As recentes estimativas do FMI de crescimento econômico no mundo neste e no próximo ano não passam de chutes. São meras projeções estatísticas de uma realidade que se mantém extremamente complexa, e que não comporta extrapolações de tendência sem uma acurada análise qualitativa. O FMI não explica porque os Estados Unidos, depois da queda de 2,5% em 2009, deverá crescer 2,7% neste ano e 2,4% em 2010. Afinal, o sistema bancário norte-americano, que é o dínamo que toca o país e o mundo, ainda não recuperou suas funções de financiamento à produção.
Pode-se dizer o mesmo da Zona do Euro. Aí a queda foi de 3,9% no ano passado e as projeções para este e o próximo ano são de crescimento de 1,% e 1,6%. Contudo, sabe-se que a Europa é altamente dependente do comportamento da economia alemã, e que a economia alemã é altamente dependente de exportações. Ora, o comércio internacional, que no ano passado teve uma contração de 11% em quantidade e de 25% em valor, continua em colapso, exceto o comércio intra-asiático. Nesse contexto, de onde virá o crescimento europeu?
São três as fontes de demanda para a sustentação do crescimento econômico. A demanda interna, que foi o padrão secular norte-americano; a demanda externa, que tem sido o padrão das economias lideradas por exportações; e o investimento, que é uma derivada dos outros dois, pois ninguém investe para as prateleiras, mas para um mercado que se acredita em expansão. Diante da crise nos mercados, a China e a Índia voltaram para seus mercados internos, compensando em parte a queda nas exportações. Com isso, deram algum suporte à economia mundial.
Entretanto, com toda a força de seu crescimento nos últimos anos, a economia chinesa é ainda a terceira, depois do Japão, devendo chegar a 4 trilhões de dólares nos próximos anos. Isso ainda está longe dos 14 trilhões dos Estados Unidos e dos 17 trilhões da União Européia. A China, portanto, não tem escala para ser a locomotiva do mundo. Ela pode ajudar economias em desenvolvimento, exportadoras de commodities, como a brasileira, assim como pode ajudar os países desenvolvidos a controlar a inflação, vendendo-lhes manufaturados baratos. Não muito mais.
O FMI estima que o Japão, que teve uma contração na economia de 5,3% em 2009, cresça 1,7% este ano e 2,2% no próximo. Mais uma vez se pergunta: de onde virá a demanda? Se estivéssemos num mundo menos ideológico e mais racional, a resposta seria simples: virá do dispêndio fiscal deficitário, como sempre se fez em situações de crise de demanda, seguindo as recomendações da macroeconomia keynesiana. É clara que a receita teria de ser adaptada aos novos tempos, mas, em sua essência financeira, não há substituto à vista.
Acontece que há uma resistência ideológica brutal ao aumento dos déficits públicos, independentemente da profundidade das crises. Essa resistência baseia-se em duas premissas inteiramente falsas: primeiro, que o déficit aumenta a carga fiscal para as gerações futuras; segundo, que compromete a credibilidade do Estado de pagar sua dívida pública interna. As agências multilaterais, como o FMI, a OCDE e o Banco Mundial, estão impregnados dessa ideologia. São elas os grandes difusores da idéia de um orçamento equilibrado.
Em termos efetivos, não há nenhuma razão pela qual as gerações futuras devam pagar o custo dos déficits atuais na forma de maiores tributos. O que tem pago a dívida pública, secularmente, é o crescimento das economias. Uma política fiscal que leve à retomada do crescimento paga automaticamente, no futuro, o aumento atual do déficit, mantendo-se constante a carga fiscal relativa. Além disso, como o déficit é feito para relançar a economia, as gerações futuras se beneficiam de seus resultados positivos na forma de uma herança de uma economia mais saudável.
A idéia de que o aumento do déficit, mesmo em situações de crise de demanda, afeta a credibilidade do Estado de pagar a dívida pública é uma falácia que não mereceria sequer um comentário, não fosse tão generalizada ideologicamente. O fato óbvio é que o Estado que emite dívida é o mesmo que emite moeda e que tributa. Não existe qualquer hipótese, para a dívida interna, desse Estado quebrar. Há, sim, para a dívida externa, mas esse é outro caso, vinculado a políticas econômicas de alto endividamento externo sem contrapartida de ativos.
E o Brasil? O FMI diz que o Brasil, que terá se contraído em 0,4% no ano passado, vai crescer 4,7% este ano e 3,7% no próximo. Pergunta-se de novo: De onde virá a demanda? Do lado externo, esqueçam: a China está no limite de importações. Do lado interno, prensado pelos conservadores, o Governo começa a retirar os estímulos fiscais. O salário mínimo, que foi a maior força na contramão da crise no ano passado, cresce bem menos este ano. E os investimentos, que foram muito bem no terceiro trimestre, terão que se ater às perspectivas realistas da demanda externa e interna. Não gosto, portanto, dessas projeções do FMI. Elas são no sentido de nos convencer a celebrar a vitória numa guerra que sequer começamos.