Nasci na antiga Guanabara que já não existe mais em termos políticos graças à ditadura militar. Aliás, o golpe militar arrebentou copiosamente a antiga capital federal. Transferiu para alhures pertinho o centro econômico e financeiro do país. A pauperização da cidade foi uma simples conseqüência disso. Depois de sucessivos governos criminosos e da favelização moral pela qual ainda passamos, vejo as ruas serem tomadas e exploradas por milícias, substituindo os velhos esquadrões da morte em violência e desrespeito. Acho que não me cabe romancear tempo futuro. Tampouco a estreiteza dos bairrismos. Até existem aqueles que vivem assim, cuja profissão é pintar um antes mais bonitinho e um depois sonhador, mas o carioca nunca foi nem sabe ser bairrista. Portanto, abro mão desse charme provinciano. Somos a cidade mais cosmopolita e também a mais anárquica (em todos os sentidos) do país. Isto sim incomoda alguns idiotas que, pela inépcia política do Rio de Janeiro, sentem prazer em dar continuidade à estupidez nº 64.
Volta e meia, falam em compensação pela transferência da capital para Brasília, que nunca houve e sequer haverá de fato. A dívida do Metrô, quem se lembra, era federal a título disso e foi subitamente jogada no BANERJ, um dia o quarto maior banco do país que outrora encampara o BEG. Hoje, o Rio não possui um banco estadual nem um metrô que preste. Contudo, tal dívida aqui ficou para ser paga pelo povo. A corja neoliberal quis assim também, beneficiando os banqueiros, lição aprendida lá na ditadura, e assim ficamos: deveras apreensivos quando falam em compensação econômica.
Certamente, o petróleo poderia resolver alguns problemas locais. O Estado do Rio é o maior produtor e a Cidade Maravilhosa em tese teria direito a certos benefícios pela produção na plataforma continental adjacente. Bem, o ar poluído da queima de combustível fóssil esse fica na cidade. O Estado do Rio (politicamente) é um retrocesso institucionalizado que estrangula a Guanabara. As lideranças fluminenses souberam realizar os propósitos dos militares. Laranja e sal se foram. O óleo e o gás são levados a qualquer parte do país isentos de impostos, a pior política fiscal só para o Rio. E, os tão festejados royalties chegam bem reduzidos, inclusive para os cariocas, como fundo reparador por possíveis danos ambientais (tomados como compensação também em certas rodas de jogatina e sexo do Planalto Central). É verdade, nossos bandidos políticos levaram ‘um qualquer’ e não nos defenderam. E o pré-sal? Vamos aproveitar a onda da energia limpa. O pouco que nos cai aqui na praia podemos usá-lo esteticamente. A colagem monetária final de um novo parangolé oiticicus. O Hélio ia gostar. Nosso dinheiro não é lá grande coisa mesmo… Aí é só desfilar. Todos estão convidados.
Em uma oportunidade anterior aqui no blog, defendi o uso da grana do petróleo pré-sal na nossa educação estética. Lembro de uma música da banda carioca Módulo 1000: turpe est sine crine caput. Pelo jeito, o ovo não sairá da cloaca penosa. Confesso que não me decepcionei. A educação fluminense (geograficamente, o Estado do Rio parece fagocitar a Guanabara) se tornou um reflexo subjetivo da política de segurança pública. Tenho dúvidas com relação à aptidão pedagógica dos aparelhos de repressão estatal. Proponho agora que a nossa miséria financie museus universais. Museu de tudo, em cada esquina um. No lugar de uma padaria, um museu do pão. No do cemitério, um museu do ser humano. Shopping Center, museu do valor. Escolas e igrejas, museus do amém. Pô, assim a gente chega lá, programa ‘Museu Brasil’, todos na categoria visitante-peça.
A Guanabara resistirá, pois dificilmente se tornará peça de museu, como qualquer político brasileiro que curte uns 10%. Se até hoje o ‘Berço do Mar’ não nos foi totalmente apagado dos corações, e haja militares, esquadrões da morte, milícias, extermínio, corrupção e abandono, não será um dinheirinho besta que surge destruindo o planeta o definidor de futuro para os cariocas. Vamos trocar os royalties por bronzeador e birita, com muito sol, samba e futebol. Digo isso pensando no time do Flamengo, na Praia da Macumba, no som do Jorge Ben, no chopp escuro e em todos aqueles que não nasceram aqui e são bem-vindos à mais bela fonte de energia orgone do sistema solar desde o Cenozóico, a Iguaá-Mbara. Taí, não tinha pensado nisso… Guanabara; aqui o feio fica bonito.