Hoje no Brasil, a área rural encontra-se dividida em duas. Uma parte da agricultura familiar, produtora de alimentos, organizada em pequenas propriedades, emprego de mão de obra familiar, de baixo impacto ambiental e que utiliza métodos e tecnologias tradicionais.
De outro lado, o agronegócio que produz para mercados externos, principalmente em grandes extensões de terra, emprega trabalhadores rurais, contrata boias-frias, para trabalhar em monoculturas extensivas, de alto impacto ambiental, utilizando em grande medida agrotóxicos e transgênicos.
É nesse contexto que as políticas agrícola e agrária do governo federal são implementadas pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Duas estruturas do Poder Executivo Federal que atuam orientados ao atendimento das demandas desses grupos – agricultura familiar e agronegócio.
O conflito de interesses resultou na instituição da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso Nacional. De um lado, o lobby interessado em investigar a suposta destinação de recursos públicos para as associações e organizações ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST.
Em contraposição, verifica-se na CPMI uma oportunidade de investigação sobre grilagem de terras públicas, acesso a crédito e recursos públicos destinados a apoiar o latifúndio, incluindo a realização de eventos e feiras agropecuárias da Confederação Nacional da Agricultura – CNA.
A disputa é permanente, inclusive na mídia, onde os debates são mais acirrados. Grande parte dos veículos de comunicação revela-se comprometida com os interesses do agronegócio e com a defesa de seus ideais, manipulando informações, concedendo espaços mais generosos e até mesmo produzindo “pesquisas” na tentativa de desqualificar os assentamentos da reforma agrária perante a opinião pública.
Resta esperar os resultados e os desdobramentos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Provavelmente, como ocorre com outras CPIs, haverá muito espetáculo midiático, julgamentos e condenações em tempo real pela TV, e desta vez, pelo menos com uma certeza de que o campo continuará dividido, em dois pesos e duas medidas.