Reagindo à Crise Mundial 03/05/2010
A tragédia grega
A característica central da tragédia grega é que os destinos individuais das personagens estão inelutavelmente subordinados a paixões incontroláveis ou à vontade caprichosa dos deuses. Os modernos gregos, que estão escrevendo um roteiro que acabará por se impor, como um padrão, a grande parte da Europa, também se encontram na situação da tragédia clássica. Não podem, mesmo se quiserem, mudar seus destinos individuais diante das forças impessoais do mercado, da especulação financeira desenfreada e da vontade superior da ortodoxia econômica, sacralizada no Tratado de Maastricht e no Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Esses dois tratados estabeleceram a camisa de força da política econômica européia, separando o banco central comum e “independente”, o BCE, dos tesouros nacionais, e impondo limites estritos ao endividamento público mesmo em tempos de recessão profunda, como agora. Com isso, países que se endividaram muito em resposta à crise mundial para proteger o mercado financeiro, como a Grécia, estão sendo forçados pela especulação financeira a fazer um tremendo esforço fiscal, na forma de corte de gastos públicos e elevação de impostos, para pagar justamente os mesmos especuladores cujos lucros salvaram.
Por mais patético que pareça, todo esse esforço será inútil. O receituário do FMI aplicado à Grécia em comum acordo com a Comissão Européia e o BCE terá menos eficácia que um placebo. Os senhores da alta finança se esqueceram de que, independentemente de custos sociais, ele só funciona quando aplicado a um país em crise financeira no meio de um mundo em prosperidade, ou pelo menos sem crise. Sua lógica se baseia em reduzir a demanda interna para gerar excedentes exportáveis com que pagar os custos da dívida externa. Numa situação de virtual bancarrota do comércio mundial, não adianta cortar a demanda interna, pois os outros países também estão em crise e não querem comprar os excedentes oferecidos.
Em 2009, o comércio mundial contraiu-se 11% em volume e 25% em valor. Foi uma queda similar ao início da Grande Depressão. Atualmente, quase dois anos depois da eclosão da crise, os principais países altamente industrializados do ocidente e o Japão continuam em recessão, ou em contração. As duas grandes economias que crescem forte no mundo são a China e a Índia. Obviamente estes países, que representam um PIB conjunto de pouco mais de 5 trilhões de dólares, não podem puxar simultaneamente Estados Unidos, União Européia e Japão, que somam quase 35 trilhões. Além disso, o apetite importador chinês está mais voltado para commodities minerais e agrícolas do que para manufaturados gregos.
Diante disso, a forte deflação a que a Grécia será forçada pelo programa misto FMI/Comissão Européia não lhe possibilitará aumentar significativamente suas vendas externas. A conseqüência será a queda do produto e da receita pública, por falta também de demanda doméstica, deprimida pela redução dos salários e dos gastos públicos, agravando de forma recorrente a relação dívida/PIB. Uma espiral deflacionária vai se desenvolver até o inevitável: a declaração de insolvência (moratória formal) e a reestruturação unilateral da dívida pública, como fez a Argentina de Kirchner. Será a Nêmesis do interesse público finalmente se rebelando contra a Híbris dos mercados conduzidos pela arrogância e pela avareza!
Como Medéia, que mata os próprios filhos por força de uma paixão desenfreada, o governo grego, supostamente socialista, sacrifica sua própria sociedade para atender ao mercado. Porém, a culpa não é apenas dele. É de toda a União Européia neoliberal, cujos membros renunciaram à soberania em favor dos mercados e das agências de rating privadas. São estas, em última instância, que julgam as políticas econômicas dos países do euro e exigem delas correções de rumo. Se não obedecerem, não terão crédito privado. Como os próprios tratados impedem que o BCE aja no sentido de restaurar-se esse crédito, não há escapatória a não ser ceder. É certo que Portugal, Espanha, Irlanda e Itália, na zona do euro, seguirão de forma inexorável o mesmo caminho. Fora da zona do euro, será o caminho também da endividada Inglaterra. Trata-se, sim, da Nêmesis neoliberal, em escala européia.
