Artes e Cidadania 07/01/2010
Dependência e espírito
Em que pese ora o boicote acadêmico, ora a difamação que sofreu, a Teoria da Dependência, assim como foi concebida por Rui Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, apesar de precisa ao dizer que o excedente econômico produzido na periferia capitalista era escoado para as economias centrais, realimentando a dinâmica dependentista, quiseram alguns que ela fosse condenada ao esquecimento, tal como os seus elaboradores. A sordidez intelectual foi a mesma quando os opositores da Teoria da Dependência desfraldaram as ladainhas neoliberais, esquizofrenicamente, repetidas até hoje. Por si só, este já seria um bom tema para documentário, mas conversar com o Professor Theotônio é de fato uma viagem pela História do mundo, pela História da esquerda e pela História do pensamento econômico nos últimos 50 anos.
A última crise confirmou que as camadas superiores e minoritárias das sociedades são beneficiadas pelo nível de concentração de renda elevadíssimo, pois encontram no Estado um defensor de prontidão. Os bancos falem, a riqueza desaparece e a população paga a conta. Exemplo: Islândia, onde 400.000 investidores perderam o que tinham quando o Landsbanki faliu e o governo defendeu o pagamento de US$ 5 bilhões a Holanda e Grã-Bretanha. Nas periferias do capital, o processo de socialização das perdas internacionais além de não interferir no consumo conspícuo das elites, recorre às velhas medidas golpistas. Mais uma vez, o Professor Theotônio conhecia de antemão os números financeiros, as tendências políticas, os articuladores de golpe etc., dizendo como os republicanos dos EUA e os fascistas espanhóis do P.P. apoiaram a derrubada do outrora presidente eleito de Honduras.
Em uma produção independente, meu grande amigo piauiense Carlos Galvão, poeta, músico, cineasta (e, por uma infelicidade qualquer, vascaíno) e eu só paramos a conversa quando temos que trocar as fitas. A enxurrada de conhecimento e a clareza das palavras conduzem o tempo e nos propuseram uma linguagem cinematográfica extremamente rica em detalhes na própria simplicidade das imagens. Como cenário, filmamos as entrevistas na casa do Professor em Camboinhas – Niterói, num clima descontraído, com as duas filhinhas do seu último casamento brincando entre os equipamentos e nos chamando a atenção para o ambiente de liberdade em torno de um dos fundadores da Política Operária – POLOP. Para meu pesar, Theotônio dos Santos também é Vasco. Outrossim, muito me agradou saber que um dos principais influenciadores na formação da POLOP foi Andrés Nin Pérez, fundador do Partido Obrero de Unificación Marxista espanhol em 1935.
Mineiro de Carangola, exilado em Chile e México durante a ditadura militar brasileira, Theotônio dos Santos freqüenta as listas feitas pela extrema direita relatando os elementos nocivos à ordem social burguesa. Lá, no golpe militar chileno, Theotônio estava entre os 10 primeiros a serem presos imediatamente. Na opinião do Professor, a direita se prepara agora para uma nova ofensiva e já está ensaiando os primeiros passos. Ele integra no momento uma lista fascista contra indigenistas de todo o mundo ao lado de outros brasileiros, postada em seu blog.
Entretanto, e muitos desconhecem o fato, Theotônio dos Santos e Celso Furtado são os únicos brasileiros entre os maiores economistas de todos os tempos reconhecidos por universidades européias. É autor de dezenas de livros e o atual coordenador da Rede sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável da UNESCO e Universidade das Nações Unidas – REGGEN. A ele, dito por um europeu, o maior desafio para o pensamento ocidental foi a Teoria da Dependência. E, para a tristeza do Brasil, é possível passar por um curso de Economia sem ouvir falar dos dependentistas.
Sobre o Espírito, esta relação de sujeição intelectual e opressão cognitiva alimentada pelos ideólogos da iniqüidade se faz devastadora. As idéias em obsolescência passam a mercadorias de baixo valor agregado por transações consumistas predatórias que se proliferam em escolas, centros de pesquisa e universidades. Sucumbe a subjetividade no mercado das abstrações dependentes. O Cinema pode então sugerir novas imagens.