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Há uma conspiração em curso contra a recuperação econômica européia. Os principais governos da região, impulsionados pela conservadora Alemanha, estão adotando cortes fiscais em série para, supostamente, acalmar os mercados em relação a sua solvência. O receituário aplicado virtualmente à força, na Grécia, está sendo adotado voluntariamente pela Espanha, Itália e Inglaterra, sem mencionar a própria Alemanha. Com isso, teremos, nos principais paises europeus, o agravamento de uma crise de demanda e de investimento superposta à crise financeira global.

O fato é que a Europa se encontra numa rígida armadilha ideológica que a impede de coordenar uma saída comum para a crise. O domínio quase absoluto, durante mais de três décadas, do pensamento liberal-ortodoxo em economia não dá margem a alternativas pragmáticas – como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos e em parte no Brasil. As principais instituições européias ou dominadas pelos europeus, como OCDE e FMI, todas capturadas pelo “mercado”, não conseguem ver além do receituário convencional que criaram para enfrentar crises isoladas.

Contudo, estamos diante de uma crise global, que afeta principalmente os países industrializados avançados, mas não só eles. A demanda mundial se contraiu. O comércio internacional caiu 12,2% em 2009, em volume, e cerca de 25% em valor. Este ano está se recuperando vagarosamente, mas num ritmo ainda aquém do nível de 2007. Nesse contexto, o receituário ortodoxo de combate a crises do FMI não tem como funcionar. Ele só funciona quando um país ou uma pequena região estão em crise, e o resto do mundo vai bem. É justamente o que não acontece hoje.

Fazendo abstração das nefastas conseqüências sociais e políticas do receituário típico do FMI, ele de fato pode funcionar, no espaço estritamente econômico, no sentido de que as restrições fiscais e monetárias que impõe reduzem o potencial de demanda interna e liberam bens e serviços para exportação, restaurando o equilíbrio externo e fiscal da economia. Contudo, é óbvio que, do outro lado, deve haver alguém com disposição de comprar. Do contrário, a redução do consumo interno não tem contrapartida no aumento da demanda externa, e o efeito será uma contração geral .

Não creio que o mundo esteja disposto a aumentar as compras de bens e serviços gregos, espanhóis, italianos, portugueses e ingleses, só porque os respectivos governos decidiram adotar profundos cortes fiscais a fim de reduzir o consumo interno. A Ásia é a única região do mundo que continua a ampliar suas importações, com o crescimento de  China e Índia ultrapassando 8% este ano. Entretanto, seu interesse maior é importar matérias primas, do Brasil inclusive, e não manufaturados de média e alta tecnologia europeus.

A retomada do crescimento europeu é altamente dependente do desempenho da economia norte-americana, e vice-versa.  A retomada norte-americana, por sua vez, dependerá também da reestruturação do sistema bancário, cujos empréstimos se contraíram 7,5% no ano passado e seguem estreitos este ano, sobretudo para pequenas e médias empresas – as quais geraram nada menos que 64% do emprego novo nos EUA nos últimos 15 anos, mas perderam 5 milhões desde a eclosão da crise. Não existe indicação de sustentabilidade para o crescimento que se esboça este ano.

O Governo Obama certamente fez um esforço considerável para reverter a crise, junto com a China: os dois países adotaram programas de estímulo fiscal da ordem, respectivamente, de mais de 700 bilhões e mais de 500 bilhões de dólares. A Europa, contudo, e principalmente a Alemanha se comportaram como vizinhos oportunistas: estão tentando surfar na onda de retomada criada pelos outros. Foram muito prestos em salvar o sistema bancário e financeiro com empréstimos bilionários, mas resistem, e agora de fato reverteram, as políticas fiscais de estímulo.

O mais dramático é que existe uma espécie de consenso europeu em torno de medidas fiscais restritivas para “acalmar” os mercados. É puro suicídio. É uma leitura equívoca da natureza da crise. O mundo está diante de uma crise financeira que se tornou crise fiscal e crise de demanda, e não de uma crise fiscal que se tornou crise financeira. Antes da crise, todos os países da área do euro, fora a Grécia, vinham reduzindo seus déficits e suas dívidas públicas. Não houve nenhuma evidência de farra fiscal nessa área. O que houve foi o forte impacto fiscal do socorro aos bancos.

Sob a pragmática liderança norte-americana, é possível que a Europa aceite o que virá a ser um grande programa fiscal keynesiano, como única forma de salvar a economia mundial. Os ortodoxos costumavam descartar a política ancicíclica de tipo keynesiano pelo fato de os estímulos fiscais, numa economia aberta, poderem vazar para fora do país, reduzindo o efeito multiplicador da demanda e do investimento. Pois bem, chegamos a um ponto em que a economia mundial é uma só. Se houver coordenação das políticas, os vazamentos recíprocos se compensarão.

Em termos práticos, como se aplicaria uma política keynesiana em escala planetária para reverter a atual crise? Seria o exato oposto do que se vem fazendo na Grécia, na área do euro e na Inglaterra. Teria que se ampliar o gasto público para aumentar o consumo e o investimento, independentemente da situação fiscal inicial, até o momento em que se chegue às vizinhanças do pleno emprego. Só daí em diante se buscaria uma política de equilíbrio orçamentário. Para ampliar o gasto público sem cair na chantagem do “mercado”, os bancos centrais adquiririam títulos públicos na escala necessária para acomodar o déficit. (Na verdade, o BCE já está adquirindo!)

Não haverá qualquer razão para que da expansão monetária resultem pressões inflacionárias. Há deflação na área do euro, e o desemprego é tão elevado, na faixa superior a 10%, que existe inequívoca capacidade ociosa na economia. A retomada da demanda induzirá a retomada do investimento, e ambos animarão o emprego e o comércio exterior. É uma solução relativamente sem dor, pelo menos daqui para a frente, para a maior crise do capitalismo em todos os tempos.


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