Ética 26/05/2010
A gente só ouve “saúde” quando espirra
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No desespero me “lembro da história e do que ela ensina: os piores criminosos, os piores tiranos um dia caem”. Com essa frase, Gandhi retomava a esperança e alimentava o espírito no tempo do jejum voluntário e suicida.
O destino da Índia mudou com o martírio do Mahatma, na vida e na morte.
As vezes me socorro da história, não raro busco imagens na memória, do passado recente procuro lições. Vejo-me, por exemplo, nos idos de 1978, empolgado na direção de um “fusquinha de som”. Além de motorista era o operador, o redator, o locutor e etc. O microfone, antigo e pesado, preso pelo rosto ao ombro e o sonho na oração: contra a ditadura; contra a corrupção, pela constituinte e saía danado nas ruas do Recife prolatando minha indignação. Como Gandhi, acreditava nas mudanças.
A Constituinte veio e com ela a Constituição Cidadã: “Todos são iguais perante a Lei”. Por isso “é proibido, tanto ao rico quanto ao pobre, dormir embaixo das pontes e furtar um pão”. É preciso, portanto, mudar o destino da prática política, racionalizar a divisão de riqueza. A Lei só estabelece os princípios, porém a vigência esbarra nas vicissitudes.
Aqui em Pernambuco, a Prefeitura da Cidade do Recife entra no terceiro mandato do PT. Nove anos de operários no poder. Entra João, sai João e mantém-se a situação: “Pedro pedreiro penseiro esperando o trem/ Manhã parece, carece de esperar também…”.
O Governo do Estado é socialista “e a mulher de Pedro tá esperando um filho pra esperar também”. Os hospitais públicos estão no caos. Na Maternidade da Encruzilhada cultivam-se inúmeros criatórios de Dengue, só para começar. Na Barros Lima, a cria é o seqüestrador. No Barão de Lucena só não tem barão.
A partir do Hospital da Restauração, 490 empregos, em ano eleitoral, serão dados – sem concurso – para resgatar a rede pública de saúde. Nenhum deles é para médico. Além disso, resolveram destruir as barraquinhas. Tem gente que há quase 30 anos vive dali e o salvador resolveu destruir.
É isso mesmo. Entre o palanque e o palácio existe um fosso intransponível. Muda a Lei, muda o Regime, muda o Rei. Só não muda a cama que escolherei.
Quem pode acreditar nas promessas? Aumentou a população eleitoral. Analfabeto vota. Escreveu não leu, o pau comeu.
Os preços nas compras públicas superam o mercado comum sempre. É que o fornecedor inclui a inadimplência e o risco certo dos atrasos. A barraquinha dos hospitais só faz negócio porque o restaurante não funciona, não atende, não agrada. É a prevalência da livre escolha.
O flanelinha do sinal agora é o frutinha. Caju tem o ano inteiro, caqui só havia em São Paulo, Rio de Janeiro. Manga espada, manga rosa, jabuticaba e pinha suculenta, doce. Jambo do Pará, pipoca novinha. Água de beber. Mas tem, também, o assaltante com revólver ou com faquinha.
O que causa espécie é esse conjunto Prefeito-Governador para tanger o barraqueiro camelô. A quebra das feiras italianas, da Roma Antiga, volta com horror. Enquanto isso no hospital falta Doutor.
O perigo não mora nas calçadas. Ivone, a mulatona da faxina, passou na memória cantarolando: “se essa rua, se essa rua fosse minha…”. E agora, Lula? Psiu! Cuidado com a multa.