Reagindo à Crise Mundial 10/12/2009
A arquitetura do colapso
Por volta de 1917, quando as forças aliadas e alemãs estavam virtualmente enterradas numa guerra de posição sem possibilidade de vitória para qualquer dos lados, o Estado Maior Alemão se via num impasse. Só tinha duas certezas: primeiro, que a entrada dos Estados Unidos na guerra determinaria inapelavelmente a vitória dos aliados; segundo, que os Estados Unidos, ainda recalcitrantes em entrar, entrariam com certeza em favor dos aliados caso a Alemanha tentasse fechar os mares numa guerra de submarinos.
Só que havia um problema: a Alemanha estava construindo submarinos a um ritmo de mil por ano! O que fazer com eles, exceto uma guerra naval? Numa reunião do Alto Comando, quando indagado sobre o que aconteceria se essa força fosse colocada imediatamente em operação, o chefe do Estado Maior da Armada respondeu com típico estoicismo alemão: “Acabaremos todos exaustos!” Essa história foi contada por Barbara Tuchmann, em “A Marcha da Insensatez”. Veio-me à mente ao especular sobre a saída da atual crise financeira.
É indiscutível que a arquitetura financeira internacional que provocou a crise vai provocar uma outra caso não seja profundamente reestruturada. Não falo de regulação apenas. Falo de produtos. Entretanto, estamos diante da mais engenhosa e criativa estrutura jamais inventada pelo gênio humano para favorecer a especulação e esconder riscos, uma máquina realmente admirável, em seus escaninhos barrocos, para disfarçar cassinos como agentes do crescimento produtivo. O que fazer com essa fantástica arquitetura, tão marginalmente útil quanto essencialmente ameaçadora?
É uma pergunta para o G-20. Diante de uma avassaladora pressão ideológica e política para deixar tudo como está, os norte-americanos querem maior regulação e supervisão do sistema financeiro, franceses, alemães e ingleses querem limitar os bônus dos executivos, alguns ingleses chegam a falar numa taxa Tobin, outros alemães ficam no muro. Todos estão de acordo em que a operação em escala mundial dos grandes bancos, através de subsidiárias, implicam riscos sistêmicos, mas por enquanto não há iniciativas práticas para controlá-los. Teme-se a volta à simplicidade.
A linha de defesa do sistema financeiro é a retórica de proteção a sua criatividade, que teria multiplicado as oportunidades de financiamento da economia real nas duas últimas décadas. É fato que créditos colateralizados, veículos estruturados, swaps e outros derivativos foram essenciais na reciclagem aparentemente sem risco do excesso de poupança na Ásia para financiar o endividamento norte-americano e de outros países desenvolvidos ocidentais. Contudo, os mesmos instrumentos, complexos e opacos, multiplicaram as oportunidades de pura especulação descolada da economia real.
Um contrato de swap cambial ou de juros tanto pode ser um seguro contra risco de uma operação bancária de financiamento industrial quanto uma simples aposta num cassino financeiro. Embora a arquitetura microeconômica seja a mesma, os efeitos macroeconômicos podem ser explosivos. Enquanto as apostas se limitarem ao cassino, trata-se de um jogo de soma zero no qual, conforme as perdas e ganhos, terão ocorrido não mais que trocas de posições patrimoniais, sem relação com o fluxo de renda da economia produtiva.
Contudo, ao fim de cada ciclo de apostas, haverá sempre um saldo de ganhos ou perdas a serem sancionados pela renda corrente. Um saldo líquido ganhador pode buscar um investimento mais estável no setor produtivo, aumentando o valor dos ativos reais e financeiros e deprimindo a taxa de juros. Um saldo líquido negativo produzirá o efeito contrário: para pagar apostas perdidas, ele terá de sugar a liquidez da renda corrente, na suposição de que tenha um fluxo de renda disponível, ou simplesmente declarar insolvência. Sadia, Aracruz e Votorantim sabem bem disso!
Em ambos os casos, estamos diante de fatores de grande potencial de instabilidade macroeconômica. Note-se que sequer são novos, e manifestam-se de forma cíclica no capitalismo como crises financeiras recorrentes há séculos. A novidade é a escala. Faça-se um exercício com o grande cassino dos derivativos: em meados do ano passado, seu valor nocional era da ordem de 680 trilhões de dólares, e o valor de liquidação dos contratos era de 20 trilhões, segundo o BIS. Como se trata de um jogo, temos dupla contagem: o ganho líquido seria de 10 trilhões.
Essa quantia corresponde a cerca de dois terços do PIB norte-americano. Assim, mesmo para a maior economia do mundo, representa uma espada de Dâmocles. É certo que nem todo esse dinheiro sairia ou entraria na economia produtiva de uma vez, mas, dada a escala, mesmo uma pequena parte que entra ou saia pode provocar um terremoto nos mercados de câmbio, de juros e de commodities. A arquitetura financeira construída para supostamente ajudar a transformar poupança em investimento transformou-se num monstro que ameaça permanentemente a economia mundial. O G-20 deverá decidir o que fazer com ela, e espera-se que tenha melhor juízo que o Estado Maior alemão com seus submarinos na Primeira Guerra.
