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Um tipo de questionamento pelo qual muitos de nós (comunistas, socialistas, pessoas de esquerda…) passamos rotineiramente é: “Mas se você não defende a privatização, concorda então com o modo corrupto como é dirigida aquela empresa pública?” Decorre de uma lógica predominante onde algo ou é privado, ou é público, no sentido de ser dirigido pelo [...]

Endereço: http://www.rumosdobrasil.org.br/2010/02/25/publico-x-privado-a-falsa-dicotomia/


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9 comentários

  1. Bruno Dutra
    25/02/2010
    23:22

    Lembrei-me de um livro de um caríssimo professor Marco Antonio Silveira (O Universo do Indistinto), onde ele aborda a questão da falta de privacidade nas cidades mineiras no setecentos. Nesse trabalho, Marco Antonio deixa claro que a proximidade das casas e da rua era tão latente (e ainda visível em grande parte das cidades históricas de Minas) que isso se confundia, fazendo com a que a sociedade confundisse o público com o privado. A partir daquela leitura refleti bastante e percebi claramente como, em nossa cultura, a indistinção da coisa pública com a privada é perceptível. E hoje, podemos ver absolutamente isso nos noticiários, nos jornais, revistas. A apropriação indevida do público (lembro que a palavra república vem do grego res: coisa, publica: do povo), e que é tida como se fosse particular, mas o particular para alguns, esses privilegiados que sabemos bem quem são.

  2. Bruno Dutra
    25/02/2010
    23:30

    continuando…
    Embora estejamos imersos num sistema cruel e com garras afiadas, ao qual denominamos capitalismo, ao qual dificilmente temos condições que nos esquivar, essa ‘confusão’ insiste e persiste, de maneira tal, que percebo que cada vez mais, essa situação se normaliza aos olhos de nossa sociedade. Os casos são tão frequentes e tão corriqueiros que tornou-se usual, como sendo algo que esteja dentro, incutido, que faça parte do processo.
    A respeito das privatizações, ao mesmo tempo que creio na máquina pública (no sentido grego, como exposto anteriormente), temo pela má utilização, e temo principalmente pela falta de preparo com que o povo brasileiro tem de tratar dessas questão.
    Não me sinto a vontade e nem ousaria chegar a alguma opnião conclusiva a respeito, no entanto, o que me preocupa efetivamente é se o povo brasileiro tem realmente condições de resolver esse problema que, na minha humilde opnião, não é simplesmente política, mas principalmente, de cunho cultural e isso é um grande problema, pois a instância cultural, das mentalidades, das idéias, essa sim é difícil de mudar e sua transformação é um processo longo que demanda, inclusive interesses políticos (ou politiqueiros).

  3. Bruno Duarte
    26/02/2010
    14:22

    Confio nas medidas que foram sugeridas, mas isso depende de uma Reforma Política que os nossos políticos não irão iniciar sozinhos. Isso pede um maior envolvimento dos cidadãos, dos líderes de opinião, da imprensa… será possível? Outra questão; como esclarecer o financiamento público de campanha a uma população que paga uma das maiores cargas de imposto do mundo?

    • Sammer Siman
      01/03/2010
      20:17

      Quanto à questão da reforma política, concordo plenamente. Só trará evolução com o envolvimento popular. É possível? Sem dúvida que sim, em outros momentos de nosso país o povo se organizou e obteve conquista, como no movimento do “Petróleo é Nosso”, na conquista de leis trabalhistas, etc.

      Quanto ao financiamento público, não se trata de aumentar carga tributária. Uma olhada superficial no orçamento mostra que dinheiro não é problema pro país, trata de uma questão de remanejamento de recursos e prioridades.

  4. Sammer Siman
    01/03/2010
    16:58

    Bruno,

    Quando defendo um protagonismo da classe trabalhadora, está implícita em minha defesa a necessidade de um “despertar” da consciência de classe. Sob uma perspectiva estática, nas atuais condições, tendo a concordar com você. Ou seja, mantida a “cultura do sofá” (essa prática reinante no Brasil, onde o povo espera sentado as coisas “se resolverem”), certamente o povo não dará conta de resolver seus problemas, pois não existe fórmula mágica ou algum controle remoto para operar o Estado e os rumos da sociedade.

    Mas Bruno, acredito piamente na capacidade da classe trabalhadora. E acredito por buscar na história e na atualidade experiências de protagonismo dela. Cuba é o grande exemplo da possibilidade socialista, uma ilha que a muito venceu as grandes mazelas que o capitalismo produz. Pude conhecer de perto a experiência boliviana, venezuelana, onde o povo começa a tomar pra si a responsabilidade da mudança, e há avanços inquestionáveis nestes países. E isso pude perceber “in loco”, sem ter que “perguntar” pra Globo ou pra Veja o que elas acham sobre tais experiências. No Brasil, ainda estamos incipientes, mas há, por exemplo, o caso da Flaskô (objeto de minha monografia – que possui um vídeo produzido pelo programa Conexões Urbanas que pode ser visto por aqui http://www.youtube.com/watch?v=fMW6HWEFSxA ), uma fábrica dirigida pelos trabalhadores a 6 anos, que serve como um modesto exemplo da capacidade dos trabalhadores. Enfim, minha luta hoje é ajudar a provocar o “despertar de consciência de classe”, para que ousemos construir uma sociedade mais avançada. O que não implica na inexistência de erros, mas na compreensão de que um outro mundo é possível e necessário.

  5. João Paulo Rodrigues
    04/03/2010
    09:10

    Haveria vários pontos a rebater sobre a Vale não retribuir etc., ou sobre a confusão entre a inciativa privada (que é uma singularização do fato de que são iniciativas, na realidade) comandar “setores da sociedade”, quando são setores da economia – o que não é a mesma coisa.

    É verdade que nossa democracia representativa tem o defeito de distorcer a representação por conta do dinheiro jogado em campanhas. Mas o caso brasileiro, curiosamente, é um pouco mais democrático, pois, ao contrário do que afirma o texto, sim, nós pagamos pelas campanhas, inclusive do PCO. Afinal, não só as verbas de representação e outros adendos aos salários dos representantes e governantes, que eles usam em suas campanhas, vêm de nossos impostos, como o horário eleitoral gratuito, a principal ferramenta eleitoral, também é paga com os impostos de todos nós.

    • Sammer Siman
      04/03/2010
      11:53

      João Paulo,

      Não se tratam de confusões, pois trabalho com o termo “iniciativa privada” no singular como um conceito, assim como o faço com “iniciativa popular”, dentre outros. E quero mesmo dizer comandar “setores da sociedade”, pois estou falando de direção econômica e política, e uso a questão econômica como um dos exemplos, assim como uso o exemplo da direção essencialmente privada do Estado na essência do texto.

      Sobre a Vale “retribuir”, posso imaginar sua linha de defesa e sua concepção de “retribuição”, mas não me proporei a argumentar aqui para não fazer papel de “Mãe Diná”.

      As distorções da democracia passam essencialmente pelo problema do dinheiro, concordo, mas passa também por outras vertentes, como a falta de controle sobre os “representantes”. Não sei qual a sua referência de chamar o Brasil de “mais democrático”, certamente se formos comparados ao Afeganistão e ao Iraque seremos. Não falo deste tipo de pagamento de campanha que cita – que é o pagamento do Estado às emissoras de TV e Rádio para propaganda “gratuita” e as verbas de representação. Diga-se de passagem, este pagamento às emissoras é um completo absurdo, pois estas não passam de uma concessão pública, e para atender o interesse público não deveria ter que se pagar.

      Mas falo da “cratera” que existe para entrada de dinheiro privado, até porque o “grosso” do gasto de campanha passa pelo uso deste dinheiro. Quanto às verbas de representação, elas só alimentam os que conseguem chegar ao poder (ou seja, na maioria dos casos, aqueles que têm acesso ao dinheiro privado), o que quer dizer que elas ajudam na realimentação da lógica de apropriação privada do Estado.

  6. André Barreto Morais
    26/05/2010
    02:34

    Sammer, se puder te recomendar um livro leia Instituições políticas brasileira do Oliveira Viana que trata da formação política e social brasileira. Além disso autores como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Florestan Fernandes vão discorrer sobre o assunto. Digo isto porque penso que o problema está justamente na nossa formação específica, acredito que temos que analisar o Brasil como uma questão ímpar. A meu ver, somos fruto de uma sociedade de formação paternalista, em que os interesses pessoais se sobressaíram aos interesses do povo e nem mesmo o Estado foi capaz de intervir. Essa formação – além de tudo clânica – como base, impossibilitou a implementação de uma democracia nos moldes anglo-saxões e fez com que o modelo seguido não contemplasse o que o povo precisava. Aqui, neste país, nunca se formou um sentimento nacional, não houve formação de classes e, no fim, ainda incorporamos modelos de consumo incompatíveis com os nossos meios de produção. Mas voltando à política, somos fruto disso meu caro, uma formação de interesses pessoais solapando o governo. Te lembra alguma coisa falar de coronelismo, disputas familiares, interesses de emulação pessoal, eleições marcadas por depreciação humana e não debates políticos, compra de votos? Infelizmente a situação atual tem sido essa, creio que a tendência é melhorar e pra isso precisamos de uma reforma política urgentemente, precisamos mudar. Como esperar uma “classe trabalhadora”? Os que labutam na área rural estão tão distantes daqueles da cidade que atualmente é impossível uma unificação desta classe, não existe interesse comum, esperar ainda que a luta parta da burguesia é utópico demais. Pode parecer que o que nos resta é a barbárie ou o socialismo, mas sou cético quanto a isso, não vejo neste segundo sistema uma quebra dos meios de produção capitalista, entretanto necessita de uma ditadura pra existir, como vemos nos casos de Cuba, Coréia do Norte, URSS e tantos outros. Além disso quem poderia brigar por isso aqui como o MST por exemplo tem se distanciado da proposta socialista; o primeiro trava uma disputa contra o agro negócio, enquanto a segunda indica uma luta contra a propriedade privada. Quanto à Vale concordo quando diz que a privatização foi feita de uma maneira errônea porém, FHC estava seguindo o seu modelo de desenvolvimento associado ao capital externo e como vemos hoje, grandes avanços em áreas como telefonia e energia foram alcançados. Por fim, também não acho que o capitalismo seja o melhor dos mundos, mas sendo este o sistema atual e não enxergando nenhuma outra proposta real, acho que o estado deva existir de uma maneira até forte, mas não controlar todos os setores da sociedade, até porque a corrupção está institucionalizada neste país e não adiantaria. O que temos que buscar é uma melhor distribuição de renda, uma sistema tributário mais justos, melhoria nos gastos públicos, maior rigor nos contratos do governo afim de diminuir os custos de transação, a reforma política e políticas de longo prazo que contemplem a população carente.

    • Sammer Siman
      04/01/2011
      17:12

      Caro André,

      Peço desculpas por não ter visto sua resposta, mas, “antes tarde do que nunca”, vou às suas considerações.

      Primeiramente, não consigo ver uma contradição entre a formação paternalista da sociedade brasileira e o império do dinheiro nos financiamentos de campanha da atualidade. Pelo contrário, acredito que a centralidade do poder econômico é válida tanto na apropriação paternalista quanto na forma atual de apropriação do Estado pelos agentes privados.

      Discordo de ti quando diz que no Brasil não há uma democracia nos moldes anglo-saxões. A título de exemplo, há fortes traços de similaridade entre a democracia brasileira e a norte-americana*, pois em ambas o dinheiro é essencial para se fazer eleger, assim como impera a lógica liberal, onde o poder popular está limitado ao voto, pois são pífios os instrumentos de participação direta do povo nos rumos da política.

      É imprudente quando afirma que no Brasil “nunca se formou” um sentimento nacional e que não houve formação de classes. Há momentos de sentimentos nacionais, a luta pela Petrobrás, pelos direitos trabalhistas ou a luta contra a ditadura militar são exemplo destes momentos. E as classes são formadas, e muito bem formadas. Há num pólo uma classe detentora dos meios de produção que consegue determinar boa parte dos rumos da política e num outro pólo uma classe que, apesar de ser maioria em número, ocupa uma posição desprivilegiada na determinação da política e que depende da venda de sua força de trabalho e/ou da assistência do Estado pra viver.

      O que tem tido é uma dificuldade desta última classe em se identificar como tal, o que tem dificultado um levante expressivo desta classe trabalhadora. No entanto, analisar o passado permite entender que não existe determinismo na história, o fato de uma classe não se identificar como tal “hoje” e, com isso, não reagir à exploração, não impossibilita que “amanhã” ocorra o surgimento de uma identidade e de um levante. De fato no Brasil a possibilidade parece limitada, pois de décadas pra cá temos visto uma esquerda ignorante, pouco capaz de liderar processos mais densos de mudança. No entanto, o epicentro da disputa social continua situado na contradição capital X trabalho, o que tem existido são sofisticações desta disputa (por exemplo, o capital hoje consegue manter sua hegemonia pelo controle da mídia de massa, o que não era decisivo a 100 anos atrás).

      Logo, dizer que é impossível a unificação de, por exemplo, trabalhadores rurais e urbanos, é fazer um exercício de futurologia irresponsável, pois as contradições de classes são da mesma natureza, ao contrário do que diz os interesses são comuns, e sempre está na ordem do dia possibilidades de organização de uma classe.

      Dizer que o socialismo não quebra com os meios de produção capitalistas e é baseado em ditaduras é negar uma leitura da história e da atualidade comprometida com a realidade. Pra discutir sobre dois exemplos, a URSS saiu de uma condição de país semi-feudal para uma potência mundial em questão de 20 anos por ser referenciada numa democracia (democracia no sentido semântico, que significa poder do povo). O país só obteve sucesso porque o proletariado conduziu o poder do Estado por meio dos soviets até 1936 (palavra russa que no português significa conselhos). E a URSS teve que optar por um capitalismo de Estado, pois pelas condições históricas não possuía uma base industrial para ser socializada, mas não abdicou de questões essênciais como o planejamento econômico, o pleno emprego, etc.

      Cuba conseguiu mais êxito, pois tem na sua base uma democracia de fato, neste país é o povo quem dirige o Estado verdadeiramente (leia http://embacu.cubaminrex.cu/Default.aspx?tabid=2209 ). E existe uma economia socialista, e não capitalista, controlada pelo Estado, ou seja, controlada pelo povo. Existe PLANEJAMENTO ECONÔMICO, algo inexistente no capitalismo. Não é por coincidência que este é um dos países campeões no campo da educação, saúde, assistência social…

      No Brasil, de fato precisa ressurgir novas forças sociais capazes de travar uma luta anti-capitalista, o fato de isso estar longe do horizonte não nega a possibilidade deste ressurgimento. O MST é um movimento social, que faz principalmente luta econômica e social, apesar de ter claro que é necessária uma nova ordem social para se ter justiça de fato. Mas de fato sozinho este movimento não conseguirá nem de longe alavancar uma luta anti-capitalista.

      Sim, o capitalismo em sua fase neoliberal no Brasil trouxe alguns avanços como a telefonia celular e de outro lado aprofundou o desmonte de questões essenciais como saúde e educação. Se eu tivesse que escolher entre falar no celular ou ter um país mais justo, escolheria a segunda opção.

      Bom, se vc está conformado com o capitalismo, é um direito seu, deve lutar pelo que acredita. Assim como é um direito meu lutar pelo que acredito, pois mesmo sem enxergar o socialismo para “amanhã” não abdico de seguir na busca desta nova ordem social, ainda que esteja reservado a mim o insucesso.

      *A constituição brasileira de 1981, que tem sido a referência de várias constituições brasileiras – inclusive a atual, de 1988 – no que se refere aos mecanismos de acesso e exercício do poder (eleições diretas, sistema presidencialista…) foi resultado de um longo trabalho feito por Rui Barbosa, que usou como base o ordenamento jurídico norte-americano.


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