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Quando era um jovem estudante de Economia no início dos anos 70, embora influenciado, como outros de minha geração, pela literatura marxista, via com grande suspeição a profecia de Marx segundo a qual o capitalismo seria destruído por suas próprias contradições. Na verdade, acreditava que a suprema crise do sistema fora a Grande Depressão dos anos 30, e que algo equivalente não aconteceria jamais novamente. O keynesianismo, era o que pensava, tinha uma vacina definitiva contra as crises cíclicas do sistema, e diante de qualquer risco as políticas de recuperação da demanda efetiva seriam restauradas no sentido de restaurar a produção.

Eu estava errado. Não que, agora, acredite que o sistema capitalista será destruído. Mas ele será, sim, profundamente reestruturado. Caso contrário vai ser a civilização como a conhecemos que será liquidada. A reestruturação do capitalismo começará pelos próprios alicerces do sistema, até aqui caracterizados pela concorrência e pela competição desenfreada entre países: será impossível a superação da atual crise pela ação imperial de algum país, por mais poderoso que seja, vindo a pôr ordem no mundo. Será, sim, inevitavelmente, pela via da cooperação entre os povos.

Povos, não países ou governos. Estamos em plena era da democracia de cidadania ampliada. Nenhum governo, na era nuclear, ousará propor uma solução da crise pela via militar, como acabou ocorrendo nos anos 30, pois seria desautorizado por sua própria população. Por outro lado, entre países nuclearizados como Estados Unidos e China, a guerra é impensável. Certo que um consenso, base da cooperação, parece quase impossível nessa altura. A retórica dos governos exalta a cooperação, mas suas ações vão no sentido oposto, por não tocarem nas questões de fundo. É isso que Marx chamava de contradição.

O prolongamento da atual crise, a partir dos poderosos focos de resistência do capital financeiro a uma reestruturação efetiva, reflete o impasse entre duas propostas políticas centrais e uma secundária. A primeira proposta política, assumida claramente pelo presidente Barak Obama e pela China, está centrada na necessidade de manutenção de estímulos fiscais para retomar a demanda (keynesianismo puro); a segunda, comandada pela Alemanha, está centrada no ajuste fiscal dos países europeus endividados (ortodoxia pura). E a terceira, a meu juízo totalmente equivocada, centra-se na pressão norte-americana para a valorização do yuan chinês.

O problema com os estímulos fiscais numa economia globalizada é que a demanda por eles gerada pode vazar para outros países. No caso da China, não, porque a China é uma economia planejada e controlada. Por isso, seu estímulo fiscal de 540 bilhões de dólares sustentou de tal forma o crescimento que o país praticamente não sentiu a crise. Nos Estados Unidos, a maior parte do estímulo de 760 bilhões foi na base de corte de impostos; como nem todo mundo que recebe devolução de imposto gasta o dinheiro, não há efeito multiplicador. Além disso, parte do estímulo acabou favorecendo outras economias, notadamente a alemã. Em conseqüência, o desemprego norte-americano continua em níveis intoleráveis, o que deixa Obama em desespero.

Numa economia globalizada, a eficácia dos estímulos fiscais exigiria que fossem aplicados cooperativamente por todos os principais governos, pois nesse caso o vazamento de uns seria compensado pelos vazamentos de outros. É nesse ponto que a Alemanha, arrastando grande parte da Europa, assumiu uma política fiscalista que, retirando prematuramente os parcos estímulos que dera, acrescentou a isso o fato de forçar todos os europeus a ajustes fiscais autofágicos. Os alemães estão ignorando o fato de que, quando todos querem vender e ninguém quer comprar, os ajustes fiscais destinados a gerar excedentes exportáveis, segundo a cartilha do FMI, não podem funcionar.

A própria Alemanha está muito bem: pirateia os programas de estímulo norte-americano, chinês, indiano e russo. Certo que, em algum momento no futuro, e muito a curto prazo, a economia alemã também capotará, na medida em que, historicamente, 40% de suas exportações se destinam a uma Europa que corta selvagemente gastos.

Com esse desequilíbrio de fundo, as contradições do capitalismo explodirão na próxima reunião de Seul a partir da pressão norte-americana pelo revalorização do yuan. Imaginem que a China não resista à pressão e desvalorize fortemente, como o Japão foi obrigado a fazer após o Acordo Plaza de 1985: o superávit chinês contra os Estados Unidos não baixará significativamente, assim como não baixou o superávit japonês desde aquela data. Além disso, não é só em relação à China que os Estados Unidos têm déficit, mas em relação a nada menos que 90 países. Vão obrigar a todos revalorizarem?

O desequilíbrio chinês é social, não cambial. O desequilíbrio vem de sua mão de obra escandalosamente barata, que torna os produtos chineses mundialmente competitivos, independentemente de câmbio. Mas isso, se se reflete como uma questão mundial, não é uma questão mundial. É uma questão que diz respeito ao equilíbrio interno da sociedade de 1,3 bilhão de chineses. Um aumento abrupto da moeda pode desequilibrar essa sociedade. Nenhum dirigente chinês responsável aceitaria isso. Não obstante, do ponto de vista keynesiano, a China faz, sim, uma política responsável: fez o maior programa de estímulo em termos relativos do mundo, está ampliando seu mercado interno, e está ampliando suas importações, que crescem a um ritmo superior ao das exportações. Com isso, aliás, salvou o resto da Ásia e ajudou a salvar o Brasil.

São os mega-especuladores norte-americanos e europeus (alguns subdesenvolvidos vão juntos) que estão desestabilizando o mundo e efetivamente retardando a recuperação. Na Europa, estão literalmente liquidando os países mais fracos, e até a França, que acabarão por se verem mergulhados numa convulsão social. Seus ataques a moedas européias e o prenúncio dos ataques aos países emergentes só cessarão a partir de uma política mundial de cooperação para o controle dos fluxos financeiros especulativos. Sem isso, não haverá estabilidade do sistema. Como acho que Marx não tinha razão, quando falava de destruição do capitalismo, espero que as democracias do mundo, na dúvida entre os especuladores e os povos, escolham o caminho de superação da crise pela vertente que Keynes apontou há 70 anos!


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