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O imortal José Mindlin morreu. Deixou, no entanto, uma história bonita. Para minha surpresa, a mídia contou-a e recontou-a, no decorrer do velório. Quando eu era menino, adolescente, jovem, uma coisa me comprazia: ouvir alguém dizer “seu pai é um homem honesto”. Saía vaidoso, estalando os dedos para acompanhar a música que isso dava aos meus ouvidos.

Pois bem, Mindlin morreu. No testamento, ficou o benefício que se estende ao país inteiro: a doação de sua biblioteca à Universidade de São Paulo, que engloba a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, criada em 1827, junto com a nossa, da Praça Adolfo Cirne.

Parece que a doação não foi pacífica. Ele insistiu várias vezes até a Universidade aceitar a dádiva incomum. Aliás, a especialidade passa inclusive pelo acervo e sua riqueza bibliográfica. Juntou oitenta anos, livro por livro e, certamente, alguns milênios repousam na história que a biblioteca encerra. E, mesmo assim, foi difícil convencer as autoridades do benefício da recepção. Que coisa!

Apesar de ser advogado de formação, empresário bem sucedido, membro da Academia Brasileira de Letras, o bibliófilo não era famoso como muitos cantores de rock, boxers, jogadores de futebol e até algumas cafetinas e seus respectivos filhos. Na época da ditadura, passou por um cargo público importante do Governo de São Paulo. Quando os porões começaram a fabricar mortos, ele renunciou à Secretaria de Cultura. Talvez por isso só em 2006 tenha tido acesso à Academia Brasileira de Letras, aos 92 anos de idade.

Muita gente importante foi ouvida pelos noticiários, de rádio, TV e jornal. Uma coisa me chamou atenção: vários disseram “Ele era um homem honesto”. A imagem de um Mindlin já macróbio, de voz trêmula e rouca, passeou nas telas. Isso não impediu, todavia, a percepção da prevalência dos sonhos. William Shakespeare junto com Miguel de Cervantes e Machado de Assis moravam no mesmo endereço que ele, certamente. Insistiu na doação, previu a digitalização dos livros, numa divulgação bem mais ampla. Em síntese, transformou o sonho pessoal em realidade material e benfazeja. Como disse Shakespeare em tempos idos: “a vida é feita da matéria dos sonhos, a tênue matéria dos sonhos”.

Sempre vivi de sonhos: me formar; ter filhos sadios; educá-los; vê-los crescer. Sonhei com a Constituinte e os Direitos Humanos consagrados na Carta. Eleições Diretas para tudo. Pobre tratado com dignidade, sem fome. Democracia política; com o fim do FMI; um presidente da gente, vindo do meio do povo. Hoje, assustado, lembro de Rui e sua “vergonha de ser honesto”. De Ascenso Ferreira e o poema do gaúcho: “Riscando os cavalos! Tinindo as esporas! Través das cochilhas! Sai de meus pagos em louca arrancada! — Para que? — Pra nada!”.

A gente morre. O sonho permanece. A vida é feita da matéria dos sonhos.


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