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“Saudade, palavra doce que traduz tanto amargor/ Saudade é como se fosse/ espinho cheirando a flor”. Desde cedo, muito cedo ainda, o vocábulo me chamava especial atenção. Cada marchinha, cada canção entrava de corpo adentro, gerando comoção. “Saudade é coisa que dói na gente”. Doía em mim.

Fiquei entre curioso e pleno de vaidade quando ouvi dizer que o substantivo era a síntese de uma situação complexa, exclusiva da língua portuguesa. O idioma pátrio seria o único em que a melancolia sem remédio, a lembrança dolente, a nostalgia fluía, pronta e acabada, em uma única expressão.

No filme espanhol de Almodóvar, “Princesas”, composto na língua-irmã, a meretriz consola a companheira: você é feliz porque pode ter saudade. Só tem saudade quem viveu bons momentos.

De Aldemar Paiva: quem tem saudade não está sozinho/Tem o carinho da recordação/Por isso quando estou mais isolado/Estou bem acompanhado/Com você no coração.

Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas no triste episódio de 1964, perdeu o mandato de Deputado Federal e perambulou, inerte, Brasil afora até sucumbir à perseguição e cair nas mãos da polícia política.

No cárcere soube que a sua primeira filha, do segundo casamento, nascera enquanto empreendia a fuga – soube mais, dentro em breve ser-lhe-ia franqueada a primeira visita na cadeia. Na quarta-feira, que também é tema de músicas de Carnaval, teria em seus braços sua filha recém-nascida, cujo nome escolhido seria Isabela. Bom de pena, poeta na essência, Julião soltou lépido a mão e, após penar por papel e lápis, num fôlego só escreveu o clássico “Até Quarta Isabela”.

Na retomada da Abertura Democrática, na volta dos exilados, conheci o velho Chico. Nas ladeiras de Olinda, na frente do Centro Luiz Freire, recebi o meu primeiro exemplar do livrinho enxuto e denso, fácil e gostoso de ler. Recheado de lembranças amargas, mas cheio de esperança. Poético no amor do relato, numa saudade singular e numa situação que ainda não se dera, aguardou Isabela e guardou a saudade nos escritos.

Minha filha Mariana pariu na sexta-feira passada. No dia 17 de abril, Nana abriu meu peito e inseriu uma bonequinha de carne, que por enquanto apenas apareceu no visor do celular, ávida do colostro no aconchego do peito materno.

Em tempos de liberdade, meu amigo Chico é, hoje, “alguém que partiu, alguém que morreu, alguém que o coração não esqueceu”. Seu livro foi relançado post mortem pela família.

Não estou no cárcere. Não sou Deputado, não sou caça, não temo ser cassado. Isabela, porém, chega de longe. O cheiro de bebê mora, apenas, na minha saudade de pai. É prospecção de avô solitário e só. Como avô sou primíparo. Meu olhar pidão mira o movimento das marés. O domingo nublado maneja o mar. Uma lágrima doce acompanha o murmúrio das ondas e mareja os olhos antes de molhar a face.

Cheio de emoção, sigo a lição de Che: “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”. Espero até quarta como Chico. Pra mim, uma quarta incerta, um dia qualquer. Qualquer dia. Agora é real. Voltando ao frevo-canção: “Você existe como um anjo de bondade e me acompanha neste frevo de saudade… Quem tem saudade não está sozinho…” Até quarta, Isabela.


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