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Miguel Arraes era chamado de “Doutor” por quase todo mundo. Pouca gente o chamava de Miguel. Outra forma carinhosa de referir-se a ele era “o velho”. Quando chegou do exílio, em setembro de 1979, ainda completaria 63 anos em dezembro, mas já era “o velho”.

Lembro que fiquei encantado, no primeiro encontro, porque lia sem óculos e, o melhor, sem franzir o cenho. Ele usou a maioridade com maestria. Dava gosto ver o velho subir no palanque. Andar, aclamado, no meio do povo. Dormir tarde e acordar novo – cedinho. E de lambuja fumava cigarro, cachimbo e charuto. O velho macho parecia inquebrável e contribuía, ele mesmo, para construir a imortalidade – chegou perto dos 90 anos. Foi traído pela fatalidade comum e genérica da morte em plena atividade.

No Palácio das Princesas, nas exéquias, antes de chorar, o povo cantou e contou em verso e prosa suas façanhas. Na hora do poente, como disse Georgina Reis – da FETAPE, o sertanejo foi plantado em Santo Amaro. Homenagens foram propostas e realizadas. Virou nome de rua, de praça, de avenida, de escola pelo país inteiro.

Aqui, em Pernambuco, dentre elas, um Hospital. Prometido e cumprido. Construído, foi inaugurado nas vésperas do Natal.

A saúde e a alimentação são um problema mundial. E não é só a fome endêmica da África, que adoece e mata. Barack Hussein Obama, o presidente americano, levantou o tapete e mostrou que, o país mais poderoso e rico, não cuida de seus doentes. Lá tem gente que morre de frio e aplaca a fome com a sopa magra do abrigo. O capitalismo é cruel.

No Brasil, Lula implantou o Bolsa Família desde o começo de sua Era. O pobre, portanto, virou consumidor, mas não é cidadão!

No Hospital Miguel Arraes, apesar do novo modelo de gestão, do pequeno aumento dado aos servidores, falta leito, vaga e doutor (médico). O mais surpreendente: velho não entra. Moral da história: o Dr. Arraes, com fratura de fêmur, pelo critério, seria barrado no hospital que inspirou criar. Tivemos grandes velhos. Sobral Pinto, 97; Evandro Lins e Silva, 91; Barbosa Lima Sobrinho passou dos 100; Oscar Niemeyer também é vivo e casou um dia desses; Pelópidas da Silveira superou os 90.

Gostaria de ser mais sutil, porém, fiquei impedido diante do opróbrio. Isso me lembra velha marchinha da campanha getulista dos anos 50, do século passado: “bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar”.


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