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“Meu irmão, se liga no que eu vou lhe dizer, hoje ele pede o seu voto e amanhã manda a polícia lhe bater”[i]

Mais uma “festa da democracia” está chegando, usando aqui tal expressão insistentemente repetida pela mídia “canarinha”. Mas como tudo se vê por um ponto de vista, certamente trata-se de uma festa. A festa do poder econômico e da hipocrisia.

O voto é uma conquista histórica, um instrumento importante em qualquer sociedade democrática. Muitos que passaram por este mundo morreram para conquista de tal direito. Logo, o problema da democracia brasileira não está num pressuposto de que o voto seria algo inútil. E sim porque o povo, na prática[ii], exerce o voto para eleger “representantes” de tempos em tempos, e nada mais.

Para avançar, é necessário votar cada vez mais. Além de eleger governantes, deve haver o voto para destituí-los. E o povo deve ter cada vez mais o poder de decidir os rumos da política DIRETAMENTE, por meio de plebiscitos e projetos de iniciativa popular onde sejam tratadas questões de interesse geral.

No entanto, enquanto o povo brasileiro segue “deitado eternamente em berço esplêndido”, é interessante discutir alguns aspectos da atualidade política, e nessa perspectiva seguem algumas reflexões.

“Voto só em quem tá ganhando”

Trata-se de um raciocínio amplamente utilizado, que é de difícil compreensão. Muitos brasileiros orientam seu voto por pesquisas, como se o voto fosse uma espécie de aposta em corrida de cavalos, onde seja “legal” votar em quem ganha. Pelo menos numa corrida de cavalos apostar no primeiro colocado traz dinheiro, o que não acontece numa eleição.

“Voto em quem paga mais”

Trata-se de um reflexo da baixa participação política. Uma vez que o povo está limitado a eleger “representantes”, ter um cacho de bananas em troca do voto parece ser um bom negócio (e certamente o é, em alguns casos). É interessante e polêmica a opinião do Senador Cristóvão Buarque[iii], quando diz que o indivíduo carente que troca seu voto é um eleitor inteligente, pois ali está uma oportunidade real de saciar uma necessidade concreta. Trata-se de um raciocínio absolutamente franco e conectado com a realidade, pois é ilusório achar que a mudança de comportamento do eleitor é condição suficiente para a evolução política que necessitamos (apesar de ser condição necessária), assim como é moralista e hipócrita “exigir” tal mudança de comportamento de indivíduos que estejam em condição de pobreza material e educacional, sem perspectivas concretas na política.

“Político é tudo vagabundo”

Toda generalização é perversa. O raciocínio de que “todo político é vagabundo” já é forte no senso comum (por motivos óbvios), mas ele também é capciosamente alimentado diariamente neste país, sobretudo pela mídia. Isso porque fortalecer tal lógica só ajuda a afastar as “pessoas de bem” [iv] da política, o que só facilita o império da corrupção. Existem hoje pessoas sérias na política (certamente uma minoria), e isso deve ser reconhecido e estimulado.

“Voto em fulano porque o acho bonzinho, bonitinho…”

Talvez o fortalecimento desta lógica tenha contribuído para ter ficado no passado o fato de que um elemento decisivo de um partido era ter um bom articulador político. Hoje, tal elemento é o marqueteiro.

Vende-se um candidato como é vendida uma marca de sabão em pó. Logo, orientar o voto pela imagem que se passa é orientá-lo por nada ou quase nada. Certamente o maior dos corruptos não se apresenta “maltrapilho”, e sim numa bela vestimenta e com um nobre sorriso.

Outro elemento que fortalece tal lógica é o aprofundamento diário da perspectiva personalista. Atribui-se a condução de um governo às características pessoais de um candidato, como se o fundamental não fosse a composição de interesses partidários, econômicos e/ou ideológicos que cada candidatura traz consigo.

Por isso, toda candidatura que esteja centrada na figura do indivíduo (o bom marido, a boa mãe, a trajetória individual…) e não em suas propostas concretas, deve ser vista com desconfiança.

“Voto em fulano porque ele é estudado…”

No imaginário de muitos paira uma noção mecânica de que conhecimento escolar é sinônimo de competência, e por sua vez competência é sinônimo de “coisa boa”.

Ora, nem sempre conhecimento escolar é sinônimo de competência, e muito menos competência necessariamente significa algo positivo. É só perceber o que é ensinado na maioria das Universidades de todo país[v], que tem na sua base um ensino que reproduz a lógica de exploração que impera na sociedade brasileira.

Logo, o mais preparado academicamente pode ser (ou não) o mais preparado para expropriar o Estado.

“Voto só em deputado da região”

Com a crescente despolitização que se vê no Brasil desde a década de 90, cada vez mais se vê um deputado como um captador de recursos nos Estados ou na União para as regiões que “os elegem”. Uma anomalia que desvirtua toda política, pois o que passa a ser importante para um povo de uma cidade é “quanto o deputado trouxe”, e não o que o deputado votou ou deixou de votar no legislativo.

Isso reflete em “bizarrices” que passam despercebidas pela maioria, como, por exemplo, um deputado ser bem quisto por “trazer dinheiro” para construir uma ponte, e não se notar que ele tenha votado contra os trabalhadores de todo o país (inclusive de “sua” cidade) numa reforma tributária, previdenciária, etc.

“Voto nele porque já é rico”

Outro raciocínio comum e assustador é este amplamente difundido, de que é melhor votar num rico do que num pobre. Isso certamente ocorre por já está naturalizado o raciocínio de que o óbvio é o político ser eleito para roubar. Logo, aquele que já é rico, rouba menos, e o que é pobre rouba mais, pois “tem um caminho mais longo a percorrer até a riqueza”…

É como se existisse um “patamar” de riqueza, em que o indivíduo atinge e se dá por satisfeito. Trata-se de um raciocínio que deve ser combatido, pois pobreza ou riqueza não deve ser parâmetro para análise, uma vez que não se deve entender como natural o enriquecimento por meio da política.

“Ele rouba mas faz…”

Tal raciocínio seria menos assustador se não fizesse sentido. O trágico é a infinidade de situações em que o eleitor (mesmo o mais esclarecido) deparara-se com eleições onde concorrem dois candidatos com amplo histórico de corrupção, sendo o diferencial entre um e outro a disposição para “fazer” mais ou menos.

A ocorrência comum de situações como essa talvez seja o diagnóstico mais evidente de que o poder público não deve estar limitado nas “mãos” de “representantes”.

“Votar é sinônimo de democracia”

“Uma mentira quando é dita por repetidas vezes, torna-se uma verdade”. Esta passagem representa bem o que ora se discute. Etimologicamente, demo (expressão originária do latim) significa povo, e cracia significa poder.

No Brasil o povo manda?

Logo, não se pode afirmar que há uma democracia de fato porque o povo vota de tempos em tempos. Há um caminho mais longo a ser percorrido, e um fundamento desta caminhada passa pela efetiva participação popular.

“Mas o povo não sabe decidir…”

Este raciocínio reflete a reação conservadora que mais se percebe quando o poder popular é defendido. Como se o povo não fosse capaz de entender qual a sua prioridade, por ser, em sua maioria, desprovido de uma educação escolar.

Ora, se o povo não é capaz, quem o é? A elite econômica que há séculos governa este país?

Enfim…

Que venha mais uma “festa da democracia”, e o desejo que fica é que reflexões desta natureza alcancem o máximo de pessoas neste momento de protagonismo da política.


[i] Trecho da música “Candidato Caô Caô” de Bezerra da Silva.

[ii] Formalmente, o poder popular vai muito mais além. O artigo 14 da Constituição Federal de 1988, que trata de direitos políticos do cidadão, assim está escrito: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos e, nos termos da lei, mediante: plebiscito; referendo e iniciativa popular.

[iii] Senador pelo PDT-DF.

[iv] A compreensão utilizada para “pessoas de bem” não se confunde com a de uma “novela global”, onde um indivíduo é totalmente bom ou ruim. Tal compreensão entende como ”pessoas de bem” aquelas que encaram a política como um instrumento para transformar a realidade social.

[v] Aqui há um artigo onde se discute a questão do ensino http://www.rumosdobrasil.org.br/2010/03/16/universidade-popular-como-faze-la/


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