Ordem Política 30/11/2009
Pergunta óbvia
Biodiversidade, matriz energética e reservas de água doce são pano de fundo do interesse das tropas americanas em se instalar na região amazônica.
Em 2002 fui convidado pelo governo colombiano, então chefiado por Andrés Pastrana, a integrar um grupo de cidadãos latino-americanos que tentaria facilitar o diálogo com a guerrilha. Estive no país nessa condição e retornei pessimista. Vi que forças poderosas agiam para impedir uma solução negociada.
De um lado, a guerrilha superestimava sua capacidade, exigia alterações profundas no sistema político e não avaliava corretamente a mudança de cenário em curso, com a crescente intervenção dos Estados Unidos no conflito. De outro, o Estado, embora preservando rituais democráticos fundamentais, era incapaz de garantir a inserção política civil dos combatentes. Permanecia bem viva a memória da experiência da União Patriótica (UP), criada depois dos acordos de paz assinados entre o governo de Belisario Betancur (1982-1986) e as Farc.
Em 1986, como uma etapa do processo de desmobilização guerrilheira, a UP disputou eleições, elegendo bancadas parlamentares em todos os níveis, em quase todo o país. Seu candidato à presidência, Jaime Pardo Leal, ficou em terceiro lugar, ameaçando o bipartidarismo conservador. A progressão da paz, porém, foi abortada: em operações coordenadas, fulminantes, 3.500 dirigentes da UP foram assassinados, incluindo o candidato à presidência e os que haviam assumido cargos eletivos. Os dois novos líderes do partido – Bernardo Jaramillo e o senador Manuel Cepeda Vargas – tiveram o mesmo destino, em sequência.
Os 3.500 homicídios seletivos e as mais de mil tentativas de homicídio em atentados falhados, com inúmeros feridos graves, não levaram ninguém a julgamento, pois qualquer movimentação nesse sentido provocaria um golpe de Estado. Com a UP exterminada, a solução militar – ou seja, a falta de solução – voltou a predominar. Era o que tentávamos ajudar a remediar em 2002, em um país que estava nitidamente cansado da guerra.
Intitulei “O papel estratégico da paz” o meu pronunciamento na principal sessão dos trabalhos. Retiro um trecho e traduzo: “Há mais coisas em curso. Refiro-me às movimentações que prenunciam a possibilidade de controle externo sobre a região amazônica a médio e longo prazos. Se não forem contidas, o que estará em jogo não é pouco. Entre os processos que decidirão como serão redistribuídos riqueza e poder neste novo século, em nível mundial, destacam-se três: a capacidade de manejar a biodiversidade, de alterar a matriz energética e de controlar as reservas de água doce. Essas três questões redefinem o papel da Amazônia no mundo. [...] Perdoem-me a sinceridade: é nesse contexto que vejo, com grande preocupação, a evolução da guerra civil na Colômbia. Ela poderá vir a ser a via de entrada de tropas militares estrangeiras na Amazônia. Além da dimensão humanitária, a construção da paz tem, para todos nós, uma dimensão estratégica.”
Sete anos depois, vejo confirmados os meus temores. A sequência parece-me clara. O processo de paz foi propositalmente inviabilizado. A guerrilha – que, na origem, foi uma expressão da resistência camponesa à
violência dos latifundiários, mas que está obviamente deslocada no tempo – passou a ser apresentada como uma quadrilha de narcotraficantes, um golpe midiático vulgar que visa a deslegitimar qualquer iniciativa de natureza política, a única que pode ser justa e eficaz. Sob o pretexto de exterminá-la, criou-se um aparato militar que desequilibra o balanço de poder no continente. E agora, pela primeira vez na história, sete bases serão construídas na Amazônia para abrigar tropas estrangeiras e mercenários, estes apresentados sob o eufemismo brando de “terceirizados”.
Se a guerrilha está derrotada, como todos dizem, a pergunta óbvia é: para quê?
Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Folha de São Paulo, no dia 07/08/2009.