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No forte movimento histórico atual de questionamento da visão eurocêntrica da história, a descoberta e o avanço das escavações arqueológicas em Caral, no Peru, ocupa um lugar excepcional. Até então se datava as primeiras civilizações americanas próximas a 3.200 anos atrás (1.200 antes de Cristo), com a admirável civilização Olmeca (na qual se encontra uma enorme escultura de um rosto com as características negroides sugerindo um contato pré-histórico entre a América e a África). As descobertas pré-históricas no Piauí, Brasil, indicavam, contudo uma presença demográfica importante na America do Sul. Outras descobertas no Peru reforçavam esta idéia de que talvez a America do Sul foi habitada antes da America do Norte, contrariando as teorias sobre o papel do estreito de Bhering como o canal da colonização asiática das Americas.

Caral se encontra nas costas do Pacifico peruano, num terraço desértico por cima do vale irrigado pelo rio Supe. O rio favorece os campos de cultivo em frente das montanhas da Cordilheira dos Andes. Seu desenho arquitetônico planejado atesta a existência de uma organização social complexa, de uma economia pesqueira, agrícola e manufatureira avançada, uma atividade religiosa, artística e cultural muito desenvolvida e uma acumulação extremamente importante dos conhecimentos necessários para produzir uma civilização.

É importante destacar, contudo que, apesar do aparente abandono e ocultamento destas construções, esta região é ainda um centro ritual dos indígenas. Nas palavras de Ruth Shady, arqueóloga peruana que dirige os trabalhos de estudo da região, e autora de um fantástico livro sobre Caral – La Primera Civilización de América (ilustrado magnificamente por Christopher Kleihege, fotografo norte-americano):

“Uma serie de redes de comunicação regional e inter-regional, ao longo da costa e com a selva e a selva andina, dinamizou o processo cultural, civilizador e promoveu seu desenvolvimento precoce, a partir de 3.000 antes de Cristo. Populações com diferentes modos de vida, experiências de adaptação, culturas e sistemas políticos participaram nestas esferas de contato. Mas a sociedade de Supe, colocada no centro deste território, com vantagens para a comunicação transversal, soube atrair em seu beneficio a produtividade das sociedades da área.”

“O prestigio alcançado pela civilização Caral marcou o processo cultural peruano: os famosos geoglifos de Narca têm seu antecedente em Caral, 3.300 anos antes; alguns elementos arquitetônicos, ícones e a escritura quipu foram usados pela sociedade de Lima, assim como pelo Império Inca, que também os assumiu 4.400 anos depois de Caral. Os Incas construíram edifícios com plataformas à base de grandes monólitos, como em Sacsaghuaman, com portas de dupla ombreira ou paredes ornamentadas com abóbodas, como já o havia feito a sociedade Caral milênios antes. Inclusive o idioma quéchua, vinculado pela pesquisa lingüística com o território onde teve sua presença a civilização Caral, foi a língua de relação mais extensa, usada desde então por distintas sociedades até o presente.”

“A civilização Caral transcendeu no tempo e influenciou diversas sociedades andinas com elementos culturais, padrões sociais e ideológicos. Alem da pluriculturalidade ou do multilinguismo que caracterizou o processo cultural do Peru, Caral foi a civilização compartida como substrato, o eixo que continua integrando as populações através do espaço e do tempo.”

É assim que Ruth Shady questiona os estudos de uma teoria das civilizações realmente universal como aspiramos construir em nossos dias ao apresentar um novo mapa do surgimento das civilizações humanas conhecidas até agora. Nele, Caral, com 5.000 anos de antiguidade, se junta à África, do Egito antigo, com 5.500 anos de antiguidade, próxima da Mesopotâmia, com 5.700 anos, a Índia com 4.500 anos, a China, com 3.900 anos e finalmente Creta, com 3 000 anos de antiguidade.

Este mapa mostra claramente o quanto temos que refazer nossas cabeças para pensar uma historia universal que nos conduza à idéia de uma civilização planetária.

Esta civilização será uma síntese multi-estatal, multinacional, multicultural, multi-ideologica do esforço heróico da humanidade para construir neste planeta uma só sociedade humana, com absoluto respeito à diversidade do ser humano, das formas de vida e da complexidade deste pequeno espaço do cosmos que ocupamos com orgulho de conquistadores. Frustrados pelas horripilâncias destrutivas que resultam de nossa ocupação da terra, preparamos, um novo tempo de valores universais que instaurem uma nova humanidade, criadora, sustentável, igualitária e justa, onde cada individuo herdará esta aventura civilizatória universal, sem romper com a força cultural  de suas origens comunitárias e locais. Este indivíduo será preparado, para criar, a partir desta acumulação colossal, as bases de um novo e constante desenvolvimento humano.

Um outro mundo é possível e necessário.

NOTA: Quem quiser conhecer mais do que Machu Pichu quando for ao Peru, além de varias outras riquezas arquitetônicas e arqueológicas do país, pode entrar em contato com a Proyecto Especial Arqueológico Caral-Supe/INC.


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