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A especulação não poderia ter ido tão longe se o sistema internacional não contasse com o lastro dos títulos do Tesouro americano: quanto mais volátil se torna a riqueza, quanto mais arriscadas as operações para aumentá-la, mais ela necessita de uma retaguarda segura. Por outro lado, esses títulos não seriam tão importantes se as demais expressões da riqueza não tivessem assumido formas tão inseguras. Denominados em dólar, eles garantem o papel especial da moeda americana no mundo, como moeda de reserva. Assim, globalização financeira e hegemonia dos Estados Unidos tornaram-se faces de um mesmo processo, combinando, como sempre, riqueza e poder.

Mas a financeirização promoveu transformações estruturais na própria economia americana, crescentemente dominada por um novo tipo de gestão de negócios, a gestão de ativos líquidos. Movimentando-se com desenvoltura no espaço dos mercados de capitais, manejando portfólios muito diversificados, os gestores dessas grandes massas de recursos alteraram o modo como a economia funciona, capturando e abandonando empresas, sucessivamente, conforme as expectativas de rentabilidade no curto prazo. O impacto disso sobre os desdobramentos da crise atual é tremendo.

Os acionistas controladores – frequentemente detendo uma quantidade ínfima de ações, por causa da pulverização – deixaram de ter vínculos de longo prazo com as empresas que controlavam, introduzindo óbvias deformações nos processos decisórios. As empresas passaram a ter estruturas de comando sempre transitórias, submetidas à tirania dos balanços trimestrais. Projetos de longa maturação passaram a ser sistematicamente adiados. O conceito de eficiência desvinculou-se de qualquer visão sistêmica e passou a se confundir com o preço das ações negociadas em bolsa, o qual definia a remuneração dos próprios gestores. Um pífio indicador transformado em fetiche.

Esse modelo de capitalismo, apresentado nos últimos anos como o supra-sumo da modernidade, está em crise terminal. Não sabemos qual é a sua capacidade de reformar-se e quais os custos envolvidos nesse processo. Impor a financeirização ao mundo, sob o nome de fantasia de globalização, foi um lance de gênio para perpetuar a hegemonia americana, mas transpor a lógica financeira para a condução da economia real foi um tiro no pé. As grandes empresas americanas foram exauridas, deixadas mambembes.

Soa patética a declaração de Jack Welch, ex-presidente da General Eletric, citado na semana passada por Clóvis Rossi: “A obsessão por lucros de curto prazo e por ganhos nos preços das ações foi uma ideia tola.” Faltou dizer que essa “ideia tola” criou um sistema, uma institucionalidade econômica difícil de ser desmontada. Em torno dela,  desenvolveu-se um saber esotérico que, apesar de mais jovem do que um bom uísque, passou a reivindicar a condição de uma ortodoxia consolidada. Os operadores financeiros apresentavam a opacidade das suas operações e a complexidade das suas teorias como provas de cientificidade. Não eram nada disso: quanto maior e mais instável um castelo de cartas, mais complexas são as tentativas de sustentá-lo. Até que, um dia, ele cai.

A riqueza ilusória está sendo queimada. Vem à luz a incrível sobreposição de endividamentos impagáveis. A sociedade toda empobrece. Como os Estados Unidos são o grande pólo da demanda efetiva mundial, o mundo também está encalacrado: nada será como antes, mas, havendo mudanças, tudo, por um bom tempo, pode ficar ainda pior.

Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de S. Paulo,  em 19 de março de 2009.


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