Integração da América do Sul 30/03/2011
América do Sul: a integração como imperativo econômico e social
Em primeiro lugar, cabe uma constatação: nem no Brasil, nem nos demais países da América do Sul, o projeto de integração goza de um apoio consensual na sociedade e nos governos. No Brasil, fora alguns estrategistas de visão ampla como Samuel Pinheiro Guimarães e Darc Antônio Costa, muitos diplomatas e políticos insistem na visão convencional de que as alianças preferenciais brasileiras devem ser com o Primeiro Mundo, enquanto o grosso da sociedade é indiferente ao tema. Nos demais países da América do Sul, há diferentes percepções, segundo a realidade local: alguns temem que o projeto vise a uma suposta hegemonia brasileira, outros têm a visão oposta de que o Brasil peca por não tomar uma iniciativa mais vigorosa em relação à integração.
Em primeiro lugar é preciso dissipar os fetiches. Se o Brasil tivesse um projeto de afirmação de hegemonia ou de sub-imperialismo regional, bastaria que ficasse onde está, sem necessidade de qualquer ativismo político. O peso econômico relativo do Brasil é tão grande em relação a qualquer outro país sul-americano, inclusive a Argentina, que seus interesses econômicos, estruturantes dos demais, seriam suficientes para estabilizar sua posição hegemônica na economia, sobretudo na perspectiva do crescimento uniforme das economias regionais. Daí o caráter pouco consistente da suspeição que alguns comentaristas têm em relação ao projeto de integração. Ao contrário da crítica superficial, o projeto de integração é um antídoto político à hegemonia econômica brasileira. É que, em todos os foros regionais, prevalece o princípio de um voto por país, contrabalançando o peso econômico, territorial ou populacional dos maiores.
A remoção desse fetiche é essencial para o próximo passo, a saber, o reconhecimento de que a integração interessa fundamentalmente a todos, ou a quase todos. Também aqui não podemos ser ingênuos: há fortes interesses financeiros-importadores-exportadores que preferem o status quo. Para eles um projeto desenvolvimentista, baseado na expansão da indústria e dos serviços, pode afetar ganhos imediatos. É o caso das correntes que, sobretudo no Grupo Andino, se esforçam por ter tratados de livre comércio com os Estados Unidos. Contudo, se tratados de livre comércio, como eu acredito, não favorecem o desenvolvimento sustentável, também não constituem obstáculo intransponível para um projeto de desenvolvimento integracionista, como abaixo indicado.
O caráter imperativo do projeto de integração sul-americano vai muito além da visão romântica dos que vêem na integração uma oportunidade de maior integração cultural entre os países sul-americanos. Isso é importante, esteve na origem de várias propostas integracionistas no passado, mas não reflete a situação de emergência na qual estamos agora. O fato é que, na medida em que o mundo industrializado avançado convergiu em matéria de políticas econômicas contracionistas, em busca de excedentes exportáveis, nossos mercados estão vulneráveis ao risco da maior avalanche de exportações de produtos industrializados na história. Diante disso, estamos sendo condenados a uma posição permanente de primário-exportadores, deprimindo a quantidade e a qualidade de nosso mercado de trabalho.
A integração sul-americana, pela linha dos investimentos cruzados e não simplesmente pelo comércio, é a forma que temos de enfrentar o dumping comercial que se anuncia – ou, na verdade, que já está em curso. Isso supõe integração efetiva, cruzamento de cadeias produtivas, investimentos cruzados, especialização industrial, e um esforço conjunto nas áreas de logística, como transporte, comunicações e energia. Em suma, podemos transformar a América do Sul no maior canteiro de obras do mundo, industrializando seus recursos naturais e agregando valor a matérias primas, de forma a criar fortes mercados internos para o aumento da produção em seu conjunto. Não há escassez de recursos financeiros no mundo para isso. Há sobra, a baixo custo.
Pode-se argumentar que a integração interessa ao Brasil mais do que aos demais países porque estamos num estágio de industrialização mais avançado. É uma meia verdade. O Brasil conseguiu, sim, construir um grande parque industrial, e é importante que haja uma perspectiva de demanda para ele, inclusive ou sobretudo para a indústria de bens de capital, tecnologicamente mais avançada. Acontece que os demais países da América do Sul, mesmo os que não têm ainda uma base industrial, podem legitimamente aspirar a tê-la, sobretudo no conceito de especialização. Pequenos países do norte da Europa desenvolveram importantes indústrias especializadas de ponta, mesmo não podendo dispor de uma ampla base industrial. Os países sul-americanos de menor porte também poderão buscar essas janelas de desenvolvimento, desde que não sejam sufocados por políticas liberais exacerbadas.
Nesse sentido, a integração interessa a todos. É a forma com que, conjuntamente, a América do Sul pode enfrentar os desafios da crise mundial contemporânea – na verdade, da crise dos países industrializados avançados . Não haverá perdedores nessa estratégia, a não ser os parasitas do status quo. Mas um ponto fundamental é que isso seja compreendido pelas sociedades. De fato, o projeto integracionista não avançará se for apenas um projeto das elites. Tem que ser um projeto dos povos. É no sentido de fomentar esse projeto junto à opinião pública que o instituto Intersul está articulando, simultaneamente, um movimento de empresários, trabalhadores, mulheres e jovens pela integração sul-americana. Ao mesmo tempo, no Congresso, o Senador Paulo Paim e a Deputada federal Jandira Feghali estão organizando a Frente Parlamentar pela Integração Sul-Americana, por onde transitarão as iniciativas legais em favor do projeto de integração.
O auto, José Carlos de Assis é Professor de Economia Internacional da UEPB, diretor-presidente do Intersul – Instituto de Estudos Estratégicos para Integração da América do Sul.