Há momentos, quando estamos presos historicamente a racionalidades técnicas e a razões funcionais, do sonho transcendental. Em particular, existem também os delírios psicotrópicos. Contudo, viajamos além de uma circunscrição subjetiva através de figuras oníricas. Fundamos religiões depois de um sonho revelador. No Oriente, sobretudo em língua árabe, é a projeção de uma nova Humanidade. Os chineses têm a obra fundamental Dao ‘Sonho da Borboleta’. Einstein acordou para escrever a Teoria da Relatividade. Assim também, por um sonho, Charles Dodgson concebeu e publicou em 1865, sob o pseudônimo de Lewis Carroll, a estória de Alice no País das Maravilhas. Pena, é comum para os ocidentais que as coisas boas da alma tomem outros destinos.
Durante um acaso preguiçoso, o espaço-tempo dorme e a curiosidade infantil desperta para encontrar outro mundo, caindo, buraco ou toca, extraordinário. O que é ordinário já não nutre o humano escravizado de cada um. Minimizados para a passagem, afogamos em lágrimas as nossas incertezas. Não somos comedidos, por isso não sabemos cuidar de lugar nenhum. Vide o Planeta Terra. No primeiro capítulo de Alice, morrem a lógica e a geometria elaboradas pela sociedade burguesa em plena expansão colonialista. Século XIX, a racionalidade capitalista dominava os povos na forma de novos mercados e um livro tido para crianças subvertia a filosofia de rapina inglesa. When logic and proportion have fallen sloppy dead…
A maneira encontrada para não levar adiante uma crítica séria e inteligente ao livro de Carrol foi dizer que o texto era de difícil compreensão. O conteúdo ingrato causava abordagens educadas, porém de parvas considerações. ‘Alice no País das Maravilhas’ está para o Pensamento assim como Leaves of Grass está para a Poesia (aqui, tento agradar às relações matemáticas de proporção e à Literatura de língua inglesa). Não conheço uma leitura interessante de Alice até a Contra-Cultura. Só então, com a popularização de determinadas substâncias estupefacientes, foi que alguém agraciado sacou a da lagarta sobre os cogumelos fumaçando um shisha. _“Pô, o clássico do Disney tava maneiro mermu”!
O filme de Tim Burton que começou a rolar por aí é outro lance. Ele estragou o colorido do barato. Com tons mórbidos, a estória contada nada se parece com a concepção de Lewis Carroll, exceto pelo nome dos personagens. A Alice com 19 aninhos é muito bonitinha, mas o nome do diretor deveria constar nas iniciais do filme: Tim Burton’s Alice in Wonderland seria mais adequado. A trilha sonora prometida, com os australianos do Wolfmother e os hippongas da Grace Potter and The Nocturnals, deve ser só para quem gastar mais um no CD. Fica o clima de tensão e choque musical permanente, aliás, quem conduz o filme além dos ‘cinzas e sombras’ é a galera da orquestração. A catarse pelo barulho chato vai levando a trama estilo conto de fada, rainha boa versus rainha má resolvido pela menina que empresta a graça ao elenco. Podia ser original… O mal gosto requintado do diretor questiona até as técnicas de animação. Tá mais pra jogo de RPG do que pra longa. O final: Alice quebra os protocolos aristocráticos numa atitude rebelde para se transformar em representante comercial dos interesses britânicos na China. O bagulho é reaça. Imagina isso em 3D nos cérebros pouco resistentes das crianças? Cara, milhões de dólares nisso? Se Hollywood comprasse tudo em pirulito e distribuísse no próximo 27 de setembro seria mais emocionante, mais fiel a obra de Charles Dodgson, pelo menos em termos de inteligência.