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Ilustração: www.sxc.hu

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Alguns politicólogos, justificadamente indignados com os excessos dos militantes ambientalistas, sustentam que a campanha contra mudanças climáticas faz parte, consciente ou inconscientemente, de uma grande conspiração contra os países pobres que tentam se desenvolver. Os países ricos, com isso, estariam pondo em prática uma espécie de Governo Mundial em seu próprio benefício, usando subterfúgios como a necessidade de cooperação entre os povos em nome de ganhos para toda a humanidade.

Repete-se assim a reação que o Clube de Roma suscitou no início dos anos 70 quando lançou o estudo “Limites do Crescimento”. Eu próprio fiquei muito desconfiado naquela época. Foi Celso Furtado, um desenvolvimentista insuspeito, quem me chamou a atenção para um fato de notável simplicidade: tratava-se do primeiro estudo quantitativo no mundo que mostrava que os recursos naturais são finitos. A contrapartida para isso foi uma espécie de confiança mística na tecnologia. Ela superaria a escassez.

Até o momento não temos tido escassez generalizada de bens naturais, exceto talvez a água em algumas regiões. Mas é possível que em breve mesmo os países ricos sintam a escassez de alguns metais raros, não porque já não existe oferta, em termos absolutos, mas porque um grande produtor, a China, decretou a proibição de exportação de muitos deles, sendo que alguns são fundamentais na fabricação de motores, de celulares e de outros bens. Ou seja, antes do limite físico, como aliás se poderia prever, veio o limite político. Ainda assim, é limite!

Apesar do escândalo, a meu juízo forjado, que envolveu alguns cientistas envolvidos nos estudos de mudanças climáticas, entendo que há evidências suficientes de mudanças climáticas provocadas por ação humana. Não vejo também a quem aproveitaria objetivamente a conspiração por controles, mesmo porque os interesses mais pesados estão do lado de quem polui. Numa corrida tecnológica, muitos ganharão, mas isso é uma aposta em investimentos que também poderão resultar em fracasso.

O problema climático, por sua vez, só poderá ser enfrentado globalmente, ou seja, mediante cooperação entre os países por decisão soberana de cada um deles. Quem associa isso a Governo Mundial talvez não suspeite que temos, sim, um Governo Mundial, há décadas. Este foi fruto de uma conspiração, não de um concerto mais ou menos democrático entre países em Copenhague. É o governo da alta finança, exercido da Basiléia através do BIS, o Banco de Compensações Internacionais, usando um conceito singelo: promover as “finanças saudáveis”.

Alguém acaso é contra “finanças saudáveis”? Alguém é contra o principal filhote de “finanças saudáveis”, a chamada “responsabilidade fiscal”? Pois bem, esses dois conceitos são as âncoras do sistema financeiro internacional que acabou de colapsar. Graças a uma formidável máquina de propaganda e de relações públicas, e pela manipulação de termos ao gosto do senso comum, foi empurrada goela abaixo da humanidade um tipo de finanças que põe no bolso de um punhado de financistas a parte do leão do produto global.

Historicamente, a criação da moeda era uma prerrogativa exclusiva do Estado. Posteriormente, essa prerrogativa passou a ser partilhada com os bancos. A partir das “finanças saudáveis”, pretendeu-se que só os bancos poderiam criar moeda. Ora, o Estado que cria moeda pode usá-la em benefício do desenvolvimento, da distribuição de renda e do progresso social. Ele tem dois caminhos para isso: pela emissão direta de dinheiro ou pela tomada de dívida pública, garantida esta pelo dinheiro que ele próprio emite.

Alguém pôs na nossa Constituição que o Banco Central não pode financiar o Tesouro, ou seja, o Estado não pode emitir dívida coberta pelo BC para financiar seus gastos de custeio e investimento. Fernando Henrique pôs na Lei de Responsabilidade Fiscal tremendas restrições ao financiamento público deficitário e privatizou os bancos públicos estaduais. Tudo isso são “finanças saudáveis”. O termo foi criado em 1931, quando da criação do BIS. Como o sistema financeiro colapsou logo a seguir, engolfado pela Grande Depressão, não havia como evitar o déficit público, e o BIS hibernou durante o florescimento keynesiano.

O acordo de criação do FMI determinou a extinção do BIS. Ele fingiu que não escutou. Nos anos 70, em pleno ressurgimento (neo)liberal, ele voltou à tona, e tornou-se praticamente a referência de todos os bancos centrais do mundo, exceto o dos Estados Unidos, que obviamente não obedece ideólogos. O que que ele é, afinal? Dizem que é o banco central dos bancos centrais. Bazófia. Ele é o oráculo dos banqueiros privados que mandam nos bancos centrais. É o centro de uma conspiração. Se querem um Governo Mundial, aí está ele!


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