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Dezenas de órgãos federais desaparelhados e que não se comunicam entre si, nove governos estaduais, centenas de prefeituras, empresas nacionais e estrangeiras, grileiros, organizações não governamentais, igrejas, movimentos sociais, entidades indígenas e outros agentes atuam na Amazônia, defendendo interesses conflitantes, sem que haja uma política coerente de desenvolvimento para a região.

De forma simplificada, o noticiário nos fala de uma disputa que opõe, de um lado, um agronegócio que seria portador da racionalidade econômica e, de outro, ecologistas românticos. O presidente Lula, como sempre, resolveu dar razão aos dois: merece aplausos quem desmatou para levar a soja e o boi, mas as condições mudaram; só conseguiremos continuar vendendo carne e grãos ao mundo se mostrarmos que estamos preocupados com o ambiente. É uma comédia de erros.

Com mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia é o coração territorial do Brasil. A exuberância vegetal depende da reciclagem dos nutrientes em um sistema fechado que se degrada rapidamente quando ocorre o desmatamento. A maior parte dos mais de duzentos tipos de solo é de baixa fertilidade; menos de 10% da região se prestam à atividade agropecuária tradicional.

Muitas áreas ainda têm na extração da madeira a sua atividade econômica primária, aquela que sustenta as demais. Esgotada a madeira entram a soja e o gado, até o solo se tornar imprestável. O que fica é a miséria.

Por isso, as frentes de povoamento estão sempre se deslocando, levando consigo o arco do fogo. A expansão da fronteira agropecuária multiplica cidades com baixa qualidade de vida, onde estão mais de 80% dos habitantes locais. Barracos e palafitas abrigam uma população flutuante, ao mesmo tempo urbana e rural, que ora tenta fixar-se, ora migra, buscando outras cidades, regiões de garimpo e canteiros de obras.

É um modo de ocupação irracional e inviável, mas que criou raízes na sociedade. Não será detido por quem deseja transformar a região em santuário. O desafio é inventar um novo modelo de desenvolvimento, fazendo a sociedade participar dele e defendê-lo. Ele precisará criar e disseminar técnicas novas, intensivas em conhecimento, não mais baseadas na família metal-mecânica do século XX, mas nas biologias. Nunca fizemos nada parecido. O ciclo desenvolvimentista nos capacitou a copiar, mas não a criar.

A calha central do grande rio, seus afluentes e os lagos de várzea podem ser transformados na mais importante fonte mundial de proteína de alta qualidade e de baixo custo, com o manejo racional das milhares espécies de peixes que vivem ali, confinadas pela própria natureza, cujos ciclos biológicos precisamos conhecer. É imensa a fertilidade das áreas de várzea. O conhecimento dos estoques de genes, moléculas e microrganismos promete abrir novas fronteiras para diversos ramos da agricultura e da indústria, como o de fármacos. O plantio de árvores leguminosas, mescladas com palmeiras, em 35% da área já desflorestada pode sustentar uma produção de óleo, renovável, suficiente para substituir o diesel que usamos em todo o território nacional. O grande potencial hidrelétrico pode ser usado inteligentemente, com efeitos regionais benéficos. São apenas exemplos.

Não se trata, pois, de fazer preservação “para inglês ver”, tendo em vista o mercado mundial da soja e do boi. Trata-se de consolidar o nosso território, melhorar a qualidade de vida das pessoas e projetar o Brasil para a vanguarda do século XXI. O caos institucional e a falta de um projeto nacional impedem isso.

Este artigo foi originalmente publicado pela Folha de S. Paulo, em 27 de junho de 2009.


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