Sorridentes, Abílio Diniz e Michel Klein acabam de acertar a fusão das Casas Bahia com o grupo Pão de Açúcar, este último já meio francês. O Pão de Açúcar há pouco tinha encampado outros supermercados, como o Freeway, o Extra e as Casas Sendas, repetindo o que acontecera com a “brasileira” Ambev, que juntou Antártica, Skol e outras, para depois unir-se com os belgas, numa fusão que, aqui no Brasil, desceu “redonda” goela abaixo do Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica.
Diante desse processo contínuo de internacionalização e concentração do capital, ratificado nesta última mega-crise em andamento no setor financeiro, salta aos olhos o quanto a chamada esquerda anda perdida. Da mais radical até a menos progressista.
Ainda no século XIX, Karl Marx já recomendava a “globalização” do proletariado e previa o esgotamento dos recursos naturais. Mostrava também que, a cada crise, aumenta o grau de concentração do capital.
Por sinal, para que tudo isso desça redondo, o capital se vale do “ópio do povo”. Novidade? Hoje proliferam cardeais golpistas e “anti-camisinha”, pastores arrecadadores de dízimos, rabinos incentivadores de chacinas e aiatolás adventistas do Armageddon. Porém, em vez de se internacionalizar e atentar para reuniões como a que está acontecendo agora mesmo em Kopenhagen, Dinamarca, a esquerda se aproxima perigosamente de Estados teocráticos e ultranacionalistas, esquecendo do erro estratégico de Stalin ao tentar fazer acordo com Hitler.
Hugo Chavez chama o Chacal de “companheiro” e, sobre Idi Amin, comenta: “dizem que era canibal, mas também era um nacionalista”. Oh Internacional… Por sua vez, Armadnejad consegue ter relações diplomáticas com um número menor de países islâmicos do que Israel, mas é tratado como guerreiro anti-imperialista.
Nada contra o Brasil recebê-lo, é bom que se diga, nem contra a lição de moral histórica dada por Lula na primeira-ministra alemã, que só admite bomba atômica para os ricos. Mas, há conflitos, como o que ocorre entre judeus e palestinos, cuja articulação internacionalista é desprezada, mesmo havendo um projeto viável – a chamada “Iniciativa de Genebra”, na qual existe consenso quanto às fronteiras dos futuros Estados vizinhos.
Em vez de se juntar a esse movimento, que reúne tolerantes dos dois lados, partidários da imediata paralisação de assentamentos na Cisjordânia, e representam a vontade da maioria de ambos os povos, boa parte da esquerda se alia ao diabo para mostrar que está contra o coisa-ruim.
Ainda sobre o conflito Israel-Palestina, existe, sim, uma novidade: a Liga Árabe já aceita uma “solução justa” para os refugiados palestinos, um assunto delicadíssimo. Se esta fosse a postura da Liga Árabe no final do governo Clinton, um acordo de paz já estaria assinado, vez que Arafat e Ehud Barak, tal como a Iniciativa de Genebra, também chegaram a um consenso quanto às fronteiras e concordaram, inclusive, com Jerusalém Oriental como capital da Palestina.
O fracasso daquelas negociações, por causa da questão dos refugiados, determinou uma ascensão nunca vista do radicalismo, de ambos os lados. Como a direita gosta. “Se não houver negociação, em breve o Hammas comandará também a Cisjordânia e Liberman será o primeiro ministro de Israel”, me disse recentemente Riyad Mansow, Embaixador palestino na ONU.
Saindo desse espinhoso tema, existem, sim, saídas mais inteligentes capazes de seduzir a juventude para enfrentar a ganância do império por petróleo para mover carros e aquecer o planeta – já ouvi dizer até que essa história de aquecimento global é balela, mas é inegável que o petróleo vai acabar neste século. A própria transferência da produção mais “suja” e de mais baixa remuneração para o Terceiro Mundo contribui para o rebaixamento dos salários nos países desenvolvidos, o que reforça a necessidade de cooperação mundial do proletariado.
Sim, cooperação, em contraposição à competição e ao individualismo, não é apenas a palavra chave, mas a única alternativa. Não será fácil mudar o modo de vida nos países ricos, mesmo reconhecendo-se que ele não é extensível a todos os quase sete bilhões de habitantes do planeta, sob pena de destruirmos a vida humana. Certamente a saída está também na valorização da economia real, que depende do mercado consumidor (empregos) e não da especulação sobre papéis podres.
Especificamente no caso do Brasil e de seu governo, fica cada vez mais evidente que é melhor criticar os banqueiros de olhos azuis do que baixar as maiores taxas de juros do mundo, cobradas por agiotas “morenos”. Mais difícil ainda é fazer a reforma agrária ou impedir a desindustrialização do país no qual não vale mais a pena nem moer o grão da soja antes de exportar.
Este artigo foi escrito por Salomão Guedes (Economista).