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A descoberta do Mensalão do DEM/PFL-Arruda, em Brasília, gerou uma explosão de indignação nas pessoas de boa vontade. Todos comentam. Uns abominam, outros ironizam, há ainda os que zombam ou propõem impeachment. A senvergoinhice e a cara de pau de políticos profissionais, mais podres que me fizeram recordar o padre Antônio Vieira, em um dos seus célebres sermões, onde ele diz: “Não são ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões, que mais própria e dignamente merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões; Ou o governo das províncias; Ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos.

Os outros ladrões roubam um homem. Estes roubam cidades e reinos; Os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo; Os outros se furtam, são enforcados. Estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “LÁ VÃO OS LADRÕES GRANDES ENFORCAR OS PEQUENOS”. Ditosa a Grécia, que tinha tal pregador. E mais ditosas as outras nações se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, um ditador por ter roubado uma Província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um chamado Seronato disse com discreta contraposição Sidônio Apolinário: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos e em os fazer. Isso não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.”[1]

Hoje, no Brasil, parodiando Diógenes, podemos dizer que políticos profissionais (como os “mensaleiros”) são grandes ladrões que enforcam os “pequenos”. Os pequenos, na verdade, não são ladrões, mas sim:

  • 30 mil jovens assassinados por ano;
  • 150 mil famílias sem-terra debaixo da lona preta;
  • Milhões de desempregados humilhados;
  • 500 mil presos enjaulados em prisões que são verdadeiros campos de concentração…

Indignação é imprescindível, mas não basta. Precisamos organizar a indignação e encontrar soluções para problemas reincidentes como o dos Mensalões do PSDB, do PT e, agora, do DEM/PFL. Qual será o próximo? O grande poeta Thiago de Mello nos mostra um facho de luz:

“As colunas da injustiça sei que só vão desabar quando o meu povo, sabendo que existe, souber achar dentro da vida o caminho que leva à libertação! Quando a verdade for chama nos olhos da multidão, o que em nós é palavra no povo será ação”!

Urge acordar, em nós e no povo, a infinita luz e força humano-divina. Basta de acreditar que eleições nos salvarão. Devemos investir 5% das nossas energias para elegermos os melhores (ou os menos piores) políticos e 95% das nossas energias na organização do povo empobrecido e excluído. Pobres organizados se transformam em protagonistas de lutas libertárias concretas e constroem saídas verdadeiras de baixo para cima e de dentro para fora. Eis um caminho para evitar novos mensalões.

Referência:

[1] VIEIRA, Sermões, Vol. 5, p. 69. Porto, Lello & Irmão Editores, s/d.


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