O lado pouco reconhecido da crise financeira mundial em curso é que ela mudou os paradigmas de funcionamento do sistema bancário, materializando uma tendência que se manifestou desde o início dos anos 80, no Governo Reagan. Tradicionalmente, durante séculos, os bancos tomavam recursos a curto prazo e emprestavam a longo prazo. Com as inovações introduzidas nas últimas três décadas, sobretudo mediante os esquemas de CDS (securitização de créditos empacotados), eles passaram a tomar a curto e emprestar também a curto prazo.
Funcionou durante o frenesi especulativo dos anos 2000, quando a órbita financeira da economia se distanciou estupidamente da órbita real, com uma espécie de efeito Ponzi gigantesco dentro e fora dos EUA. Compare-se isso a um banco chinês ou indiano que emprestam segundo o planejamento estatal, e entenderemos a diferença entre o crescimento americano (1,8%) e britânico (0,6%) projetado pelo FMI para este ano e o crescimento projetado chinês (8,2%) e indiano (7,0%), ambos com sistema bancário predominantemente público e economia planejada.
Por outro lado, a crise surgiu como oportunidade para a direita e os conservadores dos países industrializados avançados acelerar um processo iniciado ainda nos anos 80, a saber, a concentração de renda nos ricos e a destruição do Estado de bem social construído no pós-guerra como um dos expedientes para enfrentar a ameaça comunista, e que se tornou dispensável com o fim da União Soviética. Esse é o significado profundo da política econômica chamada de “consolidação fiscal” imposta pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI (a troika) aos países europeus que estariam numa suposta crise terminal de endividamento.
Note-se que não é propriamente a crise, mas a política econômica adotada na Europa para tentar enfrentá-la que está colocando o mundo inteiro em risco. É que houve uma mudança de política fundamental no início de 2010 que abortou o processo de recuperação. Isso pôde ser acompanhado nas reuniões do G-20. Nas três primeiras, realizadas em Washington, Londres e Pittbsburg, os líderes mundiais acentuaram a necessidade de políticas de estímulo fiscal coordenadas e convergentes para reverter a depressão. Já na reunião de Toronto no primeiro trimestre de 2010, a Alemanha, a França e a Inglaterra, esta sob novo governo conservador, sustentaram a necessidade de impor ao resto do bloco europeu políticas de contração fiscal (estratégias de saída dos estímulos) para reduzir a dívida pública.
O que aconteceu, no início, foi a convergência global de políticas keynesianas de estímulo fiscal em face do medo generalizado de derrocada do sistema capitalista e da própria ordem econômica mundial. Funcionou, já que, no último trimestre de 2009, a recuperação parecia em pleno curso em todo o mundo. Acontece que a reversão da política está na origem do segundo mergulho que vem acontecendo: o próprio FMI reviu suas projeções para baixo neste ano e espera crescimento de apenas 1,8% nos EUA, -0,5% na eurozona e 1,7% no Japão, com Itália e Espanha tendo contrações de 2,2% e 1,7%.
Diante do inevitável segundo mergulho, as próprias elites conservadoras parecem desconcertadas. Os últimos relatórios do FMI e do Banco Mundial são patéticos: ao mesmo tempo em que prescrevem a necessidade imperiosa de retomada do crescimento na Europa, insistem no mantra de cortes nos gastos públicos para reduzir as dívidas públicas. Essa é, por exemplo, a postura oficial intransigente do BCE.
Ora, não há possibilidade de retomada real do crescimento na Europa sem aumento nos gastos públicos, em especial diante da impossibilidade de aumento efetivo das exportações num mundo industrializado estagnado. Em outras palavras, a única alternativa racional no momento seria a retomada de um programa keynesiano coordenado mundialmente pelo G-20 para impedir vazamentos de programas nacionais para países exportadores oportunistas (como a Alemanha), como foi o caso no início da crise. Para isso, seria necessária uma nova visão política na Europa. Parece impossível no momento. Contudo, chegará a hora em que, para se salvar, a Europa do euro terá de se livrar dos seus líderes conservadores a fim de preservar seu Estado de bem-estar social e sua estabilidade política, salvando o resto do continente e o mundo de uma derrocada total da ordem econômica.
*Economista e professor, presidente do Intersul, co-autor com Francisco Antonio Doria do recém-lançado “O Universo Neoliberal em Desencanto”, Ed. Civilização Brasileira.