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Perdoe–me o leitor uma breve digressão taxonômica: os sistemas de transporte pertencem à classe dos “sistemas complexos, grandes, integrados e abertos”, significando serem formados por diversos subsistemas, contendo cada qual grande numero de componentes, interligados através de relações não completamente conhecidas, abrangendo (alem da tecnologia e da engenharia) os campos social, político, econômico e ambiental.

Assim as causas e soluções maiores para o enorme atraso que caracteriza o nosso sistema de transporte de cargas, predominantemente rodoviário, encontram-se no campo político, que por omissão, propósito, ou desconhecimento, o relegou a um plano secundário, onde se mantém cativo de poderosos interesses particularizados, obviamente contrários a quaisquer mudanças no status quo.

Conseqüentemente, a solução passa por uma mudança de atitude na cúpula governante da nação, que resulte na elevação do Ministério dos Transportes aos níveis de importância estratégica, independência e respeito similares, por exemplo, aos atribuídos aos Ministérios da Fazenda ou da Defesa (como sugerimos em artigo anterior). Mudança da qual derive a transformação da matriz de acordo com os interesses maiores do país.

A importância crucial da questão fica bem caracterizada pelo extraordinário vulto das perdas que o atual sistema de transportes nos impõe. E para evidenciar a escala destas perdas, procuramos responder a seguinte questão hipotética: “o que ganharia o Brasil se sua matriz de transporte se assemelhasse a do Canadá, país de dimensões semelhantes?”

Neste sentido simulamos a evolução de nossa matriz de transporte de cargas rumo a outra, equilibrada em relação a  rodovias, ferrovias e navegação – correspondendo a um investimento público na faixa dos 20 a 25 bilhões de reais, realizado ao longo de dez anos.

Obtivemos os seguintes resultados, acumulados ao longo de um período de 25 anos:

Economias de fretes para os usuários: 800 bilhões de reais. Uma quantia extraordinária, que sob forma de lucros seria reinvestida nas empresas ou repassada ao mercado através de menores preços, aumentando sua competitividade, favorecendo os consumidores e aliviando pressões inflacionarias.

Economia em manutenção de rodovias: 130 bilhões de reais. Outro grande número. Uma quantia que, ao invés de ser simplesmente esterilizada como é, na vã tentativa de manter um sistema hipertrofiado operando com enorme sobrecarga sob agressivo clima tropical (calor e chuvas intensas), seria aplicada produtivamente na melhoria e expansão das próprias rodovias, em ferrovias e na navegação.

Economia em gastos decorrentes de acidentes: 30 bilhões de reais. Mais um significativo valor que encontraria  aplicações produtivas na economia.

Economia de energia: 600 bilhões de reais em óleo diesel, equivalendo à geração de cerca de dez Itaipús por um ano. Resultando em uma redução de 800 milhões de toneladas de emissão de CO2 , uma significativa contribuição à remediação do aquecimento global.

Crescimento adicional do PIB: 3800 bilhões de reais. Ou seja, equivalendo a quase o valor do PIB atual do país (em poder de compra equivalente).

Geração de impostos adicionais: 660 bilhões de reais. Compare-se este número com o investimento público necessário para a transformação da matriz (20 a 25 bilhões de reais). Ou seja, recursos não faltariam.

Geração de empregos: 38 milhões de empregos novos. Aqui um dos principais benefícios da nova matriz. Correspondendo à criação de duas mil cidades novas, admitindo-se módulos de cem mil habitantes.

Mortes evitadas em acidentes rodoviários: 360 mil. Dispensando-se a respeito maiores comentários.

Como se vê estamos diante de um magno problema para o qual existem, como demonstrado, recursos mais do que abundantes para sua solução, e cujos benefícios são simplesmente extraordinários. Verdadeiramente transformadores de um país. Portanto a causa é mais do que importante, cabendo a sociedade potencializar adequadamente o meio político para a realização da seqüência de ações requeridas. Contra a usualmente forte reação dos interesses contrariados, encastelados no poder.

Como fazê-lo? Será assunto para um próximo artigo.


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