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	<title>Rumos do Brasil &#187; Beatriz Bissio</title>
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	<description>Propostas para um país melhor</description>
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		<title>Filho de Sarney não declara conta que tem no exterior</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 16:44:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatriz Bissio</dc:creator>
				<category><![CDATA[A mídia em foco]]></category>

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		<description><![CDATA[Documentos enviados ao governo brasileiro por autoridades chinesas comprovam que o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), mantém uma conta corrente no exterior não declarada à Receita Federal. A informação foi publicada na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo. A conta, operada pessoalmente pelo empresário, estaria em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Documentos enviados ao governo brasileiro por autoridades chinesas comprovam que o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), mantém uma conta corrente no exterior não declarada à Receita Federal. A informação foi publicada na edição de hoje do jornal Folha de S. Paulo. A conta, operada pessoalmente pelo empresário, estaria em um paraíso fiscal, em nome de uma offshore sediada no Caribe.</p>
<p>No começo de 2008, Fernando Sarney teria usado esse canal para realizar uma transferência no valor de US$ 1 milhão a uma agência do banco HSBC em Qingdao, na China. A autorização da transação teria sido assinada pelo empresário.</p>
<p>Fernando Sarney foi um dos alvos da operação Boi Barrica da Polícia Federal, que o indiciou lavagem de dinheiro, fraude e formação de quadrilha. Em meio às denúncias que resultaram da investigação, o empresário obteve liminar na Justiça impedindo o Estado de publicar informações da à operação. A imposição de censura ao jornal ocorreu em meio à pressão para que José Sarney renunciasse à presidência do Senado. O autor da decisão foi o desembargador Dácio Vieira, que é próximo à família Sarney. O jornal está sob censura desde 31 de julho.</p>
<p>Segundo a Folha, durante a operação Boi Barrica, depois rebatizada de Faktor, a Polícia Federal interceptou e-mails em que havia referência ao envio de R$ 1 milhão para a China. Em 2009, Fernando Sarney negou a existência da conta no exterior. Com a transferência autorizada por ele, as autoridades chinesas conseguiram rastrear o dinheiro e confirmaram que os recursos foram creditados na conta da empresa Prestige Cycle Parts &amp; Accessories Limited. Os investigadores brasileiros ainda não sabem qual é a finalidade do depósito.</p>
<h2>Receita</h2>
<p>Segundo o jornal, a conta bancária não é mencionada nas declarações à Receita Federal apresentadas por pessoas físicas e jurídicas ligadas à família Sarney. A operação da Polícia Federal também menciona a mulher do empresário, Teresa Sarney, assim como sua filha, Ana Clara. As duas teriam participação nas transações financeiras da família.</p>
<p>Procurado para rebater a notícia, Fernando Sarney afirmou à Folha, por e-mail, que a imprensa trata informações sobre suas movimentações financeiras de maneira &#8220;truncada e dissociada da realidade&#8221;.</p>
<p>De acordo com ele, a notícia veiculada se refere a um &#8220;vazamento criminoso&#8221; de dados, que deveriam estar protegidos pelo segredo de Justiça.</p>
<p>Com base nesse argumento, o empresário afirmou que não comentaria a notícia. &#8220;Por essa razão, seguindo orientação dos meus advogados, e até mesmo em respeito ao sigilo estabelecido pela própria Justiça, não me pronunciarei a respeito&#8221;, declarou o empresário, na mensagem eletrônica. Já a assessoria de José Sarney informou ao jornal que o assunto não lhe diz respeito.</p>
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		<title>Brasil-Haiti: integração na dor</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 16:45:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatriz Bissio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Integração da América do Sul]]></category>

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		<description><![CDATA[A presença no Haiti da Força de Paz liderada pelo Brasil era tida como exemplo da cooperação possível entre países do Sul sob o patrocínio das Nações Unidas. Um exemplo que a ONU pretende transformar em referência para outras situações críticas, em diferentes partes do mundo. O Brasil e o Haiti estavam juntos na luta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A presença no Haiti da Força de Paz liderada pelo Brasil era tida como exemplo da cooperação possível entre países do Sul sob o patrocínio das Nações Unidas. Um exemplo que a ONU pretende transformar em referência para outras situações críticas, em diferentes partes do mundo. O Brasil e o Haiti estavam juntos na luta para assegurar a presença do governo encabeçado pelo presidente René Préval &#8211; democraticamente eleito em fevereiro de 2006 &#8211; em todo o território daquele país. Agora, o Brasil e o Haiti estão irmanados na dor e no sofrimento pelos mortos e feridos e pela destruição material provocada pelo abalo de 7 graus da escala Richter que sacudiu o país caribenho.</p>
<p>“Transmito meu pesar e minha total solidariedade ao povo haitiano e às famílias das vítimas brasileiras civis e militares&#8221;, afirmou o Presidente Luis Inácio Lula da Silva, em nota oficial divulgada pela Presidência. O chefe de Estado brasileiro lamentou, de forma muito especial, a morte da médica Zilda Arns, de 75 anos, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, vinculada à Igreja Católica. A Pastoral da Criança – dedicada ao atendimento de crianças carentes – já ultrapassou as fronteiras brasileiras e atualmente atua em vários países. Zilda Arns tinha viajado para o Haiti para participar de um encontro missionário, que aconteceu no último final de semana, e ficou depois para acompanhar as ações destinadas ao combate à desnutrição. Ela integrava o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo presidente Lula como órgão consultivo, do qual também participam sindicalistas, empresários, acadêmicos e membros da sociedade civil em geral.</p>
<p>O corpo de Zilda Arns foi localizado sob os escombros de um prédio que servia de sede a um serviço de ajuda humanitária pela embaixatriz Roseana Aben-Athar, mulher do embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman. O embaixador estava em Brasília quando ocorreu o terremoto.</p>
<p>Além de Zilda Arns, o abalo matou pelo menos onze militares brasileiros integrantes das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) e há sete desaparecidos. O Brasil tem mais de mil militares no país. Além dos mortos e dos desaparecidos, nove militares brasileiros ficaram feridos, dois deles em estado grave. Todos foram transferidos para a República Dominicana. Ao todo, a MINUSTAH tem um contingente de mais de sete mil militares, sendo que das tropas participam 17 países, vários deles latino-americanos. Completam a Missão aproximadamente dois mil civis.</p>
<p>Entre as responsabilidades dos soldados brasileiros que prestavam serviço na região da capital do Haiti estava a segurança do Palácio Presidencial, um dos prédios que desmoronou. O presidente René Préval sobreviveu, mas disse à imprensa internacional que o cenário na capital de seu país é &#8220;impossível de descrever&#8221;.</p>
<p>O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que apesar de a embaixada do Brasil em Porto Príncipe ter sido muito danificada, nenhum funcionário brasileiro ficou ferido. &#8220;Para efeitos práticos, a nossa Embaixada não existe mais&#8221;, disse Amorim.  No entanto, há um diplomata brasileiro desaparecido: o representante especial adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, Luiz Carlos da Costa. O chefe da missão da ONU, o embaixador tunisiano Hedi Annabi, está entre os mortos. Costa e Annabi estavam trabalhando juntos, dentro do prédio da missão da ONU em Porto Príncipe no momento do terremoto. O edifício desabou.</p>
<p>O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um chamado urgente à comunidade internacional para prestar assistência humanitária ao Haiti depois da destruição de Porto Príncipe. A maioria dos prédios e grande parte da infra-estrutura da cidade sofreram graves danos. Os serviços básicos de água e eletricidade estão à beira do colapso. O número de vítimas, ainda é impossível de calcular, mais há quem afirme que supera os cem mil. O Brasil anunciou que ajudará o Haiti com 15 milhões de dólares.</p>
<p>A tragédia de Porto Príncipe lembra uma outra, ocorrida em 19 de agosto de 2003, em Bagdá, quando Sergio Vieira de Melo, diplomata brasileiro, funcionário da ONU &#8211; organização na qual tinha se desempenhado como Alto Comissário para os Direitos Humanos – morreu junto com outras 21 pessoas, sob os escombros de prédio onde funcionava a Organização das Nações Unidas. Naquela ocasião não se tratava de um desastre natural. O prédio tinha sofrido um atentado atribuído à Al Qaeda. Vieira de Mello era considerado por muitos como o virtual sucessor de Kofi Annan na Secretaria-Geral das Nações Unidas.</p>
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		<title>Uruguai: Vitória de José Mujica consolida liderança política da Frente Ampla</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Dec 2009 13:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatriz Bissio</dc:creator>
				<category><![CDATA[Integração da América do Sul]]></category>

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		<description><![CDATA[O conhecido e prestigioso escritor uruguaio Eduardo Galeano, ao comentar os resultados do segundo turno das eleições no seu país, realizadas dia 29 de novembro afirmou que os uruguaios são questionadores; Ninguém aceita que lhe digam que cale a boca nem segue por caminhos que lhe sejam impostos por terceiros. E resumiu: “Somos conservadores anarquistas”. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O conhecido e prestigioso escritor uruguaio Eduardo Galeano, ao comentar os resultados do segundo turno das eleições no seu país, realizadas dia 29 de novembro afirmou que os uruguaios são questionadores; Ninguém aceita que lhe digam que cale a boca nem segue por caminhos que lhe sejam impostos por terceiros. E resumiu: “Somos conservadores anarquistas”.</p>
<p>O comentário faz sentido se colocado no contexto do teor da campanha eleitoral que acabou por dar a vitória – aliás, contundente vitória, com 52,85% dos votos &#8211; à fórmula José “Pepe” Mujica-Danilo Astori, da coligação de esquerda Frente Ampla. Os partidos tradicionais do Uruguai, o Partido Blanco ou Nacional e o Partido Colorado, aliados no segundo turno, tentaram por todos os meios, durante a campanha eleitoral, desencorajar o voto na Frente Ampla, tirando do armário velhos discursos – eficazes nos anos 70 – a respeito do perigo representado pelos “Tupamaros” para a democracia. Insistiram até o cansaço na tese de que “uma vez guerrilheiro, sempre guerrilheiro”, procurando semear desconfianças no compromisso com as instituições republicanas e com o respeito à Constituição de parte de José Mujica, hoje presidente eleito, que nos anos sessenta e setenta do século passado foi um dos líderes do movimento armado que dominou a cena política uruguaia.</p>
<p>Porém, como mostraram as urnas, a campanha difamatória não teve os resultados que a coligação do Partido Nacional e do Partido Colorado esperava, que seria a vitória ao ex-presidente conservador Luis Alberto Lacalle. Na verdade, parece ter tido os efeitos contrários ao esperado, uma vez que a Frente Ampla aumentou os percentuais de votação com relação ao primeiro turno, realizado em outubro, em até dez pontos percentuais em alguns departamentos (estados) e nunca em menos de quatro pontos, sem ter feito nenhuma aliança política. Isso significa que recebeu votos blancos, colorados e dos eleitores do pequeno Partido Independente, que liberou as pouco expressivas bases para optarem pela fórmula que desejassem no segundo turno.</p>
<p>Os dirigentes do Partido Nacional acusaram o golpe da expressiva derrota e em declarações no dia seguinte às eleições reconheceram que tinham que avaliar como iriam comportar-se no futuro, mas já adiantaram que deverão modernizar o seu discurso político e renovar os seus quadros dirigentes. Para o ex-presidente Luis Alberto Lacalle está foi, sem dúvida, a última chance de ser novamente um protagonista de primeira línea. Alguém já disse que ele parece uma versão uruguaia de Carlos Menem: mais sofisticado intelectualmente, porém igualmente comprometido em denúncias de corrupção: a falência do Banco Pan de Azúcar e as outorgas irregulares de meios de comunicação a seus amigos, transformadas hoje em pesadelos, fazem duvidar até da sua capacidade de se manter à frente do Diretório de seu partido. Algo semelhante ocorre com o Partido Colorado, que dominou a política uruguaia por décadas, com figuras de grande projeção, como os ex-presidentes José Batle y Ordoñez e Luis Batlle Berres. Muito debilitado eleitoralmente, os colorados têm no jovem Pedro Bordaberry, filho do ex ditador (civil) Juan Bordaberry, uma figura que representa a renovação, já que o declínio político do ex-presidente Sanguinetti é tido como definitivo. Porém, o peso negativo do sobrenome Bordaberry não ajuda muito na estratégia de mostrar uma mudança em relação ao passado recente; o pai de Pedro, o ex-ditador Juan Maria Bordaberry, atualmente em prisão domiciliar, se prestou a dar uma fachada civil aos governos militares e responde por violações aos direitos humanos.</p>
<p>O que nem os dirigentes “blancos” nem os “colorados” perceberam com a sua campanha suja é que, a diferença do que aconteceu com outros movimentos armados sul-americanos – como o ERP e os Montoneros, na Argentina – depois da redemocratização houve uma profunda transformação no movimento Tupamaro, que o aproximou das massas e foi fazendo mudar a percepção da sociedade uruguaia em relação ao que eles representavam. Sem abandonar as suas principais bandeiras – justiça social, com reforma agrária e reforma do Estado, fundamentalmente &#8211; os dirigentes e militantes tupamaros se integraram à Frente Ampla, a coligação dos partidos políticos da esquerda uruguaia (Partido Comunista, Partido Socialista, etc) e há anos participam do jogo democrático, com parlamentares, ministros e autoridades eleitas nos diferentes departamentos.</p>
<p>Por outro lado, a candidatura de José Mujica representava a continuidade com o governo do presidente Tabaré Vázquez (que desautorizou a campanha para mudar o artigo da Constituição uruguaia que proíbe a reeleição e vai abandonar o poder no próximo 1<sup>0</sup> de março com invejáveis 70 por cento de aprovação). A popularidade do presidente atual está alicerçada no carisma desse médico oncologista que fez questão de continuar a dedicar um dia da semana para atender pacientes e que levou a economia do país a uma expansão expressada em um aumento do PIB da ordem de 32% no período 2004-2008, equivalente a um 7,1% de aumento médio anual. Esse indicador supera em dois pontos percentuais a média da América Latina no período e, mesmo com um modesto aumento de 0,7 % previsto para 2009, os resultados são os melhores para o Uruguai em toda a sua história recente.</p>
<p>Além disso, durante o seu governo foram criados 180 mil novos postos de trabalho, com uma  redução do desemprego de 13 % a 7,9 %, um mínimo histórico. E, ainda, com a plena implantação do chamado “Plano Ceibal”, através do qual todas as crianças que freqüentam a escola pública receberam de graça um computador com conexão gratuita à Internet: mais de 460 mil computadores pessoais, um exemplo único no mundo, foram distribuídos nos últimos anos, fato que alterou profundamente a relação das crianças com a escola, com os professores e entre eles próprios e o mundo.</p>
<h2>Mujica: um homem humilde</h2>
<p>Aos 74 anos, dos quais 12 passados em prisão, durante a ditadura, e deles mais de dois como refém, no fundo de um poço artesiano, tendo até que beber da própria urina, para não morrer de sede, José “Pepe” Mujica é um líder que soube manter-se humilde, mesmo tendo já se desempenhado como legislador e como ministro. “Creio que não será possível fazer transformações relativamente importantes antes de quinze ou vinte anos”, disse, honestamente, depois de confirmada a vitória. Apesar de ter estudado filosofia, Mujica se dirige ao povo com uma linguagem simples, recheada de ditados populares e de metáforas e é um grande comunicador: há anos mantêm um programa de rádio de elevada audiência entre a população mais modesta.</p>
<p>Ele não faz promessas grandiosas: “Só posso dizer que, com certeza, vamos errar, mas saberemos reconhecer os erros e mudar; porém, isso sim, trabalharemos sem descanso até o limite das nossas forças”, foram algumas das suas primeiras declarações. E perguntado se nesses momentos de vitória lembrava da etapa do cárcere, afirmou: “A vida tem muitas coisas amargas, mas também oferece a possibilidade de revidar. O problema é saber viver com coerência e ter a capacidade de levantar-se quando a gente cai. Nós tivemos essa experiência (da prisão). Não a buscamos nem a planejamos; aconteceu, e de uma forma que supera a imaginação de um romancista. Mas não vivemos para cultuar a memória, olhando para trás. Creio que o ser humano tem que saber cicatrizar suas feridas e caminhar na perspectiva de futuro. Não podemos viver escravizados das contas pendentes da vida. É importante não esquecer; mas penso que também é importante olhar o porvir.”</p>
<p>Lucía Topolanski, a esposa de Mujica, também é uma mulher sofrida e de atitude humilde, apesar da sua história de luta ser muito semelhante à de Mujica e de possuir um reconhecido tato político. De origem aristocrática, ela teve a irmã gêmea assassinada em um enfrentamento com as forças militares, foi presa política, sofreu a tortura e só saiu livre depois da redemocratização. Hoje é a Senadora mais votada do país e desempenha um papel central no grupo político liderado pelo presidente. Ambos manifestaram que não pretendem deixar a chácara onde moram, na periferia de Montevidéu, onde cultivam flores e verduras.</p>
<p>A atitude e a experiência de vida do Presidente eleito permitem entender porque mesmo tendo a Frente Ampla conquistado a maioria nas duas câmaras do Parlamento no primeiro turno das eleições – o que lhe permite governar sem alianças &#8211; Mujica fez questão de convocar os dois adversários, o Partido Nacional, ou Blanco, e o Partido Colorado para conversar, já no dia seguinte da eleição. Reuniu-se com Pedro Bordaberry e com Luis Alberto Lacalle e convidou ambos partidos a designar quadros técnicos para integrar a direção das autarquias e das empresas do Estado, aliás, uma cláusula que consta da Constituição. Tabaré Vázquez também tinha feito esse convite, que foi recusado, há cinco anos, tanto por blancos como por colorados. Agora há indícios de que a atitude da oposição será mais conciliadora. As urnas mostraram que o povo uruguaio não aprova uma oposição pela oposição, que não contribui para a o avanço do país.</p>
<p>Nos primeiros dias posteriores à eleição já ficaram definidos grupos de trabalho que assegurarão a transição e começam a surgir nomes para compor o futuro Ministério. O presidente eleito anunciou que no gabinete pretende respeitar a proporcionalidade entre os diferentes setores da Frente Ampla, porém levando em conta as aptidões e experiência das pessoas e a importância para o segundo governo da Frente Ampla de alguns setores específicos. Também haverá de ser observada, assinalou Mujica, a necessária e desejável continuidade com o governo de Tabaré Vázquez em áreas consideradas chaves.</p>
<p>Especula-se que todo o gabinete deverá estar definido até o Natal. Para o seu próprio grupo político &#8211; o Movimento de Participação Popular, MPP &#8211; o presidente eleito reservaria quatro Ministérios: Interior, Educação, Vivenda e Relações Exteriores. Para este último é dada como certa a nomeação de Luis Almagro, atual embaixador do Uruguai na China e um dos impulsionadores do acordo comercial entre o Mercosul e esse país asiático. Os Ministérios de Economia, Transporte e Turismo corresponderiam ao grupo político do vice-presidente, Danilo Astori (chamado “Frente Líber Seregni”, nome do fundador e primeiro presidente da Frente Ampla). Astori se desempenhou como Ministro de Economia durante a gestão de Tabaré Vázquez e na eleição interna da Frente Ampla foi derrotado por Mujica, tendo aceitado então o convite para ser candidato à vice-presidência.</p>
<h2>A renovação dos métodos e das gerações</h2>
<p>Além de dar continuidade a aprofundar as conquistas do governo liderado por Tabaré Vázquez &#8211; o primeiro da esquerda da história do Uruguai &#8211; José Mujica e a Frente Ampla têm que enfrentar outro desafio igualmente importante: o de integrar os milhares de jovens que deram vida e colorido à campanha eleitoral, utilizando para se comunicar as tecnologias modernas, como as redes sociais da Internet e as mensagens de texto via celular. Eles agora estão dispostos a exigir uma forma mais ortodoxa de participação na estrutura da Frente Ampla. Dirigentes e militantes de esquerda coincidem em que as mobilizações desses grupos tiveram um papel chave na campanha, particularmente no interior do país.</p>
<p>Eles também contribuíram para um fenômeno novo, que foi destacado por Mujica no comício de encerramento da campanha do primeiro turno: a quase ausência, nas mobilizações, de bandeiras dos partidos políticos que formam a Frente Ampla e a predominância absoluta das bandeiras azuis, vermelhas e brancas da própria Frente, numa demonstração do avanço do sentimento unitário por encima de divisões ideológicas ou históricas. Os jovens contribuíram, também, para dinamizar o sitio web da Frente Ampla, com fotos e vídeos.</p>
<p>Alguns membros dessas redes gostariam de continuar por esse mesmo caminho, sem estabelecer uma coordenação mais estreita com a direção da Frente; porém, outros pensam que é necessário incorporar-se às estruturas – muito refratárias, como acontece também na esquerda em outros países &#8211; a uma renovação nas lideranças, para dar espaço às novas gerações (e também fechadas em relação a uma maior participação das mulheres). Seria necessário contribuir para a mudança a partir de dentro.</p>
<p>A maior surpresa destas redes foi a sua grande capacidade de convocatória, confirmada em várias oportunidades, como o desfile de uma gigantesca bandeira de vários quilômetros de extensão, levada por milhares de pessoas e a mobilização por elas idealizada para o último dia da campanha do segundo turno em Montevidéu, quando com uma ação muito criativa, convocaram a militância a tomar uma das praias de Montevidéu, organizando depois um grande baile, na mesma praia.</p>
<p>Além do dinamismo e da alegria próprios da juventude, que deram uma nova personalidade às mobilizações da campanha de 2009, a criativa e maciça participação dos jovens sinaliza que a Frente Ampla soube deitar raízes na política uruguaia.</p>
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		<title>Brasil consolida independência de sua diplomacia</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2009 17:15:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Beatriz Bissio</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Apesar das críticas da mídia conservadora e dos duros pronunciamentos contrários de parte de congressistas e dirigentes da oposição, o governo brasileiro manteve o convite e a agenda do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que visitou Brasília no início da semana. Com essa atitude, ficou ratificada a independência já demonstrada em outras oportunidades pela diplomacia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Apesar das críticas da mídia conservadora e dos duros pronunciamentos contrários de parte de congressistas e dirigentes da oposição, o governo brasileiro manteve o convite e a agenda do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que visitou Brasília no início da semana. Com essa atitude, ficou ratificada a independência já demonstrada em outras oportunidades pela diplomacia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sinal muito bem avaliada fora do Brasil.</p>
<p>O próprio presidente Lula defendeu a oportunidade que brindava a visita de seu colega iraniano para aprofundar o diálogo com um país chave do conturbado Oriente Médio. &#8220;Não se constrói a paz no Oriente Médio sem conversar com todas as forças políticas e todas as religiões&#8221;, afirmou o presidente quando perguntado por um jornalista a respeito dos objetivos da visita. Se o diálogo se da só entre países com a mesma orientação política, a conversa fica limitada a uma espécie de &#8220;clube de amigos&#8221;, incapaz de sentar as bases de uma paz efetiva na região, explicou o presidente Lula.</p>
<p>Lembre-se que a visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad foi a terceira de um dirigente do Oriente Médio, nos últimos dias. Pouco antes tinham visitado o solo brasileiro o chefe de Estado de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que também mantiveram entrevistas com o presidente Lula. A seqüência de visitas sinaliza a importância que a diplomacia brasileira vem adquirindo no complexo mundo globalizado.</p>
<p>Ao contrário das duas primeiras visitas, que tiveram pouca repercussão, a presença de Ahmadinejad suscitou polêmicas no plano interno e foi acompanhada com atenção no plano externo. Essa polêmica, ao contrário do que alguns analistas manifestaram, só serviu para confirmar a importância que ambos países têm no contexto regional e mundial.</p>
<p>Mesmo que o resultado concreto da visita tenha sido a assinatura de acordos de cooperação em diversas áreas, como ciência e tecnologia, agricultura e indústria, e a procura de meios de aumentar o intercâmbio comercial (situado em torno dos dois bilhões de dólares, e perspectivas de atingir em breve prazo os dez bilhões de dólares) os resultados políticos da presença de Mahmoud Ahmadinejad no Brasil são os mais significativos.</p>
<p>Os governos do Brasil e do Irã coincidem na aspiração de desempenhar um papel ativo no cenário mundial, alicerçados na importância das duas nações nas suas áreas de influência. Herdeiro do império persa, com mais de 2.500 anos de história, o Irã possui unidade territorial, lingüística e cultural, fato que se traduz num profundo orgulho nacional, em uma região marcada por uma diversidade difícil de administrar. E o Irã é hoje uma nação com uma indústria sofisticada, que, entre outros feitos, lhe permitiu, ano passado, colocar em órbita um satélite de fabricação própria. Isso sem falar nos seus importantes recursos naturais, como o petróleo. Aliás, esse petróleo foi o pivô do primeiro enfrentamento entre de uma nação do mundo em desenvolvimento com as grandes transnacionais por causa das matérias primas, na década dos anos 50, quando os serviços secretos norte-americanos organizaram um bloqueio econômico e um golpe de Estado como resposta à ousadia do primeiro ministro Mohamed Mossadegh de nacionalizar o cru e expropriar a <em>Anglo Iranian Oil Company</em>. Quanto ao Brasil, respaldado por bons indicadores econômicos e por seu peso específico, territorial e demográfico, nos últimos anos tem ampliando sua influência a nível internacional. Isso é particularmente válido para a América do Sul, região em relação à qual houve uma correta aposta preferencial da diplomacia do presidente Lula, que vem procurando aprofundar e consolidar o processo de integração.</p>
<p>Ahmadinejad, em resposta ao respaldo político recebido em Brasília, manifestou o seu apoio ao ingresso do Brasil ao Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente, uma das aspirações declaradas da atual diplomacia brasileira. Esse apoio foi justificado pelo papel que o Brasil poderia desempenhar em prol da paz, a partir de uma posição chave como é o Conselho de Segurança da ONU. O presidente do Irã afirmou, durante a sua visita, que os palestinos não devem pagar por um erro ocorrido em território europeu &#8211; o holocausto – e disse que a questão palestina não foi resolvida ainda porque as propostas de paz formuladas pelo Conselho de Segurança não estão fundamentadas na justiça. A eleição do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança &#8211; no qual deveria acabar o direito de veto dos países que hoje o exercem – teria o beneplácito do Irã, segundo Ahmadinejad, pelo papel construtivo que a diplomacia brasileira poderia desempenhar nas articulações tendentes a sentar os alicerces de uma solução justa, que conduza à paz na Palestina. </p>
<p>Da rápida passagem do presidente do Irã pelo Brasil se depreende, assim, que além dos resultados que a mesma possa trazer no terreno da cooperação econômica e tecnológica, ela principalmente esteve destinada a reforçar uma estratégica parceria sul-sul. Essa parceria se inscreve na aposta dos dois governos na capacidade que têm individualmente, e que a cooperação entre ambos só faz reforçar, de atuar no cenário mundial trazendo para a agenda de debates, como ponto prioritário, a paz no Oriente Médio. Mas não uma paz imposta pelas potências que nas últimas décadas têm dado as cartas na região; uma paz alicerçada em iniciativas diplomáticas que possam dar resposta aos anseios de justiça dos povos envolvidos nos conflitos.</p>
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