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A segurança pública é o maior desafio para o governo. O momento é de medo generalizado. Nas esquinas desertas de autoridade ou no engarrafamento do trânsito,  à luz do dia, o bandido faz jurisprudência.

O cinema nacional adotou esse retrato trágico e assustador. Cidade de Deus, Salve Geral, Tropa de Elite lotaram as salas. Com a privatização e ampliação da telefonia, novo golpe surgiu. O celular sem dono certo, sem endereço, sem identificação, serve de arma para o estelionato. Quem não conhece alguém que já foi vitima do trote do seqüestro? O 190 da Polícia também é alvo da farsa.

Imaginem o velhinho quase surdo, recebendo os gritos da vítima falsa e as ameaças do seqüestrador invisível, pedindo fortuna, querendo resgate. Dizem que os presidiários, apesar da proibição, ocupam o tempo ocioso brincando de fazer mal para não perder a prática.

Minha irmã teria sido vítima. Papai foi a presa. Dona Rosinha, a secretária, coadjuvante e mamãe a severidade imposta diante da balbúrdia que se criou. Enquanto Rosinha recebia o complemento da ameaça e os gritos da moça, papai ligou pra mim. Pude intervir desmentindo a hipótese, inclusive porque localizei, em casa, almoçando, a irmã seqüestrada. Ainda ouvi mamãe dizer: “ou o senhor fala direito, ou desligo o telefone.” E desligou. Mas a ambulância foi chamada com o susto que se criou.

Dois casos, porém, merecem registro. Alexei, um jovem de vinte e poucos anos, solteiro, sem filhos, recebeu uma dessas ligações. O larápio começou informando: “tô aqui com sua filha.” O rapaz respondeu: “eu não tenho filha.” E o bandido, decepcionado, insistiu: “nem filho?”

O outro caso é melhor. Depois de um plantão estafante, a médica foi acordada pelas seis e meia da manhã. Era a vítima do seqüestrador de mentirinha. A moça gritava: “socorro mamãe, eu fui assaltada.” A doutora, antes de deitar, beijara as filhas que dormiam sono solto, desde cedo.

A reação foi pontual: “como é seu nome?” E insistiu na pergunta até que o estelionatário entrasse na conversa: “sua filha está aqui comigo e eu quero cinqüenta mil. Isso é um seqüestro.” Lembrando das várias histórias que ouvira e acostumada a acordar, no meio da noite, para atender emergências, encarou o tema: “eu lhe dou cem mil”. Ouviu o interlocutor comentando admirado: “ela quer dar cem mil.” Mas voltou à tona: “a senhora vai dar cem mil?” A médica, sem mudar o tom sentenciou: “vou lhe dar cem mil, mas você tem que casar com ela”. O criminoso assustado retrucou: “- casar com ela?”; “sim, casar” – respondeu.

Ele ficou atônito e a mãe da suposta vítima tomou as rédeas: “ora tenha paciência, você me acorda uma hora dessas, com esse trote manjado, com essa mentira!”.  Vencido, jogou a toalha: “dona é melhor um seqüestro de mentira do que de verdade”.

Uma bela gargalhada enfeixou a peroração. O bandido desligou aborrecido. Dessa vez a ambulância não foi chamada.  É preciso muita calma. Aprendam.


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