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A enxurrada carioca teve suas quinze horas de glória no dia 6 de abril de 2010. Admitindo-se que o PIB carioca represente 6% do PIB brasileiro, os prejuízos equivalem a, pelo menos, dois dias úteis de atividades, ou um bilhão de reais*.

Até que o próximo desastre urbano ocorra, as negociações sobre os bilhões de reais do governo federal a serem investidos na infra-estrutura das grandes metrópoles continuarão dominando os segmentos do espaço político reservado pela imprensa.

Os apoios, as coligações, as votações dos destaques e os ataques dos “sem palanque” nortearão os critérios de alocação do orçamento de 2011, a ser pilotado pelo próximo (ou próxima) presidente da república.

Nada será alocado para resolver os problemas recorrentes das grandes cidades no que respeita à ocupação desordenada e ao ab(uso) do solo urbano. Muito será “investido”, curiosamente, porém, sob a forma de gastos correntes, pois os contratos estarão associados a “serviços” de construção de equipamentos, a maioria deles supérfluos, sem articulação com as reais necessidades locais.

Como exemplo, temos: kartódromos, helipontos, pórticos e imagens de padroeiros, ou o equivalente a obeliscos e museus. Tudo regado a licitações fraudulentas, superfaturamentos e execução aprovada pelos “tribunais de faz de conta” regidos pelos vereadores (cidades do Rio e São Paulo) ou deputados indicados a partir das trocas de favores entre o Executivo e o Legislativo. Todos esperamos ver nos orçamentos municipais de 2011 a destinação de recursos para os investimentos em recuperação das áreas degradadas e de risco, em construção de redes de drenagem, de saneamento, relocalização das atividades residenciais, comerciais e industriais, na informatização dos cadastros do IPTU, na elaboração e aprovação de Planos Diretores, de Estruturação Urbana, de Redes Viárias, e outros instrumentos capazes de permitir o uso parcimonioso do solo urbano.

O Rio de Janeiro, a exemplo das demais grandes cidades, já teve suas melhores áreas urbanizadas com os tributos que todos pagam entregues por seus governantes para exploração pelo capital imobiliário, em troca do apoio financeiro às campanhas eleitorais.

As encostas e periferias não urbanizadas foram entregues sem qualquer titulação às populações carentes, em troca do apoio eleitoral à rede de políticos locais e suas ramificações estaduais e federal.

Entretanto, as águas que passaram pelo Rio de Janeiro neste início de abril de 2010 deixaram patente que os pobres perderam muito mais do que R$ 1 bilhão e que esta troca só foi favorável a quem lhes leiloou a cidade. Que a população aprenda a lição e passe a exigir do Executivo que os tributos por ela pagos sejam canalizados para a contenção das águas futuras.

Nota:

* Se o PIB brasileiro é cerca de R$ 3 trilhões e o PIB carioca representa 6% desse valor, então cada dia (1/360) de PIB carioca representa R$ 500 milhões.


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