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Ilustração: www.sxc.hu

A crise norte-americana em curso deixará pelo caminho menos mortos do que se podia prever, mas certamente fará um defunto: o neoliberalismo. Deixado ao sabor auto-regulatório do mercado, o sistema financeiro mundial caminharia rapidamente para uma débâcle de proporções imprevisíveis, tal como na Grande Depressão dos anos 30. A sorte dos que sobreviverão é que as autoridades econômicas norte-americanas, depois do New Deal, só são neoliberais para efeito externo. Dentro de casa, são francamente intervencionistas. E elas, diante do império da realidade, recorrem simplesmente ao pragmatismo e acabam ditando as regras para o mundo.

Se tomarmos a liberação financeira de Reagan, em 80, como ponto de partida do vôo neoliberal – ou a grande revanche contra o intervencionismo do New Deal, que se aplicou por 50 anos -, encontramos pelo caminho três momentos de teste do novo sistema, até o atual: a crise da dívida externa do Terceiro Mundo, a crise do mercado de poupança e empréstimo norte-americano em grande parte da década, e a crise da bolsa em 87. Nos anos seguintes houve várias turbulências, sobretudo nos paises emergentes, mas nada que ameaçasse o centro do sistema. Em contrapartida, o centro do sistema, no que tinha de melhor de sua retórica neoliberal, ficou impassível.

Essa passividade tinha razões pragmáticas bem sólidas, em ambos os casos. A crise da dívida externa do Terceiro Mundo, que em primeira mão expunha a altos riscos grandes bancos norte-americanos, foi “resolvida” mediante um ajuste assistido dos países devedores, sob o comando do FMI. Ninguém quebrou. O máximo que as autoridades norte-americanas tiveram de fazer foi coordenar alguns empréstimos-ponte e tolerar  mudanças nas regras contábeis dos bancos para acobertar o refinanciamento de alguns empréstimos. Tudo muito neoliberal! É verdade: o Continental Illinois quebrou. Acontece que ele não tinha grande exposição externa.

A crise do sistema de poupança e empréstimo foi resolvida mediante grandes operações de fusão e incorporação de instituições virtualmente quebradas, também com assistência discreta do FED. Houve perdas, mas controladas. Não chegou a caracterizar-se como ameaça de uma crise sistêmica, tendo em vista o caráter segmentado do setor. Basicamente, ele carregava créditos a taxas de juros muito baixas em comparação às taxas que tinham de ser pagas no seu refinanciamento. A crise podia ser encarada como uma freada de arrumação no sentido da adaptação a taxas reais de juros mais elevadas, impostas no início da década.

A crise da bolsa em 87, a maior desde a Grande Depressão, queimou algo como dois trilhões de dólares de valor das ações, mas não afetou profundamente os bancos. Além disso, quem perdeu na especulação era suficientemente rico, como classe afluente, para agüentar perdas relativas. Claro que deixou seqüelas. Entretanto, não numa dimensão que levasse a uma revisão da dogmática neoliberal. Houve intervenções governamentais e do FED, porém numa escala tolerada (ou ao menos racionalizada) pelos cultores da liberação total dos mercados. Afinal, o papel do FED é de emprestador de último recurso, e o exercício desse papel não fere a cartilha.

Vejamos agora. Não temos uma crise de bolsa que atinge bancos, mas uma crise de bancos que atinge bolsas. Até que ponto isso é sistêmico? Pelo que se viu em 87, é perfeitamente possível que uma grande crise de bolsa afete apenas marginalmente o sistema bancário. E pelo que se viu na crise da dívida externa, é também possível que uma grande crise que atinge bancos não atinja simultaneamente as bolsas. Tudo depende, porém, para usar a palavra da moda, do “descolamento” entre um mercado e outro. Mas quem descola, nos EUA, é o Governo e o FED.

No caso da crise da dívida externa o sistema se salvou, salvando a cara do neoliberalismo, porque, enquanto devedores, desempenhamos o papel do cavalo do bandido nos ajustando ao dogma liberal de forma a criar uma expectativa de pagamento dos extorsivos juros externos à custa do desemprego interno, da queda da renda do trabalho e do início de nosso sistema de financeirização da economia. Os bancos norte-americanos não quebraram porque, através dos bons ofícios do FMI, do Banco Mundial e do Tesouro dos EUA, nos mantiveram vivos como se fôssemos zumbis, impedidos de declarar moratória, e comprometidos a pagar a qualquer custo.

E agora? Como não existe um FMI para regular o pagamento de hipotecas no mercado subprime, quem tem que fazer o trabalho sujo é o próprio FED. E ele o está fazendo magistralmente, porém sem o tipo de dor que nos foi imposto na crise da dívida (lá o interesse público fala mais alto): reduz os juros básicos, estende crédito, facilita aquisições de bancos falidos mediante processos pouco ortodoxos, dá sinais a torto e a direito que fará tudo para impedir uma débâcle geral do sistema. Diante disso, o neoliberalismo – a idéia de um mercado auto-regulado, que dispensa a participação de um regulador e fiscalizador externo, ou melhor, que dispensa governo – já não pode ser o pretendido ente de razão para governar as economias globalizadas.

Claro, isso não está sendo ainda muito percebido pelos mercados. Alguns captaram os indícios. Acabo de ler um artigo no “Financial Times” segundo o qual, qualquer que seja o resultado da crise, e qualquer que seja sua profundidade, não se deve recuar de forma alguma dos princípios de liberalidade, auto-regulação e flexibilidade dos mercados. Ou seja, afunda-se com o dogma. A salvação geral é que os pragmáticos norte-americanos, na hora do aperto, mandam às favas os princípios, como Galbraith costumava dizer com sua fina ironia.

Qual a lição que devemos tirar desde logo dessa crise, quaisquer que sejam suas conseqüências? Diante do que já se apresenta como a segunda morte do liberalismo (a primeira foi nos anos 30), devemos, simplesmente, imitar Getúlio e olhar para dentro, de forma tão pragmática quanto a norte-americana. Orientar a política econômica segundo nossos interesses reais, os interesses da maioria da nossa população, os interesses do crescimento a altas taxas, os interesses de uma melhor distribuição de renda, os interesses da promoção do pleno emprego. E deixarmos essa mania de nos  comportarmos como vitrina de especuladores, como se estivéssemos à venda numa prateleira mundial.

Vejam como está se decompondo um dos fetiches do capitalismo “auto-regulado”, as agências de classificação de risco. Apresentavam-se como uma espécie de leiloeiro das preferências especulativas, um guardião das chamadas expectativas do mercado, e ganharam aqui status de juízes da condução de nossa economia. Pois onde estavam elas quando se tratou do mercado subprime norte-americano? No melhor estilo colonialista, decidiram, por exemplo, que, para merecermos a confinaça do mundo, temos de reduzir nossa relação dívida/PIB e fazer déficit nominal zero, independentemente de quaisquer outras condições internas. Que charlatanismo!

Diante dessa arrogância, é no mínimo curioso ler a primeira de quatro recomendações de Ben Bernanke, o presidente do FED norte-americano, depois de anunciar uma linha de crédito de 200 bilhões de dólares para os bancos, como princípio de condução das futuras operações do sistema bancário do pais depois da crise. É uma verdadeira pérola tirada do receituário do conselheiro Acácio: “os bancos devem, de agora em diante, emprestar apenas aos que podem pagar!” E são esses caras que vão dizer se temos ou não uma política econômica digna de grau de investimento?


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