A relação entre patrimônio e renda no capitalismo é um dos temas mais intratáveis quando se trata de discutir a funcionalidade do sistema financeiro. As categorias macroeconômicas convencionais não podem dar conta da diferença pois não se sabem, antes de sua efetivação como tal, se um ativo financeiro funciona como renda, ou se uma renda se transforma em patrimônio. Sem isso, é impossível saber, ex-ante, a influência de uma flutuação patrimonial sobre a renda corrente.
O PIB é uma medida de fluxo de renda anual. Essa renda é despendida em consumo ou acumulada em investimento. O investimento prévio que os geraram é um patrimônio registrado nos balanços das empresas e do governo como ativos permanentes. Se o PIB cresce, tudo pode crescer: consumo e investimento, mesmo a taxas diferenciadas. Se o PIB se contrai, consumo ou investimento correspondentes só não cairão também se o recuo for compensado por perdas em ativos financeiros.
Vejamos agora a situação realista que o mundo atravessa na qual os ativos financeiros rendem mais que a taxa de crescimento do PIB (renda). Se se trata de valorização de bolsa, podemos descartá-la, pois é um jogo de soma zero, típico de cassino: se alguém ganha, alguém perde. É um jogo quase totalmente descolado da economia real (salvo IPO) e, como tal, restrito à esfera dos patrimônios – embora religado à renda quando se sai da bolsa para consumir ou investir na economia real.
O foco, porém, devem ser os ativos financeiros no mercado secundário que embutem uma relação de débito e crédito, principalmente os chamados derivativos, que têm um vínculo débil com a economia real. Se têm rentabilidade líquida maior que o crescimento do PIB, sua única possibilidade de realização – ou seja, de transformação de patrimônio em renda – é pela queda do consumo ou do investimento produtivo. Claro, isso não acontece de forma sincronizada; pode levar meses e anos.
Agora vejamos a situação real. Em meados do ano passado, o volume de derivativos em circulação no mundo alcançava os 650 trilhões de dólares, segundo o Banco de Compensações Internacionais. Para simplificar, consideremos uma rentabilidade modesta de 5%: isso gera uma renda financeira de 32,5 trilhões de dólares anuais, mais da metade da renda mundial. Considerando que a renda mundial vai contrair-se em 2%, vê-se claramente o tamanho da assimetria.
Os governos dos EUA e da Alemanha, países mais expostos ao processo de financeirização, estão segurando seus sistemas bancários mediante gigantescas injeções de recursos e de garantias. Com isso, os bancos mantêm em seus balanços os ativos tóxicos, aqueles já marcados para o calote. Um dia terão de reconhecer esse calote, explicitando o fato de que a renda corrente deles, impossível de ser extraída da sociedade como um todo, correspondia a uma valorização tipicamente artificial.
É óbvio que nem toda a renda financeira matura a curto prazo e nem toda ela, se maturasse, se converteria em renda corrente: grande parte continuaria girando no mundo das trocas patrimoniais. Contudo, esse exercício até certo ponto ingênuo mostra que uma imensa espada de Dâmocles paira sobre o pescoço da economia mundial. E não há realmente nenhuma saída simples, pois vivemos em estado de direito que valoriza a propriedade privada e repele o confisco.
A saída mais “natural” é a hiperinflação globalizada: seria um desastre de tais proporções no mundo que levaria à desestabilização social e política em todos os quadrantes. A outra saída seria limitar rigidamente os tipos de operações do sistema bancário, a partir da completa desvinculação entre banco comercial, confinado ao mundo das rendas, e banco de investimento, afeto ao mundo dos patrimônios. Os primeiros seriam garantidos pelos governos, e os segundos legados à própria sorte.
Um banco garantido pelo governo não é diferente de uma concessionária de serviços públicos sob forte regulação. Seria semi-estatal. À sua prerrogativa de criar moeda nas suas operações com o banco central, corresponderia o dever exclusivo de relacionar-se apenas com o setor produtivo, fora das linhas especulativas. Quanto ao banco de investimento, seria forçado a regras de transparência que o inibisse de aventuras que o levassem à quebra. O elemento estabilizador do sistema seria a dívida pública, um colchão patrimonial e de renda na interface entre ambos.
Uma curiosa corrente de economistas sustenta que o grande culpado pela crise foram as reduzidas taxas básicas de juros do FED e dos títulos da dívida norte-americana. Isso teria inundado os mercados de liquidez, estimulando a especulação. A falácia do argumento fica evidente quando se especula sobre a hipótese contrária. É que uma taxa elevada sobre títulos públicos, sem gastos públicos adicionais, resultaria apenas em inútil transferência adicional de renda de toda a sociedade para os patrimônios financeiros dos ricos, sem qualquer relação com o sistema produtivo. A especulação seria premiada no circuito público, mas não evitada, no privado.