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Vamos começar pelas redes públicas de educação, partindo do pressuposto que os futuros atletas pudessem despontar para o início de uma carreira profissional ali. Longe de querer uma abordagem do desporto igual aquela defendida no período da ditadura militar. Esta eu conheci: “corpo saudável, nã-nã-nã… nã-nã-nã…”, a mesma baboseira fascista de sempre quando se pretende adestrar as bestas à repressão, vide a atual ‘geração academia’, não-realizada em expressão estética de caráter humano. Voltando às escolas da rede pública, tomo o caso do Rio de Janeiro, como estão o ensino e a prática de esportes hoje na educação básica?

Na rede pública municipal (Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), a antiga educação física passou à atividade recreativa simples, apesar da capacitação técnica de professores e educadores. As meninas jogam queimado e os meninos, uma pelada. Ou todos vão passear no Shopping Center mais próximo. Da forma em que o esporte foi concebido pela prefeitura, restaram apenas o lúdico e o passeio protoconsumista.

Agora, quando falamos de ensino e práticas esportivas na rede pública estadual, a coisa é bem pior mesmo. Quem quiser jogar alguma coisa tem que trazer a bola de casa. Se existe uma piscina, falta cloro. As quadras poliesportivas abandonadas à crítica das intempéries não foram contempladas pela proposta técnica profissionalizante em escolas outrora referências em futebol, vôlei e handebol. Assim, temos quase 100% dos estudantes dando voltinhas nos Shoppings em três turnos (manhã, tarde e noite). Tudo bem, alguns vão à praia.

O projeto neoliberal para a educação é similar a uma bomba-relógio atômica. Restam escombros ou, se preferir, mão-de-obra barata e subqualificada com mentalidade de zumbi. ‘Madrugada dos mortos’. Pouco importam os projetos político-pedagógicos construídos por educadores responsáveis. Ao final, o neoliberalismo sequer lhes garante um emprego. Os escombros assumem a forma de consumo predatório, garantido com crédito virtual, para esculhambar o que resta de Planeta e do ser humano.

Quem estudou ou estuda em escola particular possui mais oportunidades nos esportes. São oportunidades relativas, óbvio, pois são extremamente limitadas no Brasil. E, pode virar zumbi também. Entretanto, algumas escolas ainda estimulam uma atividade física saudável. Saudável porque criam um convívio agradável no meio do terror que é a educação burguesa e a sua maldita competição permanente. Particularmente, gostava de ir para a escola por causa do ambiente formado pela rapaziada praticante de vôlei, basquete e handebol. Era proibido jogar futebol e nós conseguíamos burlar a hipocrisia.

O handebol, por exemplo, ganhou destaque televisivo nos últimos 10 anos. Isto não significa dizer que o esporte tenha uma estrutura profissional completa. Mas para os idiotas que vivem por trás do esporte, significa. Não me lembro de ninguém, infelizmente, que estudava em escola pública municipal ou estadual com destaque esportivo ou alguém que tenha se aposentado graças exclusivamente ao handebol agora. Para ser sincero, a cobertura dada aos esportes em mídia não me comove e ela muito se assemelha às políticas públicas da área. Ora palhaçadas, ora presepadas.

Não existe no Brasil nem vida nem cultura profissionais esportivas, inclusive de futebol. Existe uma paixão pelos times. Formação? Esta certamente já era. As exceções são como os prêmios da loteria. A paixão pelo esporte não garante uma existência digna a ninguém, muito menos uma velhice agradável. Para os ideólogos talvez, mas isso por alimentarem falsos debates e mesas redondas quadradas. Os casos de ex-atletas largados pelas ruas e aos vícios, nós os temos aos montes então somados aos que nunca foram nada. Em poucas décadas, ficará muito difícil encarar os gringos nos esportes consagrados pelo próprio povo brasileiro. Aceitamos ser um mercado complementar de atletas. Os jogadores são moedas de troca, ganha-se muito no compra-e-vende. Em uma, duas temporadas e tudo acabado. A garota ou o garoto não amadureceu, meteu um ‘qualquer’ no bolso e voltou para a mesma. Quem foi treinar lá fora e retornou para tentar viver do esporte aqui deve ter alguma patologia psíquica. Não planejamos, ou melhor, sequer compreendemos o conceito ‘planejar’.

O exemplo do Flamengo é hilário. No campeonato brasileiro de 2009, o meu time de coração levou cada sacode horroroso. Aí, lá pelas tantas, contratou um técnico conhecedor da bola, Andrade, que acabou logo com esse papo ridículo de três zagueiros. Pois, o Flamengo jogou bem, menos que um turno, e se sagrou campeão. Qualquer mente sã imaginaria uma progressão positiva. Ao contrário, em 2010, o Flamengo voltou ao que era antes do nosso eterno cabeça-de-área.

Ridículo… salário alto não implica em profissionalismo. Por aí vai, jogador de seleção brasileira, quanto mais se precisa do profissional para superar um momento difícil na partida, ele levanta a mãozinha pedindo para sair, se é que ele foi escalado, pois poderia ficar no antidoping. Ou abaixa para amarrar as chuteiras no momento exato do cruzamento adversário. Por outro lado, os clubes são geridos por máfias preocupadas em ganhar dinheiro rápido e fácil. Bem, os atletas aprendem a racionalizar tal lógica. O torcedor ama o time, o time mais a equipe técnica amam ‘se-dá-bem’. A camisa poderia levar o número em cifrão no meio aos nomes dos patrocinadores, certamente.

Por fim, aparecem os jornais e as TVs num lero-lero fiado dando voltas para morder o rabo. O atleta verdadeiramente profissional condena o sistema social autoritário que só se satisfaz com o domínio total sobre os zumbis. A prática do esporte é permitida desde que alguém seja o dono. O dono do passe, o dono da marca, o dono do clube, o dono da imagem, o dono do debate, etc. O cara ganha uma medalha de ouro e o ‘dono’ é o presidente em Brasília. Por acaso, algum comentarista entrou neste mérito da questão? Trouxemos uma visão mais cretina da escravidão com relação a isso e nos apegamos bem firme as idéias escrotas daí emanadas. Tudo se repete e os editores sabem disso. Sequer questionamos quando um patrocinador escolhe quem joga ou não. Cobrar uma postura independente, de quem?

Olimpíadas? Só se for para competir em ParTOBA com o Mundo Canibal. A Copa do Mundo será uma caixinha de incerteza. Quem viu as casas de lata na África do Sul? Fato é que não possuímos uma estrutura profissional esportiva e perdemos um provável centro formador de atletas, as redes públicas de educação básica. Nada indica um movimento contrário. Nossos problemas sociais podem também encontrar um lugar debaixo do tapete vermelho. A prática de esportes parece até com uma instituição imperial dentro da República: depende da família. As redes de comunicação em massa são esportivamente mais importantes que os treinadores. Dinheiro para obras eu acho que vai ter e coisa e tal…


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