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Se você tiver motivo para afogar um gato numa piscina, não precisa de uma piscina de 10 metros de profundidade. Basta meio metro, e uma certa dose de habilidade. Agora, se o gato for a inflação e a piscina a taxa de juros, também não é preciso, para controlar a inflação num patamar baixo, manter a taxa de juros básica num nível tão elevado quanto 8,75%. Como o mundo inteiro está ensinando ao Brasil, uma taxa básica de juros muito pequena, algumas na vizinhança de zero por certo, convive perfeitamente com inflação baixa.

Uma taxa interna de juros alta atrai uma enxurrada de dólares para o Brasil. Não serve nem à produção, nem ao consumo, nem ao crescimento. Favorece, sim, ao que chamam de “carry trade”: os especuladores entram no país com a enxurrada de dólares e ganham duas vezes num negócio essencialmente estéril: ganham a taxa de juros mais alta do mundo, e ganham a valorização do real estimulada pela própria entrada dos dólares. No momento, não há melhor negócio que este em todo o planeta, sem suar a camisa. Basta um terminal de computador.

É possível que o homem comum razoavelmente informado se espante que num país como o nosso, dotado de alguma proficiência profissional e acadêmica em órgãos de governo e na iniciativa privada, possa acontecer algo tão absurdo como essa mágica de gerar lucros por simples operação de caixa entre moedas. Sua tendência é aceitar esse tipo de política como um campo de especialistas iluminados, muito acima de sua capacidade de compreensão. Muito poucos ousam contestar a fundura da piscina para afogar um gato.

Entretanto, os mais avisados, mesmo que não sejam especialistas, estarão completamente justificados se criticarem a política monetária por simples analogia com o que está acontecendo no resto do mundo. Desde a explosão da crise, as taxas de juros nos países industrializados, que já estavam baixas antes, desabaram ainda mais. E não há no horizonte sinal de inflação. Como também não existe sinal de inflação entre nós – embora não possamos ter tanta certeza quanto à recuperação definitiva do crescimento, caso prevaleçam as atuais taxas de juros.

Mas o que realmente está acontecendo no Brasil que enrijeceu de tal forma a política monetária que ela se tornou um tabu inamovível, desafiando o mais elementar bom senso? Afinal, essa política de juros altos e câmbio valorizado está nos contaminando com a “doença holandesa” antes de termos petróleo para exportar! (Doença holandesa, para quem não sabe, é a situação do exportador de matérias primas que sucateia sua indústria de transformação por força do câmbio valorizado em razão da entrada em larga escala de receita de exportações).

A explicação para esse fenômeno é paradoxal: foi dada ao Banco Central total liberdade operacional, mas o Banco Central dispensou essa liberdade subjugando-se ao “modelo de metas de inflação”. Assim, quem comanda a política monetária brasileira não são homens, mas algumas fórmulas matemáticas e um computador. Nisso também somos retardatários. Com a crise mundial, o “modelo de metas” ficou desmoralizado no mundo inteiro, na medida em que a relação empírica entre taxa de juros e inflação foi para o espaço. Aqui, continua o tabu.

Vou tentar trazer o “modelo” ao nível do senso comum. Uma fórmula matemática é um conjunto de relações entre grandezas, aqui econômicas. No caso, a relação básica que se busca é entre taxa de juros e inflação, que obviamente sofre influências de outras grandezas, especialmente do nível de utilização da capacidade produtiva, das expectativas de taxas de juros etc. Vamos focar em apenas duas dessas relações: aquela entre a taxa de juros e a inflação, e aquela entre utilização de capacidade produtiva e inflação.

Sabemos que a matemática exige rigor absoluto. Contudo, de todas as grandezas usadas no “modelo de metas”, não existe uma só que possa ser rigorosamente medida ou estimada ex-ante. Portanto, quando o modelo “manda” aumentar ou manter a taxa de juros para segurar a inflação na meta, com o preciosismo de duas casas decimais, estamos diante de puro charlatanismo. O caso mais notório é o do produto potencial (utilização de capacidade), impossível de se medir, e que no entanto é chave para a “operação” do modelo.

Há também relações de causalidade dúbias ou invertidas (expectativa de juros e inflação), relações de causalidade falsas (o modelo visa a demanda, quando a inflação em geral é de custos, sobretudo numa época de alta volatilidade das commodities) e omissões grosseiras (o imperativo do pleno emprego). No entanto, os modeladores se defendem dizendo, falsamente, que o modelo deu certo. Não deu. Tem sido como matar um gato numa piscina de dez metros de altura. E este excesso de altura nos está custando um processo de desindustrialização.

este artigo foi originalmente publicado no Jornal do Brasil, no dia 01/12/2009.


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