera produtiva tornavam-se, portanto, cada vez mais constrangidas pelo custo de oportunidade que significavam os altos retornos esperados e de fato obtidos (até que a crise chegasse) pela aplicação do capital na esfera financeira. Esse “desvio” de recursos da esfera produtiva para a financeira, portanto, é que explica a degradação dos mercados de trabalho e os movimentos concentradores promovidos pela ordem financeira desregulada que ora se encontra em xeque. Para as grandes corporações, a dicotomia capital financeiro versus capital produtivo não impedia, pelo menos até a eclosão da crise ainda vigente, um aumento da acumulação de capital. A dicotomia capital financeiro-capital produtivo revela-se uma falsa e fútil disjuntiva, posto que, no âmbito das estratégias das grandes corporações capitalistas, tratava-se apenas de definição da composição do portfólio de aplicação do capital. A marca do processo de globalização financeira liberal foi, na verdade, a degradação do Trabalho.</p>
<p>Os dados referentes aos anos 80 em diante mostram que houve aumento da concentração da renda e da riqueza na maior parte dos países capitalistas desenvolvidos. Houve também o que chamaremos aqui de concentração do tempo livre, pois a finança desregulada promoveu, ao mesmo tempo, uma ampla e crescente parcela de desempregados ao lado de uma pequena, mas também crescente, parcela de indivíduos vivendo de rendas retiradas de diversas modalidades de aplicações financeiras. Ou seja, muitos não usavam seu tempo no trabalho pois não o encontravam,  enquanto outros (os rentistas) desfrutavam de um tempo livre cada vez maior, dada a não–necessidade de trabalhar, por retirarem sua renda das suas próprias aplicações financeiras, cada vez mais rentáveis.</p>
<p>Nos anos mais recentes pré-crise parece que o fenômeno da “autonomização” das finanças tomou novo impulso, ao mesmo tempo em que as diversas modalidades de desigualdades acima aludidas pareciam também se acentuar.  Dados recentes da OIT revelam que, entre 2003 e 2007, nos EUA, o pagamento dos altos executivos (baseados, cada vez mais, em rendimentos obtidos por desempenho e menos em salários fixos) cresceu 45%, em termos reais, enquanto os de executivos de médio escalão cresciam 15%, contra apenas 3% do trabalhador americano médio. Desde 1970, o salário médio americano esteve quase estagnado, o que ajuda a explicar a crise atual, pois a ampliação da parcela do consumo na renda nacional – uma marca do capitalismo americano das últimas décadas do século – só seria possível, dada a estagnação salarial, pelo crescente endividamento das famílias, o que, de qualquer forma, não poderia durar para sempre, ainda mais quando passou, cada vez mais, a apoiar-se em bases tão frágeis quanto as do sistema subprime, conforme agora se sabe.</p>
<p>Também em estudo recente, a OIT revelou que a ampliação das desigualdades de renda ocorreu em países de grau de desenvolvimento e de continentes tão diversos quanto África do Sul, Austrália, Holanda, Hong Kong (China) e México, entre outros.</p>
<p>Trabalhando-se dados também recentemente divulgados pela OIT pode-se constatar que, em 1991, a parcela do emprego das economias avançadas representava 17,5% do total do emprego mundial e, em 2004, esta parcela havia decrescido para 15,5%. A partir de 2004, porém, esse movimento alvissareiro, em favor dos países periféricos, cessou de ocorrer, sendo possível prever que a digestão da crise atual pode estar degradando esse raro movimento desconcentrador ocorrido sob a ordem internacional que vigorou nas últimas décadas.</p>
<p>A superação do Consenso de Washington, justamente celebrada por muitos, não garante necessariamente que a mesma será sucedida por uma ordem internacional menos indigesta para o Mundo do Trabalho. Os sinais de recuperação emitidos pelos indicadores econômicos das últimas semanas podem contribuir para criar a ilusão de que apenas pequenas mudanças são necessárias para retomar o processo de crescimento econômico. Mudanças radicais na regulação dos movimentos de capitais teriam que ser feitas para que o cenário internacional pudesse embasar outras mudanças que gerassem novas possibilidades para o Mundo do Trabalho.</p>
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