Artes e Cidadania 13/07/2010
A Dialética do Fictício
O Brasil parece ter encontrado um lugar verídico na Dialética. O país pretende ser uma síntese de tudo o que existe de pior no mundo em termos de desenvolvimento socioeconômico. Vislumbrando o ainda virtual, porém colossal, excedente econômico do Pré-sal, vejo que os atuais marcos jurídicos de regulamentação para a exploração petrolífera mais a política econômica neoliberalesca, isto é, de baixo percentual de investimento e de uma completa falta de planejamento (beirando a criminalidade), serão um sério estorvo num futuro próximo. Não quero acreditar, mas o Brasil está adotando em partes o modelo africano. Um pouco de Angola e Etiópia, outro pouco de Nigéria e Sudão, um tanto de África do Sul e, por fim, uma pitada de Malawi no caldeirão da nossa miséria verdadeira.
De acordo com alguns pareceres técnicos preliminares, o Pré-sal daria ao Brasil uma parcela significativa das reservas mundiais de petróleo. Contudo, nada foi dito de forma oficial. E, por enquanto, a expectativa é maior que a realidade. Certezas: as empresas que extraem o óleo serão 100% proprietárias dele; os royalties poderão ser pagos em barris de petróleo e o Brasil se projetará no mundo como um grande país exportador de óleo bruto, utilizando também a queima de boa parte do petróleo nacional no modelo energético de termoelétricas.
Por se tratar de petróleo, hoje, o excedente econômico do Pré-sal tranquilamente transitaria pela faixa dos trilhões de US$. Para mim, que namoro a pobreza há anos, essas cifras são de ficção científica. Pois bem, se nós constituíssemos um ativo financeiro público com essa grana, o Brasil seria certamente redesenhado. Entretanto, as novas regras legais de exploração petrolífera caminham no sentido contrário. Não para as empresas do ramo (Obs.: elas e as ações delas são extremamente verídicas). Ecologistas, em breve, nós entraremos definitivamente no clube da chuva ácida. Quem sabe, não vem aí a BP para acabar com o azul do mar? Imaginar que alguém credita ao futuro a queima de combustível fóssil como fonte de riqueza… Isso será um suicídio lento e doloroso.
A idéia de um ativo financeiro público para redesenhar o país é a maior heresia desenvolvimentista, na opinião dos prepostos neoliberalescos dos interesses estrangeiros. Pensa num Brasil menos desigual. Sem saudosismos. Só que o projeto de “unificação” e internacionalização do sistema financeiro brasileiro em andamento anularia qualquer iniciativa de planejamento econômico a curto, médio e longo prazos. Aliás, as perdas financeiras da última crise mundial estão encontrando no aniquilamento econômico da periferia capitalista uma compensação satisfatória. Caso a poupança não se converta mais em investimento, haverá a virtualidade da variável econômica. Ela existirá em números, não efetivamente. Uma cifra digital apenas.
Pelo menos o problema chinês com a brutal poluição oriunda da queima de combustíveis fósseis poderia ser evitado aqui. O que foi aquela neblina durante a última olimpíada? Em tese, é possível gerar energia limpa até com a antimatéria. Termoelétricas… francamente. O biodiesel expande a base social do modelo, contudo não deixa de ser uma matriz poluidora. E o Brasil acumulando os escombros paradigmáticos da modernidade burguesa.
Nenhum país africano superou o quadro de pobreza e miséria exportando petróleo. Todos conseguiram degradar sim o meio ambiente, retroceder socialmente (quem já tinha deixado a Idade da Pedra) além de afogar o povo em doenças e guerras. O desastre ecológico recente no Caribe acontece há décadas no Rio Níger. O petróleo da África enriqueceu uma elite europeizada e promíscua, adepta dos 10%, a mais sincera instituição política da periferia capitalista. 10%.
Agora mesmo, grandes fundos inversores árabes, indianos e chineses, além dos europeus, partilham os solos férteis africanos com a atividade agroexportadora. A economia de subsistência, que nunca foi algo excepcional, é reduzia ao desaparecimento, inflacionando os alimentos. Em Economia do Trabalho, encontramos na África o modelo gerencial ‘trabalhar-sem-comer-até-morrer’. Não sei como ficaria essa expressão em alemão ou inglês, algo como No-Way Jobs. “O governo sudanês acaba de criar mais 1.000.000 de novos No-Way Jobs dentro dos campos-cidades de refugiados”. Não falta muito para o pedido de selo de qualidade administrativa ganhar o carimbo japonês.
Um amigo meu recém-doutor, André Villar, tricolor e teórico da escombrologia, vibra de ódio quando escuta falar dos derivados do petróleo, sobretudo do ácido acetilsalicílico. Quem sofre com dores de cabeça vendo seu time de futebol fictício em campo conhece os tormentos do meu amigo André. Impressionante, em tudo há derivados do petróleo. Não preciso dizer que eles nos provocam câncer. De todos os tipos. “Lá vem o Brasil descendo a ladeira…” Com a bola no pé? Ridículo. Morrerá no asfalto?
O fictício quando se materializa extermina o verídico. Assim é na Epistemologia, tanto quanto na contabilidade financeira. As cidades de lata sul-africanas representam ouro e diamantes exportados. O inverso da riqueza nacional (fictícia para o povo) é a veracidade das barracas de rato seco vendido no Malawi. Digitalmente, teremos somas exponenciais nas contas nacionais (sem brincar com rimas).
Eu vi no documentário “O pesadelo de Darwin”, sobre a exploração econômica européia na África, um vigia noturno guardando os portões de uma empresa estrangeira com arco e flecha. Sinceramente, desconheço os limites da realização dialética do fictício. Compreendo aqui o eufemismo ‘virtual’. Em termos virtuais, a África seria um continente muito pungente, por exemplo, na opinião do Fórum Econômico Mundial, cuja riqueza é disputada a tapas e defendida a pedradas. A segunda oração da frase anterior é, sem dúvida, a parte verídica da construção figurativa. O fictício é o verídico num espelho partido. Ou, o fictício é o verídico vestido de pano de chão. Seria este o ‘Paradoxo dos Escombros’, meu amigo André?