foto PUC-Rio, Núcleo de Memória 2010 – Mesa redonda com Wanderley Guilherme dos Santos, Rafael de Almeida Magalhães, Edmar Bacha, Célio Borja, Francisco Weffort -
Não pude comparecer, em dezembro último, ao almoço no restaurante Albamar, no Rio, onde Raphael costumava celebrar anualmente, com um grupo restrito de amigos, a vinda próxima do Ano Novo. Estava em Foz do Iguaçu numa viagem profissional. Em décadas de convivência, creio que não falhei a esses almoços mais do que duas vezes, incluindo a última. Quando o encontrei no seu escritório da Rua Pedro Lessa dois ou três dias depois, antes mesmo de perguntar pelo resultado do encontro, introduzi um tema relativamente raro em nossas conversas: sua biografia.
Ele achou curioso porque alguns de nossos amigos no Albamar também haviam feito, independentemente, uma forte pressão no mesmo sentido. Isso me animou a insistir. Argumentei que estava para assumir uma cadeira na Universidade Estadual da Paraíba, com uma previsão de passar pelo menos quatro dias por semana em João Pessoa, o que muito provavelmente me deixaria tempo vago para pesquisar e escrever. Na verdade, seria uma autobiografia. Nossa proximidade intelectual era tão grande que eu não teria maior dificuldade em fazer, num livro, o que fiz em dezenas de textos, artigos e ensaios que assinamos juntos, ou que, por conveniência política, achamos melhor que ele assinasse sozinho: ele falaria, eu escreveria, ele revisava!
Entretanto, Raphael se mostrou irredutível. A essência de seu argumento era que, dado a trajetória absolutamente peculiar de sua vida política, ele dificilmente seria entendido ou acreditado fora de seu próprio círculo. Então, durante as duas horas seguintes de nossa conversa, e a despeito de minha ansiedade em tratar de um tema objetivo que me levara a seu escritório, ele me rememorou, mais uma vez, detalhes internos das crises de vários governos de que fora ativo partícipe ou testemunha privilegiada, para concluir melancolicamente: Como eu posso contar isso? Não entenderiam. E há também a questão de deixar mal a reputação de algumas pessoas ainda vivas. Biografia, disse, “só se fosse póstuma”.
“A não ser, respondi-lhe brincando, se faço uma biografia sua não autorizada”. Poderia na verdade fazê-lo, se tivesse metade da memória que ele tinha para os fatos históricos que viveu. É que ele me contou todos os mais relevantes. Se fosse no início de minha carreira jornalística, quando era um repórter que sequer usava bloco de anotação (menos ainda gravador), eu teria reunido o mais precioso acervo da política brasileira contemporânea por meio da transferência da memória dele para a minha. Entretanto, já não tenho essa habilidade. Vou fazer, algum dia, com a ajuda de outros interlocutores de Raphael, o esforço para recuperar alguns relatos mais significativos. Suspeito até que essa fosse sua intenção oculta, por ser eu o jornalista mais ligado a ele. Mas não seria capaz de fazer sua biografia. Seria esmagado a cada parágrafo pela emoção dos momentos revividos, perdendo qualquer sentido de objetividade.
Contudo, tentamos, antes, fazer uma biografia administrativa de Carlos Lacerda. O objetivo era apresentar o Governo Lacerda em sua realidade objetiva, por trás dos estereótipos oriundos dos conflitos ideológicos radicalizados dos anos 50 a 60, os quais seriam deixados a outros historiadores. O projeto do livro era também uma forma de me arranjar trabalho, num período crítico de minha vida profissional. De qualquer modo, me apaixonei pelo tema. Ele jamais me disse isso, mas a alma e a retaguarda sensata do Governo Lacerda tinha sido justamente o próprio Raphael (houve um período em que acumulou cinco secretarias de Estado). Assim, era fácil para ele extrair da memória os detalhes mais recônditos da administração para formar o mosaico de uma visão estratégica para mim totalmente surpreendente. O Governo Lacerda foi, efetivamente, um modelo em pequena escala da social democracia européia no Brasil: prioridades para educação (eliminação do número de crianças sem escola – eram cem mil no início do Governo, foram reduzidas a zero), para a saúde, para o saneamento básico (Guandu), para os transportes (grandes túneis e obras viárias na cidade), para o meio ambiente (Aterro do Flamengo), etc.
Já tínhamos dez capítulos escritos quando Raphael, surpreendentemente, suspendeu o projeto. Aparentemente, não gostou do rumo que estava tomando o texto transcrito de suas entrevistas gravadas, editadas por mim. Suspeito que a razão tenha sido a mesma da recusa em fazer a autobiografia: ainda não estávamos suficientemente longe do calor dos conflitos ideológicos dos anos 50 e 60 para se apresentar, fora dos círculos íntimos, uma nova imagem de Carlos Lacerda como um social democrata realista (em face da social democracia nominal do velho PSD, que seria replicada em termos igualmente nominais no futuro, pelo PSDB). Entretanto, tenha sido o Governo Lacerda social-democrata ou não, o fato inquestionável é que Raphael o era: num tempo em que o conflito ideológico exigia que se fosse capitalista liberal ou comunista, já partilhava com ele a convicção profunda de que, a meio caminho entre os dois extremos, deveríamos lutar pela democracia social real no Brasil.
Contudo, fora do círculo íntimo, entender Raphael é realmente difícil. Amigo e principal colaborador de Carlos Lacerda, respeitado pelo General Castello Branco, vice-líder do General Costa e Silva, preso e auto-cassado depois do AI-5, inspirador e amigo íntimo do senador arenista dissidente Teothônio Vilela, amigo influente de Ulysses Guimarães, amigo (e ministro) influente de José Sarney, interlocutor eventual de Fernando Collor de Mello, amigo de Fernando Henrique Cardoso: com todas essas personagens da República, incluindo os mais recentes Lula e Dilma, Raphael teve uma ou mais oportunidades de contatos em momentos cruciais da vida republicana contemporânea. Quem não o conhece, mas só quem não o conhece, pensará que há tantas contradições entre essas personagens que para circular à vontade entre elas a pessoa tem que ser também contraditória. A realidade é o exato oposto: de Lacerda a Fernando Henrique, e na própria iniciativa privada como diretor da Light e conselheiro da Unipar, Raphael esteve sempre do mesmo lado: uma defesa intransigente do interesse público e dos mais humildes, independentemente de quem era o amigo ou conhecido no poder!
Um dia brinquei com ele: Você é como Péricles. Filho de família aristocrática, desertou da aristocracia e chefiou o partido democrático, devotando sua vida à defesa da cidade e construindo a glória de Atenas. A analogia tinha falhas, porque Raphael teve poucas chances de exercer poder no setor público ou na própria vida partidária, limitando-se sobretudo a um discreto papel de conselheiro. Mas quando lhe coube exercer poder, no Governo do Rio e na Previdência Social, ele o fez com extrema eficácia, sabedoria e escrupuloso rigor com o interesse público, voltado invariavelmente para os pobres e os mais fracos, não cedendo em relação ao interesse público mesmo nas vezes em que esteve na direção ou no conselho de empresas privadas. Infelizmente, as circunstâncias políticas no Brasil dificilmente permitiriam que alguém como ele chegasse à Presidência da República: era o político “mais bem preparado do Brasil”, como escreveu o mais notável dos colunistas políticos brasileiros, Carlos Castelo Branco.
Como Péricles, foi difamado. E ainda como Péricles, foi reabilitado pela Justiça. Não conheço ninguém que, tendo privado com ele alguns momentos, não tenha se encantado com seu discurso. Raphael elogiava muito meu texto, mas eu retrucava que meu texto não se comparava com sua capacidade de verbalização e de persuasão. O mais notável, porém, não era a forma, mas o conteúdo. Ele tinha uma capacidade de exposição absolutamente cristalina, que destacava o exato ponto de atenção num contexto disperso. Lia sofregamente, abastecendo-se de leitura atualizada pela internet, e era capaz de resumir em dez minutos de conversa, com notável precisão, o livro de 400 páginas que acabara de ler.
É possível que poucos se tenham dado conta da estratégia decisiva que, tendo Raphael como um dos principais artífices, resultou afinal no fim de duas décadas de regime militar. Essa estratégia consistiu em inventar uma candidatura militar de oposição, o General Euler Bentes, para a sucessão de Geisel, não para ganhar no Colégio Eleitoral espúrio, mas simplesmente para dividir os militares, hipótese que deixava o regime em pânico. Raphael monitorou muitos dos pronunciamentos do General Euler, tentando construir em torno dele um projeto de democracia, ao mesmo tempo em que tentava esclarecer aos “autênticos” do então MDB que o objetivo da candidatura era estratégico, não uma vitória impossível. “Se o regime militar nos impede de fazer política no plano civil, vamos enfiar a política no coração do regime militar”, dizia. Passado o simulacro de eleição, o regime entrou de fato num processo inexorável de abertura política dentro do espaço aberto pela dissidência militar.
Tinha uma apaixonada vocação republicana. Era impossível abordar qualquer assunto com ele sem uma prévia discussão sobre a situação política brasileira. Em um dos nossos últimos contatos, tratamos dos cortes orçamentários que o Governo Dilma, estimulado por uma mídia estridente, supostamente preparava para seu primeiro ano de gestão. Contei-lhe ter sabido que o ministro Palocci reunira secretários executivos de vários ministérios para anunciar a decisão de um corte de 30% do orçamento deste ano, sendo que dos 70% restantes teriam de ser deduzidos ainda mais de R$ 70 bilhões de restos a pagar de 2010. Raphael estava num estado de total desencanto. Se isso é verdade, por que transformar uma situação social e econômica tão boa, como fora a situação de 2010, numa recessão certa, apenas para agradar os “mercados”?
Rememorou então o desenlace anêmico do Plano Cruzado. Era seu assessor econômico no Ministério da Previdência, e participei do esforço ingente que ele fez para evitar o desastrado Cruzado II. Raphael foi a Sarney e o advertiu a não fazer o programa nos termos propostos pela Fazenda, com os quais ele não concordava, e que provavelmente seriam repelidos pela opinião pública. Sarney respondeu dizendo que, “com o capital de popularidade acumulado com o Cruzado I, poderia fazer qualquer coisa”. Alguns dias depois, contou, houve uma cerimônia na catedral de Brasília à qual compareceram o Presidente e vários ministros. Sarney fora recebido com apupos e vaias. A imensa popularidade que lhe fora granjeada pelo Cruzado I se esfumou. “Viu para onde foi seu capital político?”, disse-lhe Raphael com a típica franqueza que o caracterizava.
Por isso, seus últimos dias foram dominados pelo temor de que o Governo Dilma embarcasse definitivamente numa trajetória contracionista da economia, queimando inutilmente o capital político acumulado no Governo Lula. Sua aversão a políticas recessivas era epidérmica, e recuava ao tempo em que fora Governador da Guanabara, sucedendo Lacerda. Por força dessas políticas todo um grande programa de obras havia sido paralisado, o que se configurou como um dos principais fatores de ruptura de Lacerda com o Governo Castello Branco e a perda das eleições estaduais. A obsessão oficial com a contração monetária era tão violenta que o ministro da Fazenda, Octávio Gouvêa de Bulhões, ao lhe negar financiamentos em cruzeiros da época, disse-lhe que só seria possível financiamento em dólar. Raphael não titubeou: “Então me dá os dólares que troco no mercado negro e financio meus investimentos!”
Não era um estatista dogmático, mas via com grande desprezo as teorias privatistas de fundo ideológico. A privatização da Vale do Rio Doce, empresa que considerava estratégica por sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento industrial e logístico do país, foi talvez o ponto que quase abalou um longo relacionamento com Fernando Henrique Cardoso, que vinha desde a construção do PMDB e do tempo em que o futuro Presidente se considerava um socialista.
Raphael teve influência indireta nos processos políticos brasileiros, inclusive na Constituinte, a partir sobretudo de sua inequívoca autoridade intelectual e moral. Exceto o mandato de governador da Guanabara, por eleição indireta, e o mandato de deputado mais votado do Rio, nos anos 60, não teve outros mandatos eletivos. O momento decisivo, a esse respeito, em sua trajetória política pessoal, e que por certo teria influído na trajetória da República, foi sua recusa em disputar a sucessão de Lacerda em 1965. Ele sempre evitou aprofundar esse tema em nossas conversas. Na última, a que me referi acima depois do almoço no Albamar, ele foi, ao contrário, de uma franqueza peculiar, como nunca havia visto.
Houve muita fantasia em torno de sua decisão de não candidatar-se, já que era considerado o indicado natural de Lacerda e não era hostilizado pelo Governo militar. Entretanto, ele não se candidatou, mesmo tendo chances de ganhar. E a justificativa última ele comunicou ao próprio Lacerda, a partir do que ele tinha de mais peculiar, o domínio absoluto da razão política: “Não há garantia de que eu ganhe ou perca. Se perder, serei eu, e não você quem perdeu, e você se indignará comigo. Se ganhar, terá sido você quem ganhou. E você usará essa vitória como trampolim para a Presidência da República. Contudo, não estou certo de que seja bom para o país você ser Presidente da República. Acho que vai escalar contra os Estados Unidos. É da sua natureza: você não briga para baixo, briga para cima. Tenho medo de que, se você ganhar, seu governo seja um governo de instabilidade permanente. E isso não será bom para o Brasil.”
Com isso, a História do Brasil seguiu seu curso. E a de Raphael seguiu o dele.
J. Carlos de Assis, jornalista e economista, amigo e colaborador de Raphael há 40 anos.