Historicamente, atribui-se a Esopo a autoria do gênero literário fábula. Na fábula são condensadas normas sociais de conduta utilizando figuras de animais em ações dualistas. Para a fábula da Formiga e a Cigarra, a cultura escravocrata grega sublimou o trabalho frente à disposição natural de cantar. Quando a cigarra teve fome, a formiga, que nunca foi dada a divisões, sugeriu a dança para tapear o estômago. O único erro da cigarra foi não buscar solidariedade entre as próprias cigarras. Certas espécies sociais não se comunicam nem buscam diálogos para além dos seus limites internos.
Em uma sociedade como a grega de Esopo que, aliás, foi escravo, o controle ideológico por parte dos proprietários contava em muito com a tradição oral na doutrinação dos grupos sociais dominados. Nesse sentido, a fábula foi precursora da Ética filosófica tardia. Esopo foi liberto pelo seu senhor graças às fábulas. A escravidão simplesmente projetava as representações subjetivas que a ela serviam de ‘muletas’ da desigualdade social, aproveitando uma sugestão pictórica surreal de Dalí.
É lugar comum hoje apontar a Inteligência Artificial e a Robótica como os principais avanços técnicos que levarão à extinção o trabalho físico humano. Só que, no capitalismo, acabar com o trabalho físico significa também terminar com o ser humano. No momento mais agudo da decadência escravocrata grega, por exemplo, fomos brindados (a Humanidade) com o gênio de Epicuro. As correntes se partiram e o humano transcendeu a si mesmo. Ainda agora, setores econômicos subsidiados e de uso intensificado de tecnologias (Agronegócio e Indústria Têxtil) procuram reverter algumas perdas financeiras com o uso de mão-de-obra escrava. Sofremos infelizmente também de πνεύμα ανόητος. Vide a filosofia burguesa.
Em 2009, o Ministério Público do Trabalho apontou o Estado do Rio de Janeiro como o lugar com maior uso de mão-de-obra escrava no país. A maioria dos casos registrados na monocultura da cana-de-açúcar na cidade de Campos dos Goytacazes. Lembrei do livro que li na minha infância ‘Açúcar Amargo’ do escritor mineiro Luiz Puntel. Era uma estória verídica que, endemicamente, assola-nos. Repetida inúmeras vezes ao longo dos anos, adormece o ambiente iníquo. As explicações sociológicas em moda para o fenômeno são verdadeiras fábulas. A escravidão é uma doença social em diversas partes do planeta e isto é intrínseco à lógica exploratória e destrutiva do capital, que ora extermina com trabalho, ora com guerras, doenças de laboratório, mudanças climáticas, etc. Entretanto, a quem servem os estereótipos da formiga?
Enquanto carioca rubro-negro, eu defendo que sejamos todos cigarras. Façamos da Cigarra o ser transcendental de um poema libertário. Freud muito bem advertiu que não existe no ser humano impulso laboral. Entramos numa de dominar a natureza e com isso subjugamos uns aos outros. Vamos cantar e dançar, sambar, praticar esportes, curtir o nosso litoral, as nossas florestas, encontrando expressões estéticas anos-luz da escravidão. Basta de exploração! É isso ‘mermu’, Carnaval todos os dias. Abaixo as formigas e os formigueiros! O trabalho no sentido lato é uma formação histórica demente e sinônimo de escravidão. Vivamos de vento, se no vento vier a Liberdade.