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Oportuno é o pensamento do meu amigo, professor orientador e saudoso vascaíno René Armand Dreifuss nas discussões propostas aqui no blog. Interessante, há quase dez anos estou para expressar o que agora dou início. Certamente, foi o tempo em maturação de algo então vivido e perpasso a descrevê-lo ainda sem maiores definições. Para isso, gostaria de problematizar um tema tomando como referência minhas longas conversas com René. O nosso café com bolo de nozes ouvia ao longo das horas assuntos econômicos, políticos, militares e culturais. Entretanto, sempre debatíamos questões epistemológicas pelo fundo dos fatos e fenômenos contidos em minha dissertação de mestrado sobre o Fórum Econômico Mundial e nas pesquisas sistematizadas em parte hoje no livro dele Transformações: Matrizes do Século XXI. Seja o nosso tema a crise de subjetividade.

Em meio ao trabalho empírico de Transformações, René desenvolvia uma abordagem cognitiva em textos verdadeiramente estimulantes. Lembro que pela primeira vez conheci a expressão ‘materialização da metafísica’. Objetividades e subjetividades recebiam cortes e continuidades específicas. Para ele, a visão do conhecimento merecia profundidade e lateralidade a fim de interpretar melhor a realidade e assim conceber conceitos mais justos. A ‘jornada da alma’ compreendia desde a interação com o Universo até, em contra partida, a tradução do Espírito em Matéria (há um pouco de Ibn Sina aqui). René tinha uma formação enciclopédica. Nesse sentido, tal viagem lhe era fácil. Esses textos versavam sobre outras tantas implicações subjetivas e lendo-os propus duas outras dimensões do pensamento ao meu professor: velocidade e complexidade. Graças ao René, com a sua generosidade característica, eu era provocado a perceber quantas variáveis necessárias à descrição do pensar fossem possíveis e, por negação, impossíveis também, porém realizáveis. Olhávamos para a Internet, líamos os novos pensadores, observávamos linguagens e costumes recém-surgidos, esse era o tom das suas aulas. Foi aí que eu vi o caminho a ser feito pelo próprio caminhante. O a-ser-feito dependia diretamente do a-ser-imaginado. Além disso, óbvio, somos um eterno devir. A crise de subjetividade surge quando sequer percebemos o atropelamento histórico dos fatos. Se é que os fatos são vistos.

Vejo inúmeras elaborações geopolíticas e militares com cálculos baseados no número de ogivas nucleares que cada ator possui. Quem se sobrepõe a quem, correlações de influência, pressões diplomáticas, etc., por intelectuais responsáveis e escolas importantes, alimentando jornais, revistas, palestras e conferências. Bem, a partir do nosso tema problematizado, eu posso interpolar pelo uso de um novo tipo de arma de destruição em massa que não fosse atômica, química ou biológica. Muitos gritariam: _“Impossível!!!” Eu diria – realizável.

Outro exemplo curioso de crise subjetiva, eu vejo na teoria econômica contemporânea quando esta se paralisa diante da esclerose da oferta e do colapso da demanda. Simplesmente, os nossos teóricos, sobretudo os neoliberais, pedem para ignorarmos os fatos. Os fatos mentem e verdadeiro é somente o comprometimento ideológico com o sistema capitalista. Por isso, exigem regimes ditatoriais para materializar suas idéias iníquas. Podemos pensar a criação e a distribuição de riquezas sem destruir a Humanidade e o Planeta. Aliás, já imaginamos um mundo assim.

Sempre me proponho a analisar desdobramentos, conexões, interações e movimentos, às vezes, apenas tendências. Gostaria de dizer aos leitores de Rumos do Brasil que devo o meu olhar científico ao Professor Doutor Dreifuss. Aprendi com ele a conjugar as dimensões cognitivas, tanto as que temos quanto as que buscamos. A nossa comunicação era interrompida só por uns instantes, propositalmente, quando eu começava a falar do Flamengo. Aí ele dizia que eu estava falando besteira. Engraçado, para mim, o Mengão provoca crises de subjetividade, em particular, na torcida contrária. Eu queria explicar para ele isso…


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