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A última grave crise no fornecimento de energia elétrica que atingiu quase todo o país, revelou um quadro que reflete a instabilidade do sistema que acarretou sérias repercussões na vida da população. O Rio de Janeiro não fugiu à regra e no tocante ao setor saúde houve grandes prejuízos à rede pública, tais como o comprometimento de equipamentos, o abastecimento de água com as bombas e a suspensão de cirurgias, inclusive com algumas mortes que estão sendo apuradas. O Hospital Estadual Carlos Chagas apresentou três mortes no período do apagão, o que levou a Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Rio a realizar duas audiências públicas para investigar o caso. Na primeira, ninguém do governo compareceu e na 2ª, seus representantes não souberam responder às perguntas sobre o hospital, cujo gerador não funcionou durante várias horas, acarretando uma situação de risco para os pacientes internados. A empresa responsável pela sua manutenção alegou que ocorreu uma “fatalidade”, pois embora o trabalho estivesse sendo feito, a chave que o aciona não funcionou na hora do blecaute. Em depoimento, o representante da empresa contratada afirmou que essa chave é um equipamento muito antigo e que já haviam solicitado a sua troca à Secretaria de Saúde, o que não ocorreu até hoje. O mais assustador ainda segundo os depoimentos, é que essa empresa, que faz também a manutenção de outros hospitais da rede estadual, está sem receber há oito meses, de onde se conclui que, ou estamos diante de uma situação de suspeição desse trabalho de manutenção, ou trata-se de um exemplo de “altruísmo” com o Poder Público.

Analisando os prontuários dos pacientes que morreram, não há como isentar a falta de energia pelo que aconteceu. Na verdade, esses documentos revelam também a perversidade de outro apagão, o da saúde. Os três pacientes eram graves e estavam em área inadequada de internação. Um deles, inclusive, possuía pedido médico para instalação de um respirador mecânico desde o horário da manhã e, até a noite, quando ocorreu o óbito, não tinha sido atendido por falta de equipamento. Além disso, em se tratando de uma área de permanência de pacientes graves, a regra exige a presença de uma equipe médica completa durante as 24 horas do dia para fazer os atendimentos. No Carlos Chagas isso é ficção. Às vezes há apenas um ou dois clínicos para atender a todos os internados e pacientes que chegam durante os plantões. É fácil imaginar o quadro desesperador de pacientes, que têm suas vidas mantidas e controladas por equipamentos que dependem de energia elétrica e são assistidos por uma equipe médica totalmente desfalcada devido à grande evasão motivada pelos baixos salários. É muita sobrecarga para a providência divina. O que se pretende com a espetacular campanha hoje na mídia é jogar tais mazelas para debaixo do tapete. Esperamos que as investigações em curso garantam a transparência e a identificação dos responsáveis.


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