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A Insensatez persistente

Duas polêmicas envolvem e misturam-se ao se falar de Amazônia. Criam paixões, interesses, informações e desinformações. São questões complexas, estratégicas, que se relacionam com o futuro do País e do Mundo. Desafiam a nação brasileira que tem  a oportunidade de enfrentá-las e com isso assumir posição de  relevância mundial. Estamos falando da soberania brasileira sobre a Amazônia e do desenvolvimento sustentável.

A vida na Amazônia é dura diante do processo de modernização. Definir um modelo de desenvolvimento capaz de dar um elevado padrão de vida e manter o estilo amazônico em qualquer de suas muitas características é um desafio que só pode ser vencido por uma política criativa e por uma coerente ação de Estado. Nada mais distante disso do que a forma de ocupação e de ordenação estatal da vida cotidiana da Amazônia, onde à tradição se somam inépcia e corrupção plasmando uma realidade em que o absurdo se impõe ao espaço e a vida social.

O Brasil pode perder a Amazônia nos próximos anos. Não só pela cobiça internacional, que é histórica, mas porque a população brasileira pode escolher a internacionalização como estratégia de ocupação e vida na região. As populações da Amazônia estão diante de uma triste dicotomia: avançar com o processo predatório de conquista do território (a palavra conquista já trai a natureza equivocada e contraditória do processo que vê no espaço um inimigo), ou aderir a uma idílica proposta verde que preserva a natureza, esquecendo os aspectos políticos e a complexidade sócio-econômica do mundo contemporâneo. Quaisquer das duas alternativas levam, caso sejam implementadas, a um mesmo resultado, a perda de soberania por uma intervenção internacional e civilizatória.

O espaço que serve de cenário para esta insensatez persistente assume aspectos dantescos nos dias atuais. Sobressai a violência contra a natureza e a população. Florestas e queimadas, cidades e aldeias misturando riqueza e miséria, e, nos últimos tempos, além das cheias surgiu um elemento novo – a seca. 

Chegamos a esse quadro lentamente. Inicialmente a ocupação subiu o curso dos rios. A geopolítica portuguesa, as drogas do sertão, a escravização de índios e, mais tarde, a exploração da borracha impulsionaram essa piracema humana. A partir do século XX, a região vive uma nova forma de ocupação. Estando, ao sul e ao leste, cercada de cerrados e caatingas, áreas de expansão da fronteira agrícola, a floresta sofreu as primeiras significativas ondas de colonizações a partir dessas vizinhanças, na esteira da construção de Brasília e de um sistema de rodovias.   

Com um planejamento regional superficial e uma inexistente gestão governamental, o resultado do processo de ocupação territorial gerou um quadro complexo. O modelo de ocupação, que combinou desmatamento com pecuária extensiva, é criticado por parte significativa da opinião pública nacional e internacional. Os problemas sociais e ambientais estão presentes em quase todas as reportagens e trabalhos acadêmicos. Drogas, queimadas, extração de madeiras e extermínio de espécies nativas são idéias imediatamente associadas à realidade amazônica.

Às críticas ao modelo agrário de ocupação se somam aquelas relacionadas aos grandes projetos de mineração, de geração de energia e projetos industriais. A defesa de todas estas formas de ocupação é estigmatizada como uma posição atrasada e corporativa.

Tudo isto produz um ambiente adverso aos projetos de desenvolvimento para a região, que são indispensáveis para o desenvolvimento brasileiro, independentemente de sua origem governamental ou privada. As idéias de desenvolvimento sustentável, conceito simpático e mal definido, inspiraram, na prática, projetos pequenos e, quase sempre, mais conservadores do que conservacionistas.

 O “conservadorismo ambientalista” e o “desenvolvimentismo conservador”, com destruição ambiental, são as alternativas apresentadas que, criando uma falsa dicotomia, imobilizam tanto o poder público quanto o setor privado, incapazes que são de definirem um projeto de desenvolvimento que atenda os aspectos econômicos e ambientais simultaneamente.

O quadro que se descortina neste início de século XXI não poderia ser mais confuso. É visível que nos defrontamos com as velhas e difíceis questões do desenvolvimento econômico, acompanhadas por uma problemática geopolítica renovada e amplificada. As duas questões estão misturadas e superpostas: A questão da soberania e controle efetivo do território – a Amazônia Brasileira será brasileira no futuro? – e a questão do meio-ambiente ou, como denominamos acima, desenvolvimento sustentável.

Este artigo foi originalmente publicado na Ciência Hoje, nº 235, em 15/03/2007.

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