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	<title>Rumos do Brasil &#187; Ética</title>
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	<description>Propostas para um país melhor</description>
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		<title>O DNA de Eliza</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jul 2010 17:12:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilberto Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[O noticiário policial ocupa todos os espaços da mídia. Dessa vez sobrou pimenta. A barbárie é assustadora. Baseados em prova oral, os fatos chocam por sua peculiaridade. Muita coisa a lamentar. Um menino pobre conseguiu vencer as adversidades congênitas e mudou de vida. O salário, de plano, é 9 vezes o salário de um Ministro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O noticiário policial ocupa todos os espaços da mídia. Dessa vez sobrou pimenta. A barbárie é assustadora. Baseados em prova oral, os fatos chocam por sua peculiaridade. Muita coisa a lamentar.</p>
<p>Um menino pobre conseguiu vencer as adversidades congênitas e mudou de vida. O salário, de plano, é 9 vezes o salário de um Ministro do Supremo Tribunal Federal.</p>
<p>Casa nova, roupa cara, carros, luxo e pompa. Amigos e vizinhos da adolescência continuam os mesmos, os parentes também. Bruno virara ídolo da torcida do Flamengo e da vicinal. Como ele não deixa passar nada – agarra tudo, muitos o odeiam.</p>
<p>Foi dentro dessa perspectiva que o goleiro agarrou a gueixa. Na farra adulterina, o diabo fez sua parte: rasgou a camisinha. O óvulo emplacou o sêmen e a merda virou boné. A gravidez indesejada suplantou o citotec, 2- piperidinona, 1- acetil piperidina, chute, pontapé e etcetera.</p>
<p>Entre tapas e queixas o bebê chegou ao cenário. Eliza ganhou fôlego sobraçando o rebento. Diz o noticiário que ela se arrebentou na esquina. Mas o corpo sumiu. Entra no caso a polícia toda do Brasil. O lugar é Minas, também no palco a do Rio. Refletores, flashes e microfones.</p>
<p>No terror mais ácido, o Rottweiler faminto. Cachorro com fome é o cão! Sirenes e viaturas nas estradas, nas ruas. Pistola no cinto, revólver no coldre, algema nas mãos. Prisão decretada, escândalo, perseguição, sucesso, detenção.</p>
<p>Uma parte, porém, chama mais atenção. O corpo da moça bonita virara ração. Cadê a ciência? O corpo do delito, todavia, sumiu. Parece mágica. Cava aqui, cava ali e nada. A turma de cães foi encontrada. Dez monstruosos co-autores. E a polícia querendo roer os ossos, furando o chão. Quanta bobagem. Que mico!</p>
<p>Bota o cachorro pra dormir, uma ultrassonografia poderia indicar o tal que engoliu a mão. O metabolismo dos ossos é mais lento. Uma cirurgia simples coletaria a fonte segura de prova. Os dejetos fecais também poderiam servir de instrumento na pesquisa.</p>
<p>Vai ver que lavaram o chão – da jaula! Afinal de contas, bosta é só cocô. O metabolismo do Rottweiler pode consumir os alimentos e, de lambuja, a prova cabal. O tempo urge.</p>
<p>O que prevalece, porém, é a busca da confissão. Polícia no Brasil se faz assim: palavras, palavras, palavrão. Claquete, câmeras, ação.</p>
<p>Como disse Nicholas Cage em <em>8mm</em>: <em>“Se você dança com o demônio, o demônio não muda. Mas você muda.”</em>. Isso vale para todos nós.</p>
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		<title>A gente só ouve &#8220;saúde” quando espirra</title>
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		<pubDate>Wed, 26 May 2010 22:28:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilberto Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[advgilbertomarques@hotmail.com No desespero me “lembro da história e do que ela ensina: os piores criminosos, os piores tiranos um dia caem”. Com essa frase, Gandhi retomava a esperança e alimentava o espírito no tempo do jejum voluntário e suicida. O destino da Índia mudou com o martírio do Mahatma, na vida e na morte. As [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>advgilbertomarques@hotmail.com</p>
<p>No desespero me “lembro da história e do que ela ensina: os piores criminosos, os piores tiranos um dia caem”. Com essa frase, Gandhi retomava a esperança e alimentava o espírito no tempo do jejum voluntário e suicida.</p>
<p>O destino da Índia mudou com o martírio do Mahatma, na vida e na morte.</p>
<p>As vezes me socorro da história, não raro busco imagens na memória, do passado recente procuro lições. Vejo-me, por exemplo, nos idos de 1978, empolgado na direção de um “fusquinha de som”. Além de motorista era o operador, o redator, o locutor e etc. O microfone, antigo e pesado, preso pelo rosto ao ombro e o sonho na oração: contra a ditadura; contra a corrupção, pela constituinte e saía danado nas ruas do Recife prolatando minha indignação. Como Gandhi, acreditava nas mudanças.</p>
<p>A Constituinte veio e com ela a Constituição Cidadã: “Todos são iguais perante a Lei”. Por isso “é proibido, tanto ao rico quanto ao pobre, dormir embaixo das pontes e furtar um pão”. É preciso, portanto, mudar o destino da prática política, racionalizar a divisão de riqueza. A Lei só estabelece os princípios, porém a vigência esbarra nas vicissitudes.</p>
<p>Aqui em Pernambuco, a Prefeitura da Cidade do Recife entra no terceiro mandato do PT. Nove anos de operários no poder. Entra João, sai João e mantém-se a situação: “Pedro pedreiro penseiro esperando o trem/ Manhã parece, carece de esperar também&#8230;”.</p>
<p>O Governo do Estado é socialista “e a mulher de Pedro tá esperando um filho pra esperar também”. Os hospitais públicos estão no caos. Na Maternidade da Encruzilhada cultivam-se inúmeros criatórios de Dengue, só para começar. Na Barros Lima, a cria é o seqüestrador. No Barão de Lucena só não tem barão.</p>
<p>A partir do Hospital da Restauração, 490 empregos, em ano eleitoral, serão dados – sem concurso – para resgatar a rede pública de saúde. Nenhum deles é para médico. Além disso, resolveram destruir as barraquinhas. Tem gente que há quase 30 anos vive dali e o salvador resolveu destruir.</p>
<p>É isso mesmo. Entre o palanque e o palácio existe um fosso intransponível. Muda a Lei, muda o Regime, muda o Rei. Só não muda a cama que escolherei.</p>
<p>Quem pode acreditar nas promessas? Aumentou a população eleitoral. Analfabeto vota. Escreveu não leu, o pau comeu.</p>
<p>Os preços nas compras públicas superam o mercado comum sempre. É que o fornecedor inclui a inadimplência e o risco certo dos atrasos. A barraquinha dos hospitais só faz negócio porque o restaurante não funciona, não atende, não agrada. É a prevalência da livre escolha.</p>
<p>O flanelinha do sinal agora é o frutinha. Caju tem o ano inteiro, caqui só havia em São Paulo, Rio de Janeiro. Manga espada, manga rosa, jabuticaba e pinha suculenta, doce. Jambo do Pará, pipoca novinha. Água de beber. Mas tem, também, o assaltante com revólver ou com faquinha.</p>
<p>O que causa espécie é esse conjunto Prefeito-Governador para tanger o barraqueiro camelô. A quebra das feiras italianas, da Roma Antiga, volta com horror. Enquanto isso no hospital falta Doutor.</p>
<p>O perigo não mora nas calçadas. Ivone, a mulatona da faxina, passou na memória cantarolando: “se essa rua, se essa rua fosse minha&#8230;”. E agora, Lula? Psiu! Cuidado com a multa.</p>
<p><em> </em></p>
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		<title>Até quarta Isabela</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Apr 2010 13:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilberto Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[“Saudade, palavra doce que traduz tanto amargor/ Saudade é como se fosse/ espinho cheirando a flor”. Desde cedo, muito cedo ainda, o vocábulo me chamava especial atenção. Cada marchinha, cada canção entrava de corpo adentro, gerando comoção. “Saudade é coisa que dói na gente”. Doía em mim. Fiquei entre curioso e pleno de vaidade quando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>“Saudade, palavra doce que traduz tanto amargor/ Saudade é como se fosse/ espinho cheirando a flor”</em>. Desde cedo, muito cedo ainda, o vocábulo me chamava especial atenção. Cada marchinha, cada canção entrava de corpo adentro, gerando comoção. <em>“Saudade é coisa que dói na gente”</em>. Doía em mim.</p>
<p>Fiquei entre curioso e pleno de vaidade quando ouvi dizer que o substantivo era a síntese de uma situação complexa, exclusiva da língua portuguesa. O idioma pátrio seria o único em que a melancolia sem remédio, a lembrança dolente, a nostalgia fluía, pronta e acabada, em uma única expressão.</p>
<p>No filme espanhol de Almodóvar, <em>“Princesas”</em>, composto na língua-irmã, a meretriz consola a companheira: você é feliz porque pode ter saudade. Só tem saudade quem viveu bons momentos.</p>
<p>De Aldemar Paiva: <em>quem tem saudade não está sozinho/Tem o carinho da recordação/Por isso quando estou mais isolado/Estou bem acompanhado/Com você no coração.</em></p>
<p>Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas no triste episódio de 1964, perdeu o mandato de Deputado Federal e perambulou, inerte, Brasil afora até sucumbir à perseguição e cair nas mãos da polícia política.</p>
<p>No cárcere soube que a sua primeira filha, do segundo casamento, nascera enquanto empreendia a fuga – soube mais, dentro em breve ser-lhe-ia franqueada a primeira visita na cadeia. Na quarta-feira, que também é tema de músicas de Carnaval, teria em seus braços sua filha recém-nascida, cujo nome escolhido seria Isabela. Bom de pena, poeta na essência, Julião soltou lépido a mão e, após penar por papel e lápis, num fôlego só escreveu o clássico “Até Quarta Isabela”.</p>
<p>Na retomada da Abertura Democrática, na volta dos exilados, conheci o velho Chico. Nas ladeiras de Olinda, na frente do Centro Luiz Freire, recebi o meu primeiro exemplar do livrinho enxuto e denso, fácil e gostoso de ler. Recheado de lembranças amargas, mas cheio de esperança. Poético no amor do relato, numa saudade singular e numa situação que ainda não se dera, aguardou Isabela e guardou a saudade nos escritos.</p>
<p>Minha filha Mariana pariu na sexta-feira passada. No dia 17 de abril, <em>Nana </em>abriu meu peito e inseriu uma bonequinha de carne, que por enquanto apenas apareceu no visor do celular, ávida do colostro no aconchego do peito materno.</p>
<p>Em tempos de liberdade, meu amigo Chico é, hoje, “alguém que partiu, alguém que morreu, alguém que o coração não esqueceu”. Seu livro foi relançado <em>post mortem</em> pela família.</p>
<p>Não estou no cárcere. Não sou Deputado, não sou caça, não temo ser cassado. Isabela, porém, chega de longe. O cheiro de bebê mora, apenas, na minha saudade de pai. É prospecção de avô solitário e só. Como avô sou primíparo. Meu olhar pidão mira o movimento das marés. O domingo nublado maneja o mar. Uma lágrima doce acompanha o murmúrio das ondas e mareja os olhos antes de molhar a face.</p>
<p>Cheio de emoção, sigo a lição de Che: <em>“Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”</em>. Espero até quarta como Chico. Pra mim, uma quarta incerta, um dia qualquer. Qualquer dia. Agora é real. Voltando ao frevo-canção: <em>“Você existe como um anjo de bondade e me acompanha neste frevo de saudade&#8230; Quem tem saudade não está sozinho&#8230;”</em> Até quarta, Isabela.</p>
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		<title>O novo léxico da esquerda</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Apr 2010 14:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Carvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[O cabedal cognitivo da Humanidade é engrandecido pelas mentes revolucionárias. Quando Guy Debord concebeu a mediação das relações sociais por imagens, surgiu o conceito de ‘Espetáculo’ enquanto uma importante ferramenta de análise para o mundo de bombas atômicas, escravidão tardia, destruição da natureza, mudanças climáticas etc. E, certamente, encerrou-se no conceito apenas o que ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cabedal cognitivo da Humanidade é engrandecido pelas mentes revolucionárias. Quando Guy Debord concebeu a mediação das relações sociais por imagens, surgiu o conceito de ‘Espetáculo’ enquanto uma importante ferramenta de análise para o mundo de bombas atômicas, escravidão tardia, destruição da natureza, mudanças climáticas etc. E, certamente, encerrou-se no conceito apenas o que ele pôde apreender.</p>
<p>Se forjarmos um novo conceito, aumentamos o nosso léxico e mais profundamente o pensamento viaja, mais veloz fica ao passo que assume um tipo de ‘hipertexto’ subjetivo. Diria que a profundidade e a lateralidade (René Dreifuss), a velocidade e a complexidade são boas medidas para dimensionar a má-totalidade de um conceito. Assistindo as imagens das últimas chuvas na cidade do Rio, não é tão difícil ouvir da mídia a palavra ‘escombros’. Entretanto, o termo ‘ESCOMBROS’ acaba de ser inserido no léxico das esquerdas, festiva e acadêmica, tal o alcance epistemológico quando conceitualizado.</p>
<p>O conceito ‘ESCOMBROS’ ganhou num primeiro momento a configuração filosófica dos botequins sublevados e das festinhas “pesadas” cariocas. Porém, há nele mais de Leucipo que de Epicuro ainda. Por enquanto. No ir além, isso será revertido, até mesmo por outro conceito, não sei. Tenho certeza que um pouco mais de Dionísio e de Tranca-Rua&#8230; ESCOMBROS tomam um caráter libertário.</p>
<p>O importante é que no dia 09/04/2010, na Escola de Serviço Social da UFRJ, ocorrerá o magnânimo ritual de defesa da tese doutoranda ‘Acumulação (Democrática) de Escombros’ pelo meu amigo de copo e formulador conceitual Felipe Brito. Por favor, não confundam a simples palavra com o aporte filosófico do conceito. Os ESCOMBROS na tese daquele tricolor transcendem o resultado de mais de 24h chovendo forte. Não é um caso de banalização subjetiva por imagens espetacularizadas. A academia burguesa encontrará de fato a explicação do fato, pois ESCOMBROS dão conta tanto da destruição quanto da criação capitalista.</p>
<p>Hoje, é muito fácil olhar para as periferias, lixões, favelas, ruas alagadas, hordas de flagelados, etc. e pronunciar ESCOMBROS. Igualmente ridículo seria avaliar as economias de Islândia e Itália para dizer ESCOMBROS. Há de se cunhar ESCOMBROS da mesma maneira para a maquiagem clean do Design. Para os relacionamentos sociais danificados. Para o homem e para a mulher e para o consumo, ESCOMBROS. Não podemos destruir porque tudo já nos são ESCOMBROS. À imagem e semelhança, ESCOMBROS. C&amp;T, ESCOMBROS. Os pais ensinam aos filhos, ESCOMBROS. C.E.O. dos ESCOMBROS. O Estado promove e reverencia ESCOMBROS. ONU e FMI, amém de ESCOMBROS. Na Lua ou em Marte, ESCOMBROS. Os médicos, os advogados e os garis, ESCOMBROS. Rios, mares e oceanos, ESCOMBROS. Celebridades ou intelectuais, ESCOMBROS. Satélites, avenidas e janelas, ESCOMBROS. A mão amiga e o amor sincero, ESCOMBROS. As guerras, as políticas econômicas e o futebol, ESCOMBROS. Haiti, Alemanha, a calota polar, a Linha do Equador, ESCOMBROS, a poesia oficial, o Espetáculo, ESCOMBROS, ESCOMBROS, ESCOMBROS.</p>
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		<title>À mestra, com carinho</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2010 14:03:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Luis Fiori</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[“Eu pessoalmente já fui para a cadeia, sem nem saber o porquê, dado que sou apenas uma rebelde, pelo que escrevo, pelo que esbravejo. Mas a vocês quero dizer o seguinte: já estou velha e cansada, mas não desisti. Não desiti! Eu acho que tem que estudar mais, aprofundar a análise, batalhar” (Maria da C. Tavares, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h4>“Eu pessoalmente já fui para a cadeia, sem nem saber o porquê, dado que sou apenas uma rebelde, pelo que escrevo, pelo que esbravejo. Mas a vocês quero dizer o seguinte: já estou velha e cansada, mas não desisti. Não desiti! Eu acho que tem que estudar mais, aprofundar a análise, batalhar” (Maria da C. Tavares, Jornal dos Economistas, Corecon RJ, n 181, p: 8 e 11).</h4>
<p>Maria da Conceição Tavares completa 80 anos, no dia 24 de abril de 2010. Matemática, economista, intelectual com vasta formação histórica, filosófica e literária, professora, militante, deputada federal, torcedora fanática do Vasco, e admiradora da Portela, Maria da Conceição se transformou nos últimos 50 anos, numa figura publica emblemática, e numa referência decisiva dentro da vida cultural e intelectual brasileira.</p>
<p>Conceição nasceu num povoado, no interior de Portugal, perto de Anádia, na região de Aveiro. A família de sua mãe era católica e monarquista, mas seu pai era anarquista, e esta divisão familiar, ideológica e política, marcou toda a sua infância, vivida em plena ditadura salazarista, e durante a Guerra Civil espanhola. Em 1953, Maria da Conceição se graduou em Matemática, na Universidade de Lisboa, e pouco depois se mudou para o Brasil, aos 23 anos de idade, alguns meses antes do suicídio de Getulio Vargas. Em vários depoimentos sobre sua própria vida, Conceição confessa que se deixou envolver imediatamente pelo “otimismo brasileiro da década de 50”, e pela intelectualidade carioca, apaixonada pelo sonho de Brasília, do Plano de Metas, da Bossa Nova, e do Desenvolvimentismo, cantado em verso e prosa nos salões intelectuais do Rio de Janeiro, liderados pela geração de Darcy Ribeiro, Mario Pedrosa e Aníbal Machado. Ao lado dos nacional-desenvolvimentistas do ISEB, e da geração de cientistas que começava a se reunir, naquela época, em torno da SBPC.  </p>
<p>Em 1960, Maria da Conceição Tavares se formou em Economia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde foi aluna e assistente de Otavio Gouveia de Bulhões, ao mesmo tempo em que trabalhava com Inácio Rangel e com os economistas heterodoxos do BNDE. Um pouco depois, já no escritório da CEPAL, no Rio de Janeiro, Conceição estabeleceu relações pessoais e intelectuais definitivas com Celso Furtado, Aníbal Pinto, e Raul Prebish. E foi assim, com um pé na ortodoxia neoclássica, o outro na heterodoxia estruturalista, e com uma forte formação marxista e keynesiana, que Maria da Conceição ingressou no debate econômico latino-americano, ao publicar, em 1963, um artigo clássico, sobre o “auge e o declínio do processo de substituição de importações”, onde ela explicava, de forma pioneira, os limites estruturais da estratégia de industrialização que era preconizada &#8211; naquele momento – por quase todos os economistas desenvolvimentistas.</p>
<p>A partir daí, e nas décadas seguintes, Conceição participou de quase todas as grandes polemicas econômicas, do Brasil e do continente: ainda nos anos 60, ela criticou a “tese estagnacionista” de Celso Furtado, e dos “teóricos da dependência”; nos anos 70, denunciou os limites financeiros do modelo de crescimento adotado pelo governo militar brasileiro; no início dos anos 80, participou intensamente da discussão sobre a origem e a natureza da crise econômica e da hiper-inflação, no Brasil; e durante a década de 90, escreveu inúmeros artigos e livros criticando as políticas e reformas neoliberais associadas à ideologia da globalização. Por fim, Maria da Conceição escreveu dois trabalhos de longo fôlego, sobre o “movimento cíclico da economia brasileira”, que se transformaram, nas suas teses de doutoramento, em 1974, na UNICAMP, e de Livre Docência, na UFRJ, em 1977.  Além disto, nas décadas de 80 e 90, Conceição participou do debate internacional sobre a “crise da hegemonia americana”, inaugurando o campo da economia política internacional, no Brasil. Neste período, Mara da Conceição foi professora, sucessivamente, da UFRJ, da FGV-RJ, da CEPAL, da Universidade do Chile, da Universidade Nacional do México, e da Universidade de Campinas, onde teve papel decisivo, na formação da sua escola de economia.</p>
<p>Depois do Golpe Militar, de 1964, Maria Conceição viveu no Chile, no México, e na França, antes de voltar ao Rio de Janeiro, e ser presa, em 1974. No Chile, Conceição participou da equipe econômica do governo de Salvador Allende, e depois, já de volta ao Rio, militou na luta pela redemocratização brasileira, dentro do PMDB, onde ajudou a formular o seu primeiro programa de governo, que se chamou de “Mudança e Esperança”, e foi escrito em 1982. Uma década depois, Maria da Conceição Tavares ingressou no Partido dos Trabalhadores, e foi eleita deputada federal, pelo Rio de Janeiro, em 1994. Hoje, olhando em perspectiva, se pode ver com claridade o papel decisivo que as suas idéias tiveram na formação do “pensamento econômico da UNICAMP”, que hoje é hegemônico dentro do Segundo Governo Lula; e também, na inflexão tardia e “desenvolvimentista” do PT, partido que se formou no início dos anos 80, sem nenhuma concepção econômica própria, e sob forte influencia das idéias anti-estatistas, anti-nacionalistas e anti-getulistas de quase toda a  intelectualidade paulista,  liberal e marxista, desde os anos 50.  </p>
<p>Somando e subtraindo, Maria da Conceição Tavares, em toda a sua vida, foi sobretudo uma professora e  uma humanista que ensinou várias gerações &#8211; dentro e fora do Brasil &#8211; a pensarem o mundo com paixão, mas com absoluto rigor analítico; com coragem, mas com total lucidez; com espírito crítico, mas com grande otimismo histórico; com rebeldia anárquica, mas com um profundo sentido de compromisso com o seu povo e com as angústias do seu tempo. Além disto, em todos os lugares onde esteve, Conceição foi sempre uma mente provocadora e incapaz de acovardar-se ou de negar o seu próprio passado. Poucos professores no mundo, ao chegar aos 80 anos, poderão assistir- como ela &#8211; uma eleição da importância da que ocorrerá no Brasil, em 2010, e saber que os dois principais candidatos à presidência da República foram seus alunos e se consideram, até hoje, seus discípulos. Parabéns e obrigado, Marida da Conceição.</p>
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		<title>Berço do mar – reflexões sobre um nu natural</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Mar 2010 14:58:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Carvalho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[Nasci na antiga Guanabara que já não existe mais em termos políticos graças à ditadura militar. Aliás, o golpe militar arrebentou copiosamente a antiga capital federal.  Transferiu para alhures pertinho o centro econômico e financeiro do país. A pauperização da cidade foi uma simples conseqüência disso. Depois de sucessivos governos criminosos e da favelização moral [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nasci na antiga Guanabara que já não existe mais em termos políticos graças à ditadura militar. Aliás, o golpe militar arrebentou copiosamente a antiga capital federal.  Transferiu para alhures pertinho o centro econômico e financeiro do país. A pauperização da cidade foi uma simples conseqüência disso. Depois de sucessivos governos criminosos e da favelização moral pela qual ainda passamos, vejo as ruas serem tomadas e exploradas por milícias, substituindo os velhos esquadrões da morte em violência e desrespeito. Acho que não me cabe romancear tempo futuro. Tampouco a estreiteza dos bairrismos. Até existem aqueles que vivem assim, cuja profissão é pintar um antes mais bonitinho e um depois sonhador, mas o carioca nunca foi nem sabe ser bairrista. Portanto, abro mão desse charme provinciano. Somos a cidade mais cosmopolita e também a mais anárquica (em todos os sentidos) do país. Isto sim incomoda alguns idiotas que, pela inépcia política do Rio de Janeiro, sentem prazer em dar continuidade à estupidez nº 64.</p>
<p>Volta e meia, falam em compensação pela transferência da capital para Brasília, que nunca houve e sequer haverá de fato. A dívida do Metrô, quem se lembra, era federal a título disso e foi subitamente jogada no BANERJ, um dia o quarto maior banco do país que outrora encampara o BEG. Hoje, o Rio não possui um banco estadual nem um metrô que preste. Contudo, tal dívida aqui ficou para ser paga pelo povo. A corja neoliberal quis assim também, beneficiando os banqueiros, lição aprendida lá na ditadura, e assim ficamos: deveras apreensivos quando falam em compensação econômica.</p>
<p>Certamente, o petróleo poderia resolver alguns problemas locais. O Estado do Rio é o maior produtor e a Cidade Maravilhosa em tese teria direito a certos benefícios pela produção na plataforma continental adjacente. Bem, o ar poluído da queima de combustível fóssil esse fica na cidade. O Estado do Rio (politicamente) é um retrocesso institucionalizado que estrangula a Guanabara. As lideranças fluminenses souberam realizar os propósitos dos militares. Laranja e sal se foram. O óleo e o gás são levados a qualquer parte do país isentos de impostos, a pior política fiscal só para o Rio. E, os tão festejados royalties chegam bem reduzidos, inclusive para os cariocas, como fundo reparador por possíveis danos ambientais (tomados como compensação também em certas rodas de jogatina e sexo do Planalto Central). É verdade, nossos bandidos políticos levaram ‘um qualquer’ e não nos defenderam. E o pré-sal? Vamos aproveitar a onda da energia limpa. O pouco que nos cai aqui na praia podemos usá-lo esteticamente. A colagem monetária final de um novo parangolé oiticicus. O Hélio ia gostar. Nosso dinheiro não é lá grande coisa mesmo&#8230; Aí é só desfilar. Todos estão convidados.</p>
<p>Em uma oportunidade anterior aqui no blog, defendi o <a href="http://www.rumosdobrasil.org.br/2009/11/09/a-idade-do-sal/">uso da grana do petróleo pré-sal na nossa educação estética</a>. Lembro de uma música da banda carioca Módulo 1000: turpe est sine crine caput. Pelo jeito, o ovo não sairá da cloaca penosa. Confesso que não me decepcionei. A educação fluminense (geograficamente, o Estado do Rio parece fagocitar a Guanabara) se tornou um reflexo subjetivo da política de segurança pública. Tenho dúvidas com relação à aptidão pedagógica dos aparelhos de repressão estatal. Proponho agora que a nossa miséria financie museus universais. Museu de tudo, em cada esquina um. No lugar de uma padaria, um museu do pão. No do cemitério, um museu do ser humano. Shopping Center, museu do valor. Escolas e igrejas, museus do amém. Pô, assim a gente chega lá, programa ‘Museu Brasil’, todos na categoria visitante-peça.</p>
<p>A Guanabara resistirá, pois dificilmente se tornará peça de museu, como qualquer político brasileiro que curte uns 10%. Se até hoje o ‘Berço do Mar’ não nos foi totalmente apagado dos corações, e haja militares, esquadrões da morte, milícias, extermínio, corrupção e abandono, não será um dinheirinho besta que surge destruindo o planeta o definidor de futuro para os cariocas. Vamos trocar os royalties por bronzeador e birita, com muito sol, samba e futebol. Digo isso pensando no time do Flamengo, na Praia da Macumba, no som do Jorge Ben, no chopp escuro e em todos aqueles que não nasceram aqui e são bem-vindos à mais bela fonte de energia orgone do sistema solar desde o Cenozóico, a Iguaá-Mbara. Taí, não tinha pensado nisso&#8230; Guanabara; aqui o feio fica bonito.</p>
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		<title>Corram que a polícia vem aí</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 14:58:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilberto Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[O Código Civil de 1916 teve participação efetiva de Rui Barbosa e Clóvis Beviláqua na sua composição. A linguagem utilizada, apesar da competência indiscutível da dupla de juristas, fere o objetivo da Lei. Naquele tempo, a reserva do conhecimento era palpável. Apenas a elite pouco numerosa sabia ler e escrever. A linguagem pomposa do texto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Código Civil de 1916 teve participação efetiva de Rui Barbosa e Clóvis Beviláqua na sua composição. A linguagem utilizada, apesar da competência indiscutível da dupla de juristas, fere o objetivo da Lei.</p>
<p>Naquele tempo, a reserva do conhecimento era palpável. Apenas a elite pouco numerosa sabia ler e escrever. A linguagem pomposa do texto legal atendia, de certa forma, à vaidade dos letrados.</p>
<p>O mais intrigante de tudo é que ninguém pode alegar o desconhecimento da Lei para justificar descumprí-la – é Lei.</p>
<p>Na época do Código Penal e do de Processo Penal, nos anos 40, no século XX, a mudança política favorecia uma linguagem mais amena. Getúlio investiu no populismo e queria marcar presença. A mudança da Lei é uma fórmula eficaz na história que se pretende escrever. Hamurábi, do “olho por olho”, é falado até hoje pelo seu Código. Napoleão marcou e não foi só pelas atrocidades ou pela derrocada de Waterloo. O Code Civil des Français deu valor especial a sua passagem – todos são iguais perante a Lei. O mesmo ocorreu com a Lei das XII Tábuas. O Decálogo de Moisés. Enfim, a lei marca o monarca e demarca o tempo.</p>
<p>O Código Penal, no Brasil, juntou Nelson Hungria e Roberto Lyra. Duas cabeças privilegiadas, completando o time e o propósito de Vargas. Ambos, Lyra e Hungria, traziam consigo peculiaridades benfazejas, minimizando o trono que a dimensão do saber ofertava. Tinham em comum, além disso, raízes populares. Roberto consagrou-se como Promotor do Júri no Rio de Janeiro. Nelson começou no Júri aos 19 anos, em Rio Pomba-MG, foi contra o Tribunal Popular até morrer, mas era sensível aos meandros da comunicação.</p>
<p>Ministro do Supremo de 1951 a 1961, tornou célebre o desforço com Orozimbo Nonato. Ele usava um linguajar tão erudito – Hic culum cotiae sibilare que, segundo Hungria, às vezes o advogado ficava sem saber se ganhara ou não o Recurso.  </p>
<p>Apesar de toda essa gama de influência popularizante, os Crimes Sexuais foram taxados de Crimes Contra os Costumes. O Estupro era exclusivo para o homem réu e mulher vítima e só se consumava na conjunção carnal. Nos demais ataques, a dupla escolheu e, Francisco Campos, o então Ministro da Justiça, apoiou que o delito seria nominado Atentado Violento ao Pudor. O título pomposo não era coloquial e ficou comum o tipo de Ato Obsceno ser chamado de Atentado ao Pudor pela população.</p>
<p>Escolhi fazer o curso de Direito contra a vontade de casa. Meu pai me queria médico. Aos dezoito, ingressei em dois estágios: na Assistência Judiciário do Estado e no escritório do criminalista Bráulio Lacerda. Fiz a primeira defesa no Plenário do Júri ainda com a mesma idade, mas já perto dos 19. Insisti na área e, na véspera dos 55 continuo no mister.</p>
<p>Até hoje, porém, nunca tinha visto nada mais parecido com Atentado Violento ao Pudor do que o episódio do Alto José do Pinho, em Recife-PE. Duas moças, uma de 23 e uma de 15, foram abordadas por uma patrulha da Polícia Militar, que intentou revistá-las, a pretexto de combater o tráfico de drogas. Na perquirição, uma policial, em plena via pública, desnudou-as e introduziu o dedo na genitália e no esfíncter anal de ambas. Parece que nem trocou a luva.</p>
<p>Toque vaginal ou retal só quem faz é médico. E mesmo assim bem justificado. Tem Doutor preso por conta da incontinência do dedinho safado. Busca e Apreensão no terraço de uma casa exige Mandado Judicial, que é produzido em Despacho fundamentado. Como justificar essa busca singular, em lugar tão íntimo? No meio da rua&#8230; Na contramão&#8230;</p>
<p>Socorro&#8230; Polícia&#8230; Polícia não! Polícia não! Polícia não! Como diria Orozimbo: “Hic culum cotiae sibilare”. Traduzindo: É aí que o fiofó da cotia assobia. Ou pimenta nos olhos dos outros é refresco. Esse caso da Polícia é caso de Polícia. Por outro lado, é preciso proteger as vítimas que tiveram a coragem de denunciar. A família é grande.</p>
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		<title>A dimensão ética da crise brasileira</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 14:12:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Márcio Henrique Monteiro de Castro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[A crise que envolve a sociedade brasileira nos dias atuais revela, indubitavelmente, ao lado de aspectos econômicos, sociais e institucionais, uma dimensão ética que, a cada dia, é percebida como sendo fundamental para a estruturação da vida social. As transformações materiais, sociais, políticas e culturais, que superaram as formas existentes de organização da vida social [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A crise que envolve a sociedade brasileira nos dias atuais revela, indubitavelmente, ao lado de aspectos econômicos, sociais e institucionais, uma dimensão ética que, a cada dia, é percebida como sendo fundamental para a estruturação da vida social.</p>
<p>As transformações materiais, sociais, políticas e culturais, que superaram as formas existentes de organização da vida social brasileira, geraram uma sensação de desagregação, estilhaçamento mesmo, que elimina, no momento, a aceitação de qualquer quadro referencial.</p>
<p>Numa sociedade onde, historicamente, a ordem social foi construída a partir de um sistema hierárquico &#8211; seja a casa-grande, seja o estado patrimonialista &#8211; a crise das formas institucionais de regulação autoritária da vida social é percebida como uma fase onde a própria idéia de ordem passa a ser, senão questionada, pelo menos fundada em outra lógica.</p>
<p>Ganha força a idéia de organização social a partir do cidadão, da sociedade civil, do indivíduo como microfundamento social propriamente dito, numa extensão ao político de uma visão particular de organização do econômico. Liberalismo econômico e político são percebidos como modelos estruturantes de uma nova sociedade, repetindo uma velha conhecida e bem brasileira tara de imitação.</p>
<p>Entretanto, tais modelos pressupunham, como veremos resumidamente, em suas formulações originais, uma dada ética que desempenhava papel central na transformação de ações individuais em ações sociais. Sem uma ética realizando essa operação, as ações individuais não necessariamente gravitarão em torno de resultados que viabilizem a vida social. No caso brasileiro, os controles políticos, antes que a sincronização de ações individuais através de uma ética, foram os construtores da vida social. Talvez aí resida nossa “vocação autoritária”, na medida em que a vida em sociedade pressupõe algum tipo de ordem. Na ausência de limites de consciência os exteriores tornam-se imprescindíveis. A ruptura ou transformação desses geram um vazio e uma crise comportamental.</p>
<p>Por isso mesmo, nunca foi tão forte a percepção de que Macunaíma, nosso herói sem caráter, é muito mais do que uma criação literária. Parece ser, de fato, a revelação da alma de nossa sociedade.</p>
<p>A valorização da riqueza (do dinheiro e do consumo), o individualismo que anula a busca e implementação de soluções coletivas e a experiência vivenciada de que é possível ascender socialmente numa sociedade que, apesar de estratificada, apresenta grande mobilidade, fizeram do brasileiro muito mais um aventureiro do que um elemento afeito à rotina racional.</p>
<p>Não deve ser surpresa, portanto, encontrarmos, como um dos traços de caráter mais enraizados em nossa maneira de ser, a busca pelo sucesso a qualquer preço, respeitando apenas a regra de que “os fins justificam os meios”. “Levar vantagem” é um fim em si. E vantagem, nos dias atuais, é basicamente entendida como dinheiro. Fim que por si só é justificável e oblitera qualquer processo para sua realização. Ganhar dinheiro sem trabalhar é uma atitude admirável. Do rico a única coisa que se exige é a simpatia, a cordialidade.</p>
<p>A ambição e valorização da riqueza material, que não é exclusiva da sociedade brasileira, foi, entretanto, conjugada com uma visão absolutamente negativa sobre o trabalho e práticas racionais. E essa mistura, nas proporções aqui encontradas, ganha uma relativa singularidade.</p>
<p>O puritanismo em suas origens combinou a busca por riqueza, a parcimônia (racionalidade na produção e consumo pessoal comedido) e o trabalho &#8211; forma de ascese racional &#8211; numa ética capitalista capaz de regular a vida de uma sociedade em que propriedade privada absoluta, trabalho livre e mercado livre surgiram como instituições constitutivas da nova estrutura social.</p>
<p>Esta ética capitalista criou uma sociedade, conjunto de instituições públicas e privadas, onde novas e estáveis relações sociais se desenvolveram reguladas pela equivalência das trocas e por uma separação de atividades civis (econômicas) e públicas (estatais). A expressão teórica desses fenômenos aparecerão no desenvolvimento da economia política e do direito. A conjugação desses dois discursos liberais jogou papel importante na criação do moderno estado nacional e da idéia de cidadania. Elementos a partir dos quais ocorreu o desenvolvimento do capitalismo em suas diferentes variantes, que foram determinadas antes pela esfera do direito público (estado x cidadão) do que pelo direito civil (cidadão x cidadão).</p>
<p>Aqui convém darmos um esclarecimento. Mesmo em sociedades estratificadas, até nas escravocratas, ordem jurídica capitalista caracterizava-se pela separação público &#8211; privado e a regulação igualitária do direito civil entre aqueles que são considerados cidadãos.</p>
<p>O caso brasileiro, como já insinuamos, difere fundamentalmente dessa matriz histórica. O capital mercantil, um dos elementos fundamentais nas origens de nossa sociedade, trazia no seu bojo uma ética distinta, seria, a tomarmos a idéia weberiana, a ética de um “capitalismo pária”, “aventureiro”, em resumo, do capital mercantil que se valoriza a partir da troca desigual, onde o uso dos instrumentos políticos, até em sua forma violenta, são indispensáveis à obtenção de lucro. A racionalidade, entendida como adequação de meios a um determinado fim, não é peça fundamental desse elemento. Os fins, o enriquecimento, não impõem nenhuma regra para sua obtenção. A riqueza é livre para escolher os meios, quaisquer meios. O trabalho e a organização racional não jogam, portanto, um papel especial. São apenas, se tanto, uns entre outros meios de obtenção de riqueza. A introdução do trabalho escravo, numa sociedade onde a ética do trabalho não exerce papel fundamental, atua no sentido de construir o que poderíamos chamar de uma ética do não-trabalho. O trabalho é percebido apenas por seus aspectos negativos, como um atributo do escravo, do não-cidadão. Em suma, é uma atividade a ser evitada.</p>
<p>A formação de nossa ética, entretanto, sofre outras influências. A criação do espaço público, a separação radical entre público e privado, o abandono de instrumentos de poder como organizadores e operadores da ordem econômica são processos tardios e inconclusos em nossa história. A construção da cidadania é mediada com a permanência de particularismos, de assimetrias e distorções entre supostamente iguais. As relações pessoais, informais, cordiais ou violentas, ainda perpassam a organização da vida na esfera pública.</p>
<p>Por isso há complacências para com o ilícito, o exótico, o pouco ético, desde que haja simpatia. Os critérios pessoais e emocionais são parâmetros para os assuntos públicos. O julgamento estético e lúdico se impõe. A busca de riqueza e de consumo, numa sociedade hipermercantilizada e heterogênea ao extremo, provoca um verdadeiro “cada um por si” e “de qualquer jeito”, onde o certo é o fim a ser alcançado.</p>
<p>Assim, mesmo quando criadas instituições modernas, semelhantes a de outros países, seus funcionamentos ganham personalidade própria. O uso privado da coisa pública é um vício, na esfera do direito público, semelhante às rupturas ocorridas na esfera do direito civil. O freio para ambos não se origina ao nível da consciência ética.</p>
<p>Na presença de uma aguda crise, que é fruto do descompasso entre o desenvolvimento da sociedade brasileira em todos os aspectos (econômicos, sociais etc.) e as instituições que regulam a vida social, a ausência de moderadores internos provoca uma sensação de desregramento e uma reação que, se bem que comum à maioria da população, é antes individual do que coletiva.</p>
<p>A indignação é conjugada na primeira pessoa contra o coletivo. O Estado é percebido apenas por seus aspectos deletérios sendo um elemento a ser negado. A ausência de uma ética que transforme ações individuais em imediatamente sociais, que transforme o indivíduo em cidadão, faz com que a raiva nos empurre para um horizonte nebuloso de soluções, onde tudo muda de sentido conforme o ponto de vista.</p>
<p><em>Esse texto faz parte do  artigo “O Sentido da Revolução Brasileira em RAÍZES DO BRASIL”; in Estudos Estratégicos;  CEE/ESG, agosto 2002</em></p>
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		<title>Reforma da Igreja Católica</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 15:48:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Frei Gilvander</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[“A Igreja precisa de uma reforma urgente”, afirma jesuíta egípcio em carta dirigida a Bento XVI. O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“A Igreja precisa de uma reforma urgente”, afirma jesuíta egípcio em carta dirigida a Bento XVI.</p></blockquote>
<p>O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo.</p>
<p>Henri Boulad é autor de &#8220;Deus e o mistério do tempo&#8221; (Edições Loyola, 2006) e &#8220;O homem diante da liberdade&#8221; (Edições Loyola, 1994), entre outros. A carta está publicada no sítio Religión Digital, 31-01-2010. A tradução é do Cepat. Eis a carta:</p>
<p><strong>Santo Padre:</strong></p>
<p>Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus” a que São Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.</p>
<p>Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.</p>
<p>Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de Teologia no Cairo, diretor da Cáritas &#8211; Egito e vice-presidente da Cáritas Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.</p>
<p>Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos de suas reuniões como Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica&#8230; Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais, rádios, televisões&#8230;). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.</p>
<p>Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido Gottessöhne, Gottestöchter (Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o Pe. Erich Fink, da Baviera, lhe fez chegar a suas mãos.</p>
<p>Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua situação atual, em 2009.</p>
<p>Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):</p>
<p>1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para frear o êxodo.</p>
<p>2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da Ásia ou da África.</p>
<p>3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem – cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo, mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.</p>
<p>4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova evangelização”, a que nos convidava João Paulo II. Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje.</p>
<p>5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente. Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a palavra “mística” não é mencionada uma única vez no Novo Catecismo. Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral, abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.</p>
<p>6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa, têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou.</p>
<p>7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade, sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano&#8230; em uma linha mais evangélica.</p>
<p>8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos, parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa.</p>
<p>9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo, no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra ela.</p>
<p>10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste momento.</p>
<p>Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:</p>
<ul>
<li>Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.</li>
<li>Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por acaso, não tem promessas de vida eterna?</li>
</ul>
<p>A isto respondo:</p>
<ul>
<li>Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os problemas de hoje e de amanhã.</li>
<li>A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas crises que a velha cristandade europeia conheceu.</li>
<li>A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as portas que se abriram então, e é tentada a voltar para Trento e o Vaticano I, mais que voltar-se para o Vaticano III. Recordemos a declaração de João Paulo II tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o Vaticano II”.</li>
<li>Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando ad calendas graecas uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?</li>
<li>Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto, o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.</li>
<li>Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf! A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se acelera.</li>
<li>Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza todas as suas energias para superar a crise.</li>
<li>Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?</li>
<li>Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu outras crises no passado?</li>
<li>Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz&#8230;”.</li>
</ul>
<p>Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma tripla reforma:</p>
<p>1. Uma reforma teológica e catequética para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos contemporâneos.</p>
<p>Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.</p>
<p>2. Uma reforma pastoral para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.</p>
<p>3. Uma reforma espiritual para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma dimensão existencial e articulá-los com a vida.</p>
<p>Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus nos trate de “sepulcros caiados”?</p>
<p>Para terminar, sugiro a convocação de um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria três anos, terminaria com uma Assembleia Geral – evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e tirasse daí as conclusões.</p>
<p>Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro Jesus de Nazaré, que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.</p>
<p>Seu afetíssimo no Senhor,<br />
Pe. Henri Boulad, SJ<br />
henrioulad@yahoo.com</p>
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		<title>A praga da internet</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Feb 2010 14:06:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilberto Marques</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha avó falava muita coisa interessante, como a avó de vocês também deve falar ou ter falado. Dentre elas ressalto: “a melhor propaganda é o boca a boca”. Isso – é claro, no tempo da conversa nas calçadas, das ruas sem calçamento. Das esquinas repletas de gente embaixo da luz baça do poste pequeno. Da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Minha avó falava muita coisa interessante, como a avó de vocês também deve falar ou ter falado. Dentre elas ressalto: “a melhor propaganda é o boca a boca”. Isso – é claro, no tempo da conversa nas calçadas, das ruas sem calçamento. Das esquinas repletas de gente embaixo da luz baça do poste pequeno. Da praça da canção, do sorveteiro que assiste ao primeiro beijo, das flores, dos jardins, do pipoqueiro. Algodão doce – feito na hora, com barulho na ponta da faca, chamando a meninada. Da retreta domingueira.</p>
<p>A casa ficou em pé. No prédio de apartamentos é difícil vizinho se encontrar ou até se conhecer. A reunião de condomínio é um ringue de kickboxing. Quando dá quórum.  </p>
<p>Na evolução, a boca cresceu e a internet tomou para si a difusão do acontecido. Se a fofoca propagava o vilipêndio falso, também ocorre no modo novo. E, às vezes, apesar do fato ser verdadeiro, ofende. É o caso.</p>
<p>Alguém me mandou uma crônica atribuída a “Arnaldo Jabor”. O anúncio dizia: “Gostem ou não, o Texto é Imperdível!”. Mentira. Por certo não é do Arnaldo.</p>
<p>O suposto Jabor teria dito de frente: “O brasileiro é um povo solidário? Mentira. Brasileiro é babaca.”. E, na frase seguinte do mesmo parágrafo, escancara: por “Eleger para o cargo mais importante um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari (&#8230;)”.         </p>
<blockquote><p>Na evolução, a boca cresceu e a internet tomou para si a difusão do acontecido&#8230;</p></blockquote>
<p>A injúria é indiscutível. “Ofende a dignidade e o decoro” do Presidente da República, nos termos do tipo penal do artigo 140 do Código. Mas também ofende o gari, esquecendo o bloco da limpeza, no Sambódromo do Rio, limpando e sambando cedinho, no sopé da apoteose. Relega a turma que limpa a praia, testemunhando o lixo que ficou; que pula do caminhão, tarde da noite e leva a sujeira da gente pra longe. O lixo conta história e o gari é o primeiro a saber. Ser gari não é pra qualquer um.</p>
<blockquote><p>Se a fofoca propagava o vilipêndio falso, também ocorre no modo novo&#8230;</p></blockquote>
<p>Na sua “catilinária” teria se referido ao Estado, a Nação e ao País. A nação foi chicoteada, chamou o povo de babaca, de bobalhão, vagabundo, desonesto e corrupto na essência. Sugeriu que o pobre é safado e que favelado é sinônimo de bandido. Mentira. Ele nem imagina o que seria esse aumento dos criminosos habituais na favela. Talvez despreze o lembrete de Albert Einstein, ressaltando a audácia dos facínoras e a frouxura do chamado “homem de bem”. Se o número fosse tão grande dispensável, no Brasil, tsunami, furacão, tornado, terremoto e vulcão. Geada e chuva, Serra tira de letra.</p>
<p>Também, como ele, não gostei do Mensalão, do Arrudão e de muita coisa que aumentou no lugar da educação, da cidadania, da liberdade. A economia cresceu, há tempo alguém já dizia: “nem só de pão vive o homem”. Como se vê, existe pequena discordância entre o filho de Dona Lindu e o filho de Maria. No entanto, não se pode desconhecer que o Presidente Lula cresceu ao longo do mandato. No epílogo do segundo, além do percentual altíssimo de aprovação, é respeitado no mundo todo. Um dos motivos é justamente pela falta de diploma. Para empatar com o Nobel de Obama, a turma de Davos, criou um prêmio que começa com ele. Portanto, segundo o Fórum Econômico Mundial, Luiz Inácio Lula da Silva, o torneiro mecânico com diploma, é Estadista Global.</p>
<p>Diante do vocabulário chulo, da falta perene de lógica, certamente o agravo não veio da pena de Arnaldo Jabor. Internet tem suas “marocas”. Não acredite em tudo que você lê.</p>
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