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	<title>Rumos do Brasil &#187; César Benjamin</title>
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	<description>Propostas para um país melhor</description>
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		<title>Encruzilhada amazônica</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Apr 2010 11:23:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A destruição da Amazônia e, eventualmente, a perda de soberania sobre parte da região serão os acontecimentos menos perdoados pelos nossos descendentes. A primeira, um processo em curso, e a segunda, uma possibilidade futura, se reforçam. Desenvolvimento sustentável e consolidação da soberania são indissociáveis. Há cerca de cem anos, pela obstinação e o talento de Rio Branco, concluímos a delimitação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_2254" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.rumosdobrasil.org.br/wp-content/uploads/2010/04/Amazonia.jpg"><img class="size-full wp-image-2254" title="Amazonia" src="http://www.rumosdobrasil.org.br/wp-content/uploads/2010/04/Amazonia.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Ilustração: www.sxc.hu</p></div>
<p>A destruição da Amazônia e, eventualmente, a perda de soberania sobre parte da região serão os acontecimentos menos perdoados pelos nossos descendentes. A primeira, um processo em curso, e a segunda, uma possibilidade futura, se reforçam. Desenvolvimento sustentável e consolidação da soberania são indissociáveis.</p>
<p>Há cerca de cem anos, pela obstinação e o talento de Rio Branco, concluímos a delimitação de fronteiras e obtivemos direitos sobre o conjunto da Amazônia brasileira atual. Mas nunca desenvolvemos, em escala significativa, um modo de ocupação adaptado às condições e às potencialidades da floresta tropical úmida que predomina ali. Enormes  extensões permaneceram frouxamente ligadas ao resto do país. Nas últimas décadas, elas vêm sendo cercadas e espremidas por atividades que falam em nome do desenvolvimento, mas são, tão-somente, desdobramentos de técnicas do Período Neolítico: extrair madeira e criar gado. O uso indiscriminado do fogo torna tudo mais rápido.</p>
<p>Isso é a morte da Amazônia, tal como a conhecemos. Florestas, chuvas, solos e seres vivos, incluindo microrganismos, formam um sistema integrado. A cobertura vegetal comanda a reciclagem da água, para a atmosfera e os rios, e alimenta de nutrientes os solos pobres. Retirá-la para plantar pastagens ou monoculturas é condenar essas áreas à degradação e à pobreza, que geram mais degradação e pobreza conforme o processo avança, em inexorável fuga para frente. O deslocamento descontrolado das fronteiras de expansão é a marcha da insensatez.</p>
<p>A riqueza biológica da Amazônia, associada a outras riquezas, todas ainda mal conhecidas, pode ser o nosso passaporte para o século XXI. O Brasil demonstrou grande capacidade de aprender as técnicas da Segunda Revolução Industrial, mas não se habilitou, com a mesma eficácia, a criar novas técnicas. Isso perpetua a nossa posição periférica no mundo, pois as sociedades que comandam os processos de inovação ocupam o centro do sistema internacional. As biotecnologias, como se sabe, são uma importante fronteira atual. A floresta em pé nos oferece os estoques genéticos necessários para desenvolvê-las. Preferimos, porém, reduzi-los a cinzas, antes mesmo de conhecê-los, para abrir espaços a bois. No outro extremo, há os que recusam qualquer atividade econômica.</p>
<p>Paradoxalmente, as duas posições – a intocabilidade da floresta ou a sua devastação – preparam o mesmo resultado: a perda de soberania. Equivocam-se os que descartam essa hipótese. A história do Oriente Médio, no século XX, mostra como é explosiva a combinação de recursos estratégicos e sociedades fracas. A mesma combinação está se formando na Amazônia, no século XXI. Em vez de petróleo, estão em jogo biodiversidade, água doce, minerais raros, potencial energético.</p>
<p>O Estado nacional é o único agente capaz de articular um projeto regional abrangente, em suas múltiplas dimensões. As populações locais precisam ser integradas nele, com ampla participação, pois delas dependerá o futuro que construiremos. A Amazônia não será preservada, apenas, com medidas repressivas. Se a ação do Estado for basicamente negativa, reafirmando o que não pode ser feito, sem que saibamos propor aquilo que deve ser feito, as boas intenções serão derrotadas. De uma forma ou de outra, as pessoas precisam sobreviver.</p>
<p>Num governo cheio de ambigüidades, para dizer o menos, a exministra Marina Silva foi até o limite. Deixou um legado de sinceridade. Torço para que ele não seja substituído por propostas improvisadas, tão a gosto de Mangabeira Unger, nem por operações pirotécnicas, concebidas para alimentar o noticiário do dia, marcas registradas da trajetória de Carlos Minc. Recolham-se, por favor, vaidades e oportunismos. É com o futuro do Brasil que estamos lidando.</p>
<p>Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de S. Paulo, 17 de maio de 2008</p>
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		<title>Um tiro no pé</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 13:44:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[A especulação não poderia ter ido tão longe se o sistema internacional não contasse com o lastro dos títulos do Tesouro americano: quanto mais volátil se torna a riqueza, quanto mais arriscadas as operações para aumentá-la, mais ela necessita de uma retaguarda segura. Por outro lado, esses títulos não seriam tão importantes se as demais expressões da riqueza [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A especulação não poderia ter ido tão longe se o sistema internacional não contasse com o lastro dos títulos do Tesouro americano: quanto mais volátil se torna a riqueza, quanto mais arriscadas as operações para aumentá-la, mais ela necessita de uma retaguarda segura. Por outro lado, esses títulos não seriam tão importantes se as demais expressões da riqueza não tivessem assumido formas tão inseguras. Denominados em dólar, eles garantem o papel especial da moeda americana no mundo, como moeda de reserva. Assim, globalização financeira e hegemonia dos Estados Unidos tornaram-se faces de um mesmo processo, combinando, como sempre, riqueza e poder.</p>
<p>Mas a financeirização promoveu transformações estruturais na própria economia americana, crescentemente dominada por um novo tipo de gestão de negócios, a gestão de ativos líquidos. Movimentando-se com desenvoltura no espaço dos mercados de capitais, manejando portfólios muito diversificados, os gestores dessas grandes massas de recursos alteraram o modo como a economia funciona, capturando e abandonando empresas, sucessivamente, conforme as expectativas de rentabilidade no curto prazo. O impacto disso sobre os desdobramentos da crise atual é tremendo.</p>
<p>Os acionistas controladores – frequentemente detendo uma quantidade ínfima de ações, por causa da pulverização – deixaram de ter vínculos de longo prazo com as empresas que controlavam, introduzindo óbvias deformações nos processos decisórios. As empresas passaram a ter estruturas de comando sempre transitórias, submetidas à tirania dos balanços trimestrais. Projetos de longa maturação passaram a ser sistematicamente adiados. O conceito de eficiência desvinculou-se de qualquer visão sistêmica e passou a se confundir com o preço das ações negociadas em bolsa, o qual definia a remuneração dos próprios gestores. Um pífio indicador transformado em fetiche.</p>
<p>Esse modelo de capitalismo, apresentado nos últimos anos como o supra-sumo da modernidade, está em crise terminal. Não sabemos qual é a sua capacidade de reformar-se e quais os custos envolvidos nesse processo. Impor a financeirização ao mundo, sob o nome de fantasia de globalização, foi um lance de gênio para perpetuar a hegemonia americana, mas transpor a lógica financeira para a condução da economia real foi um tiro no pé. As grandes empresas americanas foram exauridas, deixadas mambembes.</p>
<p>Soa patética a declaração de Jack Welch, ex-presidente da General Eletric, citado na semana passada por Clóvis Rossi: “A obsessão por lucros de curto prazo e por ganhos nos preços das ações foi uma ideia tola.” Faltou dizer que essa “ideia tola” criou um sistema, uma institucionalidade econômica difícil de ser desmontada. Em torno dela,  desenvolveu-se um saber esotérico que, apesar de mais jovem do que um bom uísque, passou a reivindicar a condição de uma ortodoxia consolidada. Os operadores financeiros apresentavam a opacidade das suas operações e a complexidade das suas teorias como provas de cientificidade. Não eram nada disso: quanto maior e mais instável um castelo de cartas, mais complexas são as tentativas de sustentá-lo. Até que, um dia, ele cai.</p>
<p>A riqueza ilusória está sendo queimada. Vem à luz a incrível sobreposição de endividamentos impagáveis. A sociedade toda empobrece. Como os Estados Unidos são o grande pólo da demanda efetiva mundial, o mundo também está encalacrado: nada será como antes, mas, havendo mudanças, tudo, por um bom tempo, pode ficar ainda pior.</p>
<p>Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de S. Paulo,  em 19 de março de 2009.</p>
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		<title>A guerra perfeita</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Mar 2010 14:25:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Em vinte páginas publicadas originalmente em janeiro de 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Alexandre Kojève realizou uma síntese e uma reinterpretação geniais do capítulo IV da Fenomenologia do Espírito, de Hegel. O capítulo se chama “Autonomia e dependência da consciência-de-si: dominação e sujeição”, e é nele que Hegel desenvolve a dialética do senhor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em vinte páginas publicadas originalmente em janeiro de 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Alexandre Kojève realizou uma síntese e uma reinterpretação geniais do capítulo IV da Fenomenologia do Espírito, de Hegel. O capítulo se chama “Autonomia e dependência da consciência-de-si: dominação e sujeição”, e é nele que Hegel desenvolve a dialética do senhor e do escravo.</p>
<p>O que diferencia o desejo animal e o desejo humano, ele diz ali, é que o primeiro se dirige a objetos reais, “positivos”, que existem na natureza, enquanto o segundo – o desejo especificamente humano – se dirige a um outro desejo: “A história humana é a história dos desejos desejados. (&#8230;) O Ser humano só se pode constituir se pelo menos dois desejos se confrontam.”</p>
<p>O confronto, por sua vez, tem de ser (ou, pelo menos, tornar-se) assimétrico. Pois, se ambos os contendores lutassem até a morte, a História não poderia existir. Torna-se escravo aquele que coloca sua vida acima de sua liberdade, e por isso, em algum momento, pára de lutar. Torna-se senhor aquele que coloca sua liberdade acima de sua vida, e por isso continua lutando. Instaura-se assim um processo histórico muito complexo, que Hegel descreve de forma longa e brilhante, com um final surpreendente. Marx será herdeiro direto dessa construção ideal, reinterpretando-a com novos conteúdos.</p>
<p>Ao longo da História real, o estabelecimento e a reafirmação de relações de senhorio e servidão passaram normalmente pela guerra, forma extrema de impor a vontade de um à vontade do outro. Na segunda metade do século XX, depois de uma conflagração que devastou o coração do Ocidente, a Rússia, o Norte da África, o Médio e o Extremo Orientes, com a terrível experiência do extermínio planejado e o advento da era atômica, chegamos a pensar que a guerra se tornara obsoleta. Estávamos errados. O que a inibiu, nos anos seguintes, foi o equilíbrio de poder entre duas superpotências capazes de se aniquilar. Superado esse equilíbrio, a potência restante voltou a torná-la um instrumento banal. Com o fim da Guerra Fria, a imposição de uma nova ordem ao mundo passou a exigir guerras regionais. A principal delas está em curso no Iraque, tendo como motivações mais importantes aquelas ligadas à geopolítica do petróleo.</p>
<p>Muitos de nós pensamos que essa guerra havia sido resolvida com a queda de Bagdá. Teriam ficado comprovadas a eficácia decisiva de uma nova geração de armamentos e a superioridade da técnica. Para reforçar essa impressão, a topografia do país estava a favor do invasor: Lawrence da Arábia já havia percebido, em 1918, que uma guerra no deserto mimetiza uma guerra no mar, na qual a superioridade aérea, cada vez mais, é o elemento decisivo.</p>
<p>Estávamos errados, de novo. O acontecimento mais relevante no mundo atual é a resistência do Iraque e a surpreendente constatação de que o povo iraquiano vencerá. Pois o tempo, agora, está a seu favor: para o lado norte-americano, é uma guerra de altíssimo custo, enquanto, para o iraquiano, é de baixíssimo custo; são muito maiores as capacidades iraquianas de aceitar baixas e repor combatentes; em becos e ruas, a superioridade do armamento perde para a qualidade da infantaria, a mobilidade, o domínio do terreno, a surpresa e, principalmente, o apoio popular. Por trás de tudo isso está o fator fundamental: os norteamericanos destruíram a infra -estrutura física e as instituições do Estado invadido, incluindo aí suas forças armadas, mas não foram capazes de quebrar a vontade dos iraquianos que optaram por resistir. Hoje sabemos que, ao contrário, a vontade dos Estados Unidos será quebrada primeiro. Por isso, de uma forma ou de outra, em prazo menor ou maior, o Iraque vencerá.</p>
<p>A guerra, pois, continua a ser um confronto entre homens, decidido pela vontade dos homens. Se o ocupante não consegue obter suficiente base política na sociedade local, a ocupação fracassará, independentemente da superioridade tecnológica que possa exibir. Retornemos a Hegel: quem segue lutando, escravo não será.</p>
<p>Retornemos, porém, muito mais: há 2.500 anos, Sun Tzu dizia que a guerra perfeita é aquela que não chega a ser travada. O estrategista perfeito é o que consegue quebrar a vontade do outro sem ter de arcar com os custos e os riscos de uma guerra real. Sob esse ponto de vista, a guerra patrocinada por Bush no Iraque, em busca de bons negócios, é escandalosamente imperfeita: dispendiosa, suja, cínica, aberta, ilegítima, infindável, insustentável.</p>
<p>A guerra perfeita da potência dominante, nos últimos anos, foi travada contra o Brasil. Pois aqui, sim, ela quebrou a vontade do outro – a nossa vontade – sem ter de arcar com os custos de uma guerra real. Conseguiu tecer a ampla base política interna que legitima uma ocupação que, por isso, pode permanecer virtual. Se alguém tinha dúvidas disso, deve tê-las perdido quando ouviu a declaração lapidar de Lula em recente reunião com banqueiros de Nova York, logo após a aprovação do salário mínimo de R$ 260,00: “O Brasil é um bom negócio.”</p>
<p>Lula foi recatado. Poderia ter dito: o Brasil continua a ser um bom negócio. Pois isso sempre foi. Foi excelente o negócio do açúcar, que nos séculos XVI e XVII, baseado aqui, formou o moderno mercado mundial e encheu as burras dos banqueiros europeus. Foi magnífico o negócio do ouro na segunda metade do século XVIII; graças a ele, a Inglaterra – que nunca teve minas de ouro – constituiu suas enormes reservas e criou o primeiro padrão monetário mundial (o padrão libra-ouro) no século XIX, símbolo e suporte de sua hegemonia. A partir de 1840, até bem entrado o século XX, foi maravilhoso o negócio do café, estimulante de baixo custo e fácil distribuição, ofertado à classe trabalhadora da Europa e dos Estados Unidos, que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Foi sempre estupendo o negócio do endividamento perpétuo dessa sociedade que, preferindo a sobrevivência medíocre – na condição de “bom negócio” para os outros – à luta pela autonomia e a liberdade, escolheu o destino de escravo, a que Hegel se referia, duzentos anos atrás.</p>
<p>A guerra perfeita, repito, foi a guerra que nos derrotou. O presidente Lula é a prova.</p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado na Revista Caros Amigos de junho de 2004.</em></p>
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		<title>Nossa América</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Mar 2010 14:46:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geopolítica]]></category>

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		<description><![CDATA[Três regiões participam hoje, ativamente, da grande disputa mundial por riqueza e poder: a América do Norte, a Europa e o Leste da Ásia. A primeira é diretamente controlada pelo megaestado dos Estados Unidos, que consolidou seu domínio regional com o acordo do Nafta e pretende expandi- lo para todo o Hemisfério por meio da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Três regiões participam hoje, ativamente, da grande disputa mundial por riqueza e poder: a América do Norte, a Europa e o Leste da Ásia. A primeira é diretamente controlada pelo megaestado dos Estados Unidos, que consolidou seu domínio regional com o acordo do Nafta e pretende expandi- lo para todo o Hemisfério por meio da Alca. A segunda está em processo de unificação, com a formação de um megaestado continental, a União Européia. A terceira conta com pelo menos dois megaestados – o Japão e a China – com marcante atuação regional; a fortíssima integração é um dos motivos do êxito das economias asiáticas.</p>
<p>Três outras regiões do mundo não definiram projetos regionais nem construíram estruturas políticas capazes de levá &#8211; los adiante: o Oriente Médio, a África e a América do Sul. A primeira está sob ocupação militar. A segunda permanece paralisada por níveis de pobreza muito elevados e contenciosos internos muito graves.</p>
<p>Das regiões periféricas, é a América do Sul aquela que apresenta as melhores condições para constituir um projeto próprio. Nossas nações compartilham as mesmas aspirações por soberania, desenvolvimento e justiça. Nossos povos podem construir com facilidade uma identidade comum. Nossas economias são complementares. Em um mundo cada vez mais ameaçado pela escassez, contamos com recursos naturais abundantes, inclusive os energéticos e os biológicos, que serão cada vez mais importantes. Temos acesso aos dois grandes oceanos. Temos também indústrias, universidades e centros de pesquisa.</p>
<p>Uma região que, no século XXI, pode ser facilmente superavitária na produção de alimentos e de energia não pode aceitar passivamente a pobreza de suas populações e a condição periférica no mundo.</p>
<p>A construção da unidade continental é um sonho que percorre a nossa história. Está presente na vida e na obra dos nossos melhores intelectuais, lutadores e estadistas – o venezuelano Simon Bolívar, o cubano José Marti, o peruano José Carlos Mariátegui, o argentino Ernesto Guevara, o brasileiro Darcy Ribeiro, para citar apenas alguns. Em períodos anteriores, pelo menos três causas impediram que essa unidade prosperasse:</p>
<ol>
<li>Durante a maior parte de nossa história, fomos economias primário -exportadoras, cujos centros dinâmicos ligavam-se diretamente ao exterior e eram comandados de lá. A infra-estrutura unia regiões exportadoras aos portos e estes, diretamente, à Europa ou aos Estados Unidos, de onde importávamos produtos industriais. As elites que comandavam essas economias articulavam-se muito mais fortemente com os centros estrangeiros do que com suas próprias sociedades.</li>
<li>Permaneceu existindo um vazio econômico e demográfico no coração do continente, ocupado pela região amazônica e sua extensa periferia, onde predominavam atividades extrativistas dispersas. As distâncias interiores eram quase intransponíveis.</li>
<li>O processo histórico de formação de nossas sociedades produziu diferenciações. No Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no Chile e na Argentina predominaram povos novos; eles foram formados já no mundo moderno pela mistura de grupos humanos originários da própria América, da Europa, da África e até da Ásia, usados como força de trabalho pelo capitalismo europeu. Na Bolívia, no Peru, no Paraguai e no Equador predominaram povos herdeiros das civilizações pré-colombianas, cuja identidade está pulsando com cada vez mais força no continente.</li>
</ol>
<p>Estão dadas as condições para superar esses fatores que impediram um projeto regional:</p>
<ol>
<li>Dos esforços desenvolvimentistas do século XX herdamos economias mais industrializadas, capacidade técnica mais desenvolvida e mercados internos mais fortes, além de uma incipiente rede de infra-estrutura voltada para efetuar ligações internas.</li>
<li>O papel da Amazônia mudou. No século XXI, no lugar de um vazio econômico e demográfico, ela terá de constituir a base geográfica de um novo projeto comum de cooperação e desenvolvimento, capaz de garantir o controle de nossos povos sobre recursos estratégicos – como água doce, biodiversidade, fontes de energia e minerais –, além do domínio das biotecnologias.</li>
<li>Cada vez mais, nossos povos têm de enfrentar juntos aquele que é o seu maior desafio, o de controlar os processos que definem o curso de sua própria história. Os povos herdeiros das civilizações pré-colombianas perderam o controle de sua história com a invasão européia. Os povos novos, formados depois da invasão, nunca tiveram esse controle. A modernidade européia, continuada na fase de hegemonia dos Estados Unidos, mantém todos os povos da América do Sul na condição comum de povos-objeto. Isoladamente, nenhum deles conseguirá tornar-se sujeito de sua própria história. É o que justifica o antigo sonho da unidade continental.</li>
</ol>
<p>Neste início de século XXI, teremos de decidir: ou seremos incorporados à área sob controle direto do megaestado dos Estados Unidos, que no futuro poderá vir a ser formalmente declarada como a área do dólar, ou constituiremos uma área regional autônoma de cooperação e desenvolvimento, que poderá vir a ser o embrião de uma federação sul-americana. Há uma bifurcação em nosso caminho.</p>
<p>Os adversários da América do Sul têm o seu projeto: criação da Área de Livre Comércio das Américas; dolarização progressiva do continente; desnacionalização das economias e dos recursos naturais; transformação dos Estados nacionais em reféns do sistema financeiro internacional; isolamento ideológico e enfraquecimento das forças armadas; presença militar crescente dos Estados Unidos, especialmente na região amazônica; cooptação das elites pensantes e controle dos meios de comunicação de massa. Mas, em quase todos os países, forças políticas cada vez mais representativas reconhecem que um projeto sul-americano alternativo é necessário e viável. Elas vêm obtendo sucessivas vitórias. Está no fim o ciclo da aventura neoliberal. Inicia-se um novo período da nossa existência.</p>
<p>O projeto sul-americano reforçará as tendências, já existentes, que apontam para o trânsito da unipolaridade para uma nova multipolaridade na geopolítica mundial. É preciso defini- lo com clareza e viabilizá- lo politicamente. O papel do Brasil é insubstituível. Precisamos deixar para trás a posição ambígua que temos tido e assumir claramente que a unidade da América do Sul tem de ser um elemento-chave da nossa política externa. Um ambicioso projeto comum para a Amazônia, a integração da matriz energética continental e a criação de uma moeda contábil para regular o comércio intra-regional, de modo a libertá-lo da dependência do dólar, podem ser os primeiros grandes passos nessa direção. Estão ao alcance dos governos progressistas da região.</p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado pela Caros Amigos, março de 2006.</em></p>
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		<title>A disputa amazônica</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2010/02/23/a-disputa-amazonica/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 14:35:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Dezenas de órgãos federais desaparelhados e que não se comunicam entre si, nove governos estaduais, centenas de prefeituras, empresas nacionais e estrangeiras, grileiros, organizações não governamentais, igrejas, movimentos sociais, entidades indígenas e outros agentes atuam na Amazônia, defendendo interesses conflitantes, sem que haja uma política coerente de desenvolvimento para a região. De forma simplificada, o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dezenas de órgãos federais desaparelhados e que não se comunicam entre si, nove governos estaduais, centenas de prefeituras, empresas nacionais e estrangeiras, grileiros, organizações não governamentais, igrejas, movimentos sociais, entidades indígenas e outros agentes atuam na Amazônia, defendendo interesses conflitantes, sem que haja uma política coerente de desenvolvimento para a região.</p>
<p>De forma simplificada, o noticiário nos fala de uma disputa que opõe, de um lado, um agronegócio que seria portador da racionalidade econômica e, de outro, ecologistas românticos. O presidente Lula, como sempre, resolveu dar razão aos dois: merece aplausos quem desmatou para levar a soja e o boi, mas as condições mudaram; só conseguiremos continuar vendendo carne e grãos ao mundo se mostrarmos que estamos preocupados com o ambiente. É uma comédia de erros.</p>
<p>Com mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia é o coração territorial do Brasil. A exuberância vegetal depende da reciclagem dos nutrientes em um sistema fechado que se degrada rapidamente quando ocorre o desmatamento. A maior parte dos mais de duzentos tipos de solo é de baixa fertilidade; menos de 10% da região se prestam à atividade agropecuária tradicional.</p>
<p>Muitas áreas ainda têm na extração da madeira a sua atividade econômica primária, aquela que sustenta as demais. Esgotada a madeira entram a soja e o gado, até o solo se tornar imprestável. O que fica é a miséria.</p>
<p>Por isso, as frentes de povoamento estão sempre se deslocando, levando consigo o arco do fogo. A expansão da fronteira agropecuária multiplica cidades com baixa qualidade de vida, onde estão mais de 80% dos habitantes locais. Barracos e palafitas abrigam uma população flutuante, ao mesmo tempo urbana e rural, que ora tenta fixar-se, ora migra, buscando outras cidades, regiões de garimpo e canteiros de obras.</p>
<p>É um modo de ocupação irracional e inviável, mas que criou raízes na sociedade. Não será detido por quem deseja transformar a região em santuário. O desafio é inventar um novo modelo de desenvolvimento, fazendo a sociedade participar dele e defendê-lo. Ele precisará criar e disseminar técnicas novas, intensivas em conhecimento, não mais baseadas na família metal-mecânica do século XX, mas nas biologias. Nunca fizemos nada parecido. O ciclo desenvolvimentista nos capacitou a copiar, mas não a criar.</p>
<p>A calha central do grande rio, seus afluentes e os lagos de várzea podem ser transformados na mais importante fonte mundial de proteína de alta qualidade e de baixo custo, com o manejo racional das milhares espécies de peixes que vivem ali, confinadas pela própria natureza, cujos ciclos biológicos precisamos conhecer. É imensa a fertilidade das áreas de várzea. O conhecimento dos estoques de genes, moléculas e microrganismos promete abrir novas fronteiras para diversos ramos da agricultura e da indústria, como o de fármacos. O plantio de árvores leguminosas, mescladas com palmeiras, em 35% da área já desflorestada pode sustentar uma produção de óleo, renovável, suficiente para substituir o diesel que usamos em todo o território nacional. O grande potencial hidrelétrico pode ser usado inteligentemente, com efeitos regionais benéficos. São apenas exemplos.</p>
<p>Não se trata, pois, de fazer preservação “para inglês ver”, tendo em vista o mercado mundial da soja e do boi. Trata-se de consolidar o nosso território, melhorar a qualidade de vida das pessoas e projetar o Brasil para a vanguarda do século XXI. O caos institucional e a falta de um projeto nacional impedem isso.</p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de S. Paulo, em 27 de junho de 2009.</em></p>
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		<title>Conversa para boi dormir</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 21:42:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[Milhões de famílias norte-americanas foram convencidas de que suas residências não deviam ser consideradas lares, lugares de abrigo e convivência, mas sim ativos financeiros. Essa patologia sustentou mais uma pirâmide de operações especulativas que desabou. Nesse contexto, todos voltamos a defender a intervenção do Estado e a regulamentação. É um recomeço. Mas não se deve [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Milhões de famílias norte-americanas foram convencidas de que suas residências não deviam ser consideradas lares, lugares de abrigo e convivência, mas sim ativos financeiros. Essa patologia sustentou mais uma pirâmide de operações especulativas que desabou. Nesse contexto, todos voltamos a defender a intervenção do Estado e a regulamentação. É um recomeço. Mas não se deve imaginar que seja um caminho fácil.</p>
<p>Há mais de vinte anos, Hyman Minsky advertia que os EUA haviam transitado para o que ele denominou “capitalismo administrador de dinheiro”. À frente do sistema não mais estavam capitães de indústria, mas gestores de ativos líquidos. Imersos em um ambiente excepcionalmente competitivo, avaliados trimestralmente por sua capacidade de valorizar as carteiras que administram, esses gestores são intrinsecamente agressivos, inventivos e, no limite, inescrupulosos. Se não forem predadores competentes acabam sendo caçados.</p>
<p>A composição das carteiras se altera diariamente. Apostam em tudo – no valor relativo das moedas, nos preços de commodities, nas ações em bolsa, em variações infinitesimais das taxas de juros –, sempre operando em mercados futuros, inexistentes. Criam sem parar novos “produtos” financeiros, cada vez mais complexos e opacos. Realizam transações que movimentam bilhões, mas que se concluem sem que haja entrega física de nenhum bem. Fazem muitas contas, mas que não têm nada a ver com o cálculo econômico, em sentido tradicional, pois vivem em um mundo de soma zero. Mesmo assim, têm lucros extraordinários. No Brasil, são conhecidos pelo eufemismo de “investidores<br />
internacionais”.</p>
<p>Voltaire dizia que o Sacro Império Romano não era sacro nem império nem romano. Os neoliberais nos dizem que um descuido gerou uma bolha especulativa que será corrigida com algumas resoluções do Banco Central. É uma piada. No andar de cima desse sistema, não há propriamente bolhas especulativas em um fluxo de investimentos. Há bolhas de investimento em um fluxo de especulação. Especuladores não são um corpo estranho na sociedade norte-americana. Fundos de pensão, fundos mútuos e outros investidores institucionais predominam, representando milhões de pessoas e alargando a base social da atividade rentista. Todos vivem muito acima de seus próprios recursos.</p>
<p>A imposição, ao mundo, dessa forma de gestão da riqueza ganhou um nome de fantasia: globalização. Exigiu a construção de um espaço financeiro homogêneo para além das fronteiras dos EUA. A finança tornou-se global, mas a moeda continuou nacional, o dólar. Os países que se atrelaram a esse sistema volátil precisam proteger-se acumulando reservas, ou seja, esterilizando seus próprios recursos em títulos do Tesouro dos EUA.</p>
<p>Financiados assim pelo mundo, puderam os EUA nesta década, ao mesmo tempo, manter déficits estratosféricos, generalizar endividamentos, fazer guerras, cortar impostos e aumentar o consumo, tudo isso com um desempenho econômico rastejante, o mais baixo crescimento desde a Segunda Guerra Mundial. Essa incrível combinação só é possível porque a gigantesca e crescente dívida “externa” do país e os preços dos produtos que importa estão expressos na moeda que ele mesmo fabrica.</p>
<p>O capitalismo administrador de dinheiro é um sistema complexo, que criou raízes fundas na sociedade americana e está associado à geopolítica do Estado. Associado ao padrão dólar, está se tornando completamente disfuncional para o mundo, mas não temos instituições capazes de conduzir uma transição ordenada. Esse é o dilema. O resto é conversa para boi dormir.</p>
<p>Este artigo foi publicado pela Folha de S. Paulo, 4 de outubro de 2008</p>
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		<title>Viva Evo</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/12/11/viva-evo/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 Dec 2009 18:45:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Integração da América do Sul]]></category>

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		<description><![CDATA[A construção da unidade continental é um sonho que esteve presente na vida e na obra dos melhores intelectuais, lutadores e estadistas da América do Sul, mas nunca se realizou. Muitas causas contribuíram para essa frustração. Durante a maior parte da nossa história fomos economias primário-exportadoras, cujos centros dinâmicos ligavam-se diretamente com o exterior e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A construção da unidade continental é um sonho que esteve presente na vida e na obra dos melhores intelectuais, lutadores e estadistas da América do Sul, mas nunca se realizou. Muitas causas contribuíram para essa frustração.</p>
<p>Durante a maior parte da nossa história fomos economias primário-exportadoras, cujos centros dinâmicos ligavam-se diretamente com o exterior e eram comandados de lá. A infraestrutura unia regiões exportadoras aos portos e estes, diretamente, à Europa ou aos Estados Unidos, de onde importávamos produtos industriais. As elites locais articulavam-se muito mais fortemente com os centros estrangeiros do que com suas próprias sociedades. Além disso, permaneceu existindo um vazio econômico e demográfico no coração do continente, na região amazônica e em sua extensa periferia, onde predominavam atividades extrativistas dispersas. As distâncias interiores eram quase intransponíveis.</p>
<p>Esses obstáculos deixaram de existir. Dos esforços desenvolvimentistas do século XX herdamos economias mais industrializadas, capacidade técnica mais desenvolvida e mercados internos mais fortes, além de uma incipiente rede de infraestrutura voltada para efetuar ligações internas. E o papel da Amazônia mudou. No século XXI ela terá de constituir a base geográfica de um novo projeto comum de cooperação e desenvolvimento, capaz de garantir o nosso controle sobre recursos estratégicos – como água doce, biodiversidade, fontes de energia e minerais –, além do domínio pleno das biotecnologias.</p>
<blockquote><p>No Brasil, Venezuela, Colômbia, Chile e Argentina predominaram mistura da América, Europa, África e Ásia.</p></blockquote>
<p>Isso não é suficiente para que o projeto continental prospere. Falta uma idéia clara da nossa identidade coletiva. A história produziu diferenciações importantes. No Brasil, na Venezuela, na Colômbia, no Chile e na Argentina predominaram povos novos, formados já no mundo moderno pela mistura de grupos humanos originários da própria América, da Europa, da África e até da Ásia, usados como força de trabalho pelo capitalismo europeu. No Peru, no Paraguai e no Equador predominaram povos herdeiros das civilizações pré-colombianas; mesmo espoliados pela invasão européia, preservaram línguas, costumes, formas de organização social, crenças e valores.</p>
<blockquote><p>No Peru, Paraguai e Equador predominaram herdeiros das civilizações pré-colombianas.</p></blockquote>
<p>A Bolívia ocupa um lugar especial. Não é apenas o centro geográfico do continente. É também o principal lugar de encontro desses dois grandes contingentes humanos. Por isso, sempre esteve sob ameaça de desagregação. Até recentemente cresciam as tensões separatistas. A nova Constituição, recém-aprovada, concluiu com êxito uma fase fundamental do rico debate sobre a refundação do país. Mais de 90% dos bolivianos foram às urnas, e mais de 60% votaram sim. As posições da maioria prevaleceram, mas nem por isso as minorias foram esmagadas: suas reivindicações foram levadas em conta, o que reforça a legitimidade do novo arranjo político e institucional.</p>
<blockquote><p>Na Bolívia houve o encontro dos dois grandes contingente humanos.</p></blockquote>
<p>Durante todo o tempo, mesmo agindo sob forte pressão, o presidente Evo Morales destacou-se como grande estadista, firme nos princípios, mas pacificador e aberto ao diálogo. Seu governo deixará um legado histórico, com o reconhecimento pleno dos direitos das populações originais. Os recursos naturais serão nacionalizados e, daqui para a frente, nenhuma propriedade rural poderá ser registrada com mais de 5 mil hectares.</p>
<p>Evo não traiu as expectativas de mudança que nele foram depositadas. Nunca foi uma metamorfose ambulante. A Bolívia reformada, democrática e unitária mostra que a unidade dos povos sul-americanos é uma proposta possível e necessária. Um continente que pode ser facilmente superavitário na produção de alimentos e de energia não pode aceitar a pobreza de suas populações e a condição periférica no mundo.</p>
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		<title>Pergunta óbvia</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/11/30/pergunta-obvia/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 12:48:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>
		<category><![CDATA[belisario betancur]]></category>
		<category><![CDATA[Farc]]></category>
		<category><![CDATA[governo colombiano]]></category>
		<category><![CDATA[tropas americanas na amazonia]]></category>
		<category><![CDATA[uniao patriotica]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 2002 fui convidado pelo governo colombiano, então chefiado por Andrés Pastrana, a integrar um grupo de cidadãos latino-americanos que tentaria facilitar o diálogo com a guerrilha. Estive no país nessa condição e retornei pessimista. Vi que forças poderosas agiam para impedir uma solução negociada. De um lado, a guerrilha superestimava sua capacidade, exigia alterações [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 2002 fui convidado pelo governo colombiano, então chefiado por Andrés Pastrana, a integrar um grupo de cidadãos latino-americanos que tentaria facilitar o diálogo com a guerrilha. Estive no país nessa condição e retornei pessimista. Vi que forças poderosas agiam para impedir uma solução negociada.</p>
<p>De um lado, a guerrilha superestimava sua capacidade, exigia alterações profundas no sistema político e não avaliava corretamente a mudança de cenário em curso, com a crescente intervenção dos Estados Unidos no conflito. De outro, o Estado, embora preservando rituais democráticos fundamentais, era incapaz de garantir a inserção política civil dos combatentes. Permanecia bem viva a memória da experiência da União Patriótica (UP), criada depois dos acordos de paz assinados entre o governo de Belisario Betancur (1982-1986) e as Farc.</p>
<p>Em 1986, como uma etapa do processo de desmobilização guerrilheira, a UP disputou eleições, elegendo bancadas parlamentares em todos os níveis, em quase todo o país. Seu candidato à presidência, Jaime Pardo Leal, ficou em terceiro lugar, ameaçando o bipartidarismo conservador. A progressão da paz, porém, foi abortada: em operações coordenadas, fulminantes, 3.500 dirigentes da UP foram assassinados, incluindo o candidato à presidência e os que haviam assumido cargos eletivos. Os dois novos líderes do partido – Bernardo Jaramillo e o senador Manuel Cepeda Vargas – tiveram o mesmo destino, em sequência.</p>
<p>Os 3.500 homicídios seletivos e as mais de mil tentativas de homicídio em atentados falhados, com inúmeros feridos graves, não levaram ninguém a julgamento, pois qualquer movimentação nesse sentido provocaria um golpe de Estado. Com a UP exterminada, a solução militar – ou seja, a falta de solução – voltou a predominar. Era o que tentávamos ajudar a remediar em 2002, em um país que estava nitidamente cansado da guerra.</p>
<p>Intitulei “O papel estratégico da paz” o meu pronunciamento na principal sessão dos trabalhos. Retiro um trecho e traduzo: “Há mais coisas em curso. Refiro-me às movimentações que prenunciam a possibilidade de controle externo sobre a região amazônica a médio e longo prazos. Se não forem contidas, o que estará em jogo não é pouco. Entre os processos que decidirão como serão redistribuídos riqueza e poder neste novo século, em nível mundial, destacam-se três: a capacidade de manejar a biodiversidade, de alterar a matriz energética e de controlar as reservas de água doce. Essas três questões redefinem o papel da Amazônia no mundo. [...] Perdoem-me a sinceridade: é nesse contexto que vejo, com grande preocupação, a evolução da guerra civil na Colômbia. Ela poderá vir a ser a via de entrada de tropas militares estrangeiras na Amazônia. Além da dimensão humanitária, a construção da paz tem, para todos nós, uma dimensão estratégica.”</p>
<p>Sete anos depois, vejo confirmados os meus temores. A sequência parece-me clara. O processo de paz foi propositalmente inviabilizado. A guerrilha – que, na origem, foi uma expressão da resistência camponesa à<br />
violência dos latifundiários, mas que está obviamente deslocada no tempo – passou a ser apresentada como uma quadrilha de narcotraficantes, um golpe midiático vulgar que visa a deslegitimar qualquer iniciativa de natureza política, a única que pode ser justa e eficaz. Sob o pretexto de exterminá-la, criou-se um aparato militar que desequilibra o balanço de poder no continente. E agora, pela primeira vez na história, sete bases serão construídas na Amazônia para abrigar tropas estrangeiras e mercenários, estes apresentados sob o eufemismo brando de “terceirizados”.</p>
<p>Se a guerrilha está derrotada, como todos dizem, a pergunta óbvia é: para quê?</p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Folha de São Paulo, no dia 07/08/2009.</em></p>
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		<title>Karl Marx manda lembranças</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/11/16/karl-marx-manda-lembrancas/</link>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 19:05:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>

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		<description><![CDATA[As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez requer sofisticação. Quem refletiu mais profundamente sobre essa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez requer sofisticação.</p>
<p>Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século XIX, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava:</p>
<p>(a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pelo aumento da capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria;</p>
<p>(b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta;</p>
<p>(c) ela seria compelida a inventar permanentemente novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são poucas, esses novos bens e novas necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados para a fantasia, que é ilimitada.</p>
<p>Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistemamundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.</p>
<p>Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim ele pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos, pois ninguém tem controle sobre o ambiente econômico em que opera.</p>
<p>Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D – D’ essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotarse: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-davida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.</p>
<p>Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.</p>
<p>O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D – D’. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.</p>
<p>Este artigo foi originalmente publicado na Folha de S. Paulo, em 20/09/2008.</p>
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		<title>Destruição impune</title>
		<link>http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/11/11/destruicao-impune/</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Nov 2009 17:10:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>César Benjamin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ordem Política]]></category>
		<category><![CDATA[matriz energética]]></category>
		<category><![CDATA[usinas hidrelétricas]]></category>
		<category><![CDATA[usinas termelétricas]]></category>

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		<description><![CDATA[A ausência de um projeto nacional aparece dramaticamente no setor elétrico. Nele, fizemos muitas opções corretas durante décadas, usando com inteligência a nossa dotação de recursos e desenvolvendo uma tecnologia que nos colocou na vanguarda mundial. Baseamos a nossa capacidade de geração em usinas que usam duas coisas gratuitas e renováveis, a água das chuvas e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A ausência de um projeto nacional aparece dramaticamente no setor elétrico. Nele, fizemos muitas opções corretas durante décadas, usando com inteligência a nossa dotação de recursos e desenvolvendo uma tecnologia que nos colocou na vanguarda mundial.</p>
<p>Baseamos a nossa capacidade de geração em usinas que usam duas coisas gratuitas e renováveis, a água das chuvas e a força da gravidade, e que operam sem poluir. Sua vida útil é ilimitada, e os equipamentos só precisam ser substituídos depois de cerca de 50 anos de uso. Como a quantidade de chuvas varia, fizemos reservatórios capazes de acumular &#8220;combustível&#8221; &#8211; ou seja, água - durante cinco anos, mesmo em situações de seca.</p>
<p>O sistema, com mais de 4 mil km de extensão norte-sul, foi interligado por mais de 90 mil km de linhas de transmissão. Graças a isso, reservatórios situados em diferentes bacias hidrográficas, sem ligação física entre si, passaram a funcionar como se fossem vasos comunicantes, possibilitando racionalizar o uso da água e regularizar o curso dos rios em grande parte do país. Nossa capacidade de geração elétrica, vista como um todo, passou a ser 25% superior à soma da capacidade das usinas, vistas isoladamente.</p>
<p>Concebemos um sistema de planejamento que nos permitia muita folga nas decisões de operação e expansão do sistema. Passamos, enfim, a ter eletricidade segura e barata.</p>
<p>Os benefícios seriam crescentes. Pois, amortizado o investimento inicial, as usinas hídricas produzem energia quase de graça. Como a intensidade de consumo de energia no PIB tende a cair e nossa população vai se estabilizar em torno de 2040, o Brasil, se fizesse as opções corretas, poderia gerar eletricidade suficiente a custo quase zero, em usinas amortizadas, por tempo indefinido, a partir de meados deste século. Como ninguém pensaria em ofertar energia gratuitamente, o país teria construído uma gigantesca e permanente fonte de renda para aplicar onde quisesse. Seria um pré-sal da eletricidade, mas inesgotável. Teríamos que destinar 2,1% do nosso território a esse projeto.</p>
<p>Tudo isso se perdeu. Na década de 1990, a existência de um setor elétrico nacional, estatal, planejado e eficiente foi vista como uma afronta à modernidade neoliberal. A combinação de ideologia e business impôs que o sistema público cooperativo transitasse para um sistema privado mercantil. Tomada tal decisão, as vantagens do sistema brasileiro - o funcionamento em rede, a base hídrica, o horizonte de longo prazo, o papel ativo das linhas de transmissão, o fornecimento de energia barata - tornaram-se empecilhos, pois não se ajustavam à lógica de operação do capital privado. Começou a obra de destruição.</p>
<p>De lá para cá, assistimos à desgraçada luta dos governos brasileiros contra as nossas vantagens comparativas e contra o conhecimento técnico que acumulamos. No caso de Fernando Henrique Cardoso, foi uma luta explícita, que só arrefeceu quando conseguiu conduzir o país ao apagão de 2001. No caso de Lula, é uma marcha ambígua, cheia de acomodações, mas que não altera a orientação estratégica do antecessor.</p>
<p>A matriz hídrica está sendo substituída pela térmica, poluente e cara. Cada vez mais híbrido, o sistema torna-se cada vez mais complexo, com crescentes custos de transação. Perdeu confiabilidade e capacidade de planejamento. Virou o paraíso dos lucros especulativos, pois quem vende energia não precisa mais, necessariamente, gerá-la. Tudo isso se reflete nas tarifas, agora as mais onerosas do mundo.</p>
<p>A história recente do sistema elétrico é a história da impune destruição de uma enorme potencialidade do Brasil.</p>
<p><em>Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de São Paulo, no dia 17/10/2009.</em></p>
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