Políticas de Saúde 04/06/2010
Legião dos mutilados
A crise da saúde pública no Rio de Janeiro tem sido a principal preocupação da população. Dez anos atrás, atendendo a denúncia feita por nós e pela Sociedade de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro (SBACV/RJ), o Ministério Público Estadual reuniu as três esferas de governo e, na ocasião, as autoridades assinaram um termo de ajuste de conduta (TAC) exigindo que fossem adotadas políticas públicas visando reduzir o grande número de amputações. Como não temos unidades especializadas em número suficiente no Rio de Janeiro e há um grande deserto nessa especialidade, principalmente na Zona Oeste e Baixada Fluminense, os pacientes perdem a oportunidade de fazer o tratamento, o que contribui para o agravamento de sua saúde, levando a um grande número de amputações que poderiam ser evitadas.
Por mais incrível que pareça, é esse poder público o principal responsável pela constituição do que chamamos de “legião dos mutilados”. Cidadãos que em muitos casos, no auge de suas vidas laborativas, se tornam incapazes em decorrência da perda de parte do seu corpo. O curioso é que esse mesmo poder público joga os pacientes numa condição de vida mais sofrida, sobrecarregando ainda os cofres da Previdência Social. O ideal seria estabelecer políticas públicas que pudessem evitar tantas mutilações, assim como é feito com os pacientes da rede da saúde privada, que utiliza os procedimentos necessários e, em tempo hábil, para evitar que as amputações sejam a única saída para salvar os pacientes.
Os números são aterradores. No último encontro da SBACV/RJ, realizado em março último, foi apresentado um trabalho que revela a contundência dos números. Nos hospitais públicos existentes no município do Rio de Janeiro foram contabilizados, no ano de 2008, 914 amputações, sendo que desse total, no mês de janeiro, foram 31. Em 2009, o total foi de 935 amputações, com destaques para o mês de janeiro, com 71 ocorrências. Como o estudo, em 2010, contabilizou apenas o mês de janeiro, foram apuradas 84 amputações. Percebemos uma tendência crescente desses procedimentos e quando estabelecemos a proporcionalidade com as demais cirurgias vasculares realizadas, chegamos ao incrível percentual médio de 40%, ou seja, de cada 100 cirurgias vasculares realizadas, em média, 40 são amputações.
O que mais impressiona é que em um levantamento similar realizado em maio de 2000, ou seja, há 10 anos, registrávamos que vivíamos um quadro similar, o que demonstra que durante todo esse período, o poder público foi omisso e insensível ao problema, embora tenhamos especialistas de elevado nível profissional. O que nos deixa mais indignados é saber que em épocas passadas, quando vivíamos fases de melhor atendimento, este percentual não ultrapassava os 10%. Outra demonstração do abandono do poder público a estes pacientes verifica-se na dispensação de próteses para a sua reabilitação. Menos de 10% conseguem ter acesso a esse atendimento.
Ao longo dos últimos anos, temos reivindicado a criação do Instituto de Doenças Vasculares, local onde seria tratada a imensa maioria dos casos de menor complexidade, deixando para os demais hospitais as cirurgias de maior porte. O que nos indigna é a falta de resposta a esse pleito. Não havendo a ação preventiva e curativa de governo, o que sobra é o número crescente de mutilações. É como se vivêssemos num verdadeiro campo minado. Na verdade, não é só uma parte do corpo que se perde. Cada paciente dessa legião perde também a sua cidadania. Até quando?