Existe uma idéia, nem sempre explicitada, que paira sobre a crise atual. É a analogia com a crise de 1929-30. O tamanho da crise e o lugar onde ela começou (nos EUA e nas finanças) estimulam a comparação. Como conseqüência dessa analogia e do fato de que 1929-30 é um momento importante da montagem da hegemonia americana, admite-se (muitas vezes implicitamente) que a crise atual levará ao declínio do poder americano. Vou tentar fazer um exercício em torno deste problema. E gostaria de anunciar que, como idéia de partida, tentarei separar analiticamente a crise do poder imperial e a crise do capitalismo.
A primeira guerra mundial e a crise de 1929-30 jogaram um papel fundamental na reordenação do poder mundial, na primeira metade do século XX. Poderíamos identificar, com um certo grau de arbitrariedade, os seguintes momentos:
- A crise de 1929/30 e a implementação do New Deal com a criação de instituições regulatórias internas (FBI, energia elétrica, preços , Glass-Steagal etc.) e , no pós guerra, externas (Bretton Woods, ONU, OTAN, Plano Marshall). Nesse momento temos a combinação da bipolaridade estratégica e de, no campo ocidental, um multilateralismo subordinado.
- Em 1971, tivemos a crise do dólar (Bretton Woods) que, por um momento, abriu espaço para políticas nacionais não coordenadas e pela busca de um multilateralismo independente.
- O neoliberalismo (volta ao passado?) turbinado pela globalização e pelo padrão dólar flexível possibilitando uma multilateralidade inédita na história contemporânea.
- Agora nos deparamos com uma crise. O que é isso? Uma volta ao passado? Estará Washington à beira de um desastre estratégico? Para muitos essa crise sinaliza o declínio americano. Será isso verdade? Quais os indicadores?
No passado recente tivemos crises importantes – não estou falando das dezenas de crises listadas por Eichengreen & Bordo, ou pelo Banco Mundial. Tomemos para um exercício didático a crise do dólar, em 1971. Poderia ser e foi, na época, percebida como a debacle americana. A moeda americana ficou inconversível e iniciou um processo de desvalorização. Era um desastre do poder americano. E acima de tudo, era contemporâneo do maior desastre militar da história americana, o Vietnan. Vista de hoje essa formulação não é consistente. Mas foi feita no início dos anos 1970.
Além disso (ou seja, das conclusões precipitadas) um fato pouco conhecido é o de que a crise e a desordem, paradoxalmente, podem fortalecer o hegemon. A crise pode ser uma forma de administração do poder mundial. Muitas vezes o objetivo pode ser a instabilidade e não o contrário. Sei que isso é difícil para alguns economistas que foram criados na idéia de equilíbrio. Mas o mundo real não foi feito por Marshall ou Walras.
Na história recente convivemos com várias crises provocadas com fins políticos. Citarei duas já estudadas: a do Chile de Allende e a derrubada da União Soviética. Temos ainda uma em andamento, a política americana no Oriente Médio, geradora de grande instabilidade, que afeta aliados europeus e japoneses mais do que aos EUA.
Mas devemos aproximar-nos da atual crise. A história do poder mundial no pós-guerra é a história da Guerra Fria e da vitória americana nesse contencioso.
Toda a coordenação multilateral e cumprimento de regras (Bretton Woods) foi facilmente implementada na Guerra Fria e na montagem do sistema de alianças americano (OTAN, Plano Marshall). É verdade que alguns aliados, quase sempre os franceses, saíam dos trilhos. Mas enfrentar o comunismo dentro e fora de suas fronteiras era a prioridade absoluta.
O mundo real não foi feito por Marshall ou Walras.
Com a reconstrução econômico-industrial dos aliados (velhos e novos) os EUA começaram a ter dificuldade de impor seus interesses. Os aliados ficaram reticentes em bancar a hegemonia benevolente dos EUA- em bancar os custos de uma combinação de welfare com warfare. É nesse contexto que as instituições do pós-guerra, como por exemplo, Bretton Woods, começam a deixar de funcionar. Também nessa época o neoliberalismo começa a ser implementado -com desregulamentações financeiras, cambiais, tarifárias etc.
O neoliberalismo foi uma política e uma ideologia funcional à retomada dos EUA nos anos 1980. Impôs uma unilateralidade para o financiamento do confronto com a URSS e combinou-se com uma política externa afastada dos interesses dos aliados, como bem exemplifica a aproximação com a China.
A política monetária americana, o reaganomics, possibilitou o financiamento da corrida militar –programa guerra nas estrelas – e o desmantelamento da URSS.Deu origem também a um sistema monetário onde os USA emitem a moeda mundial. O dólar, uma moeda nacional inconversível é a moeda mundial!
Mas esse movimento teve conseqüências externas e internas aos EUA.
A vitória americana na disputa estratégica dos anos 1980 sacramentou a hegemonia americana baseada no trinômio (moeda+armas+energia) e liberou alguns diabinhos do capitalismo.
Vamos fazer um grande parêntese: há teses muito vigorosas nos vários pensadores como Polanyi, Schumpeter, Marx, Keynes e Galbraith, para ficar em um seleto grupo de celebridades, que identificaram no capitalismo uma realidade com grande poder de destruição. Quase todos perceberam que para funcionar deveria haver regulação para ordenar suas mercadorias especiais- trabalho, terra e dinheiro. Todos – revolucionários ou conservadores- achavam que o capitalismo para funcionar necessita de freios , anteparos. E que sua tendência à concentração levaria a crises crescentes.)
Ao implementar o neoliberalismo- desregulamentação, desestatização e financeirização a partir do dólar- os EUA destruíram ou enfraqueceram os Estados mundo a fora.A globalização , que foi a expansão do capital pelo mundo, numa fase de integração produtiva e , acima de tudo , financeira, quebrou ou enfraqueceu estruturas produtivas mundo afora , criou integrações subordinadas , com especializações , muitas vezes, regressivas ao primário-exportador e acima de tudo com os 3 D´s (dólar, desregulação e desestatização) enfraqueceram o Estado e aumentaram a dependência.
Mas também sobrou um diabinho-melhor dizendo Diabão- para os EUA. Pois a destruição do New Deal com as políticas neoliberais de Nixon, Reagan, Bush Pai, Clinton e Bush Filho permitiu que o capitalismo americano- domado a partir de Roosevelt nos anos 30- desenvolvesse todas as suas perversões inerentes, como já tinham sido identificadas por aqueles autores “Clássicos” citados a pouco.
A atual crise financeira , que difere em tamanho e intensidade , mas não em natureza das crises da Ásia (1997), da Nasdaq (internet), das artimanhas da Enron, essa crise, repito, revela os pés-de-barro do capitalismo sem regras. A ausência de controles,fruto de uma política deliberada, permitiu uma acumulação financeira em função de uma absoluta privatização do Estado, inclusive e principalmente o Estado Americano.
Tomemos como exemplo o orçamento do Pentágono- é sabido que é desperdiçador , ineficiente e associado à corrupção- o que isso nos diz? Vemos uma regressão imperial. A república desaparece. A coisa pública dá lugar ao privado. Ali fornecedores, o Pentágono e os comitês do Congresso dirigem uma parcela significativa do orçamento da União, o maior fluxo de dinheiro do mundo. Ali se realiza uma operação de apropriação privada do Estado em uma escala nunca antes vista. Ali se pode identificar uma transfiguração do complexo industrial militar com um papel crescente para as companhias de serviços militares –Blackwater –por exemplo, com a privatização parcial de uma das instituições básicas do Estado.
Portanto a questão do poder mundial não se coloca apenas entre os membros do sistema de Estados nações, mas também se coloca dentro de cada Estado Nacional. E é uma questão central no Estado americano.
Não é por acaso que na formulação da política para o enfrentamento da presente crise financeira o foco da ajuda é estrabicamente dirigido para os bancos (alguns deles, diga-se) e não para os devedores primários (ninjas, desempregados sem renda, que estão na base da pirâmide social )
Neste contexto de privatização do Estado hegemônico, de corrupção completa das instituições republicanas, a idéia de uma solução multilateral (G20, G100, etc.) é muito idealista, é mais um sonho de diplomatas do que possibilidades reais percebidas por uma análise de economia (geo)política.
Essa crise financeira, que pode ser a ante-sala de uma depressão, atinge um mundo com grandes problemas estruturais , da questão ecológica, energética, dos padrões de consumo, à questão da sobrevivência e do aprofundamento das instituições republicanas em escala global.Todos estes problemas impedem soluções simples e parciais. A inexistência ou a crise dos Estados como sujeito histórico para mediar as soluções globais já aponta para um futuro cinzento.O mundo poderá receber de um hegemon não-republicano uma solução que leva à barbárie.
Este artigo foi originalmente apresentado no seminário Crise: Rumos e Verdades. Curitiba, dezembro de 2008