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Integração da América do Sul 25/11/2009

Brasil consolida independência de sua diplomacia

A visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad a Brasília contribui para consolidar uma parceria que pode ser benéfica para a paz no Oriente Médio.

Apesar das críticas da mídia conservadora e dos duros pronunciamentos contrários de parte de congressistas e dirigentes da oposição, o governo brasileiro manteve o convite e a agenda do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que visitou Brasília no início da semana. Com essa atitude, ficou ratificada a independência já demonstrada em outras oportunidades pela diplomacia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sinal muito bem avaliada fora do Brasil.

O próprio presidente Lula defendeu a oportunidade que brindava a visita de seu colega iraniano para aprofundar o diálogo com um país chave do conturbado Oriente Médio. “Não se constrói a paz no Oriente Médio sem conversar com todas as forças políticas e todas as religiões”, afirmou o presidente quando perguntado por um jornalista a respeito dos objetivos da visita. Se o diálogo se da só entre países com a mesma orientação política, a conversa fica limitada a uma espécie de “clube de amigos”, incapaz de sentar as bases de uma paz efetiva na região, explicou o presidente Lula.

Lembre-se que a visita ao Brasil do presidente Ahmadinejad foi a terceira de um dirigente do Oriente Médio, nos últimos dias. Pouco antes tinham visitado o solo brasileiro o chefe de Estado de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que também mantiveram entrevistas com o presidente Lula. A seqüência de visitas sinaliza a importância que a diplomacia brasileira vem adquirindo no complexo mundo globalizado.

Ao contrário das duas primeiras visitas, que tiveram pouca repercussão, a presença de Ahmadinejad suscitou polêmicas no plano interno e foi acompanhada com atenção no plano externo. Essa polêmica, ao contrário do que alguns analistas manifestaram, só serviu para confirmar a importância que ambos países têm no contexto regional e mundial.

Mesmo que o resultado concreto da visita tenha sido a assinatura de acordos de cooperação em diversas áreas, como ciência e tecnologia, agricultura e indústria, e a procura de meios de aumentar o intercâmbio comercial (situado em torno dos dois bilhões de dólares, e perspectivas de atingir em breve prazo os dez bilhões de dólares) os resultados políticos da presença de Mahmoud Ahmadinejad no Brasil são os mais significativos.

Os governos do Brasil e do Irã coincidem na aspiração de desempenhar um papel ativo no cenário mundial, alicerçados na importância das duas nações nas suas áreas de influência. Herdeiro do império persa, com mais de 2.500 anos de história, o Irã possui unidade territorial, lingüística e cultural, fato que se traduz num profundo orgulho nacional, em uma região marcada por uma diversidade difícil de administrar. E o Irã é hoje uma nação com uma indústria sofisticada, que, entre outros feitos, lhe permitiu, ano passado, colocar em órbita um satélite de fabricação própria. Isso sem falar nos seus importantes recursos naturais, como o petróleo. Aliás, esse petróleo foi o pivô do primeiro enfrentamento entre de uma nação do mundo em desenvolvimento com as grandes transnacionais por causa das matérias primas, na década dos anos 50, quando os serviços secretos norte-americanos organizaram um bloqueio econômico e um golpe de Estado como resposta à ousadia do primeiro ministro Mohamed Mossadegh de nacionalizar o cru e expropriar a Anglo Iranian Oil Company. Quanto ao Brasil, respaldado por bons indicadores econômicos e por seu peso específico, territorial e demográfico, nos últimos anos tem ampliando sua influência a nível internacional. Isso é particularmente válido para a América do Sul, região em relação à qual houve uma correta aposta preferencial da diplomacia do presidente Lula, que vem procurando aprofundar e consolidar o processo de integração.

Ahmadinejad, em resposta ao respaldo político recebido em Brasília, manifestou o seu apoio ao ingresso do Brasil ao Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente, uma das aspirações declaradas da atual diplomacia brasileira. Esse apoio foi justificado pelo papel que o Brasil poderia desempenhar em prol da paz, a partir de uma posição chave como é o Conselho de Segurança da ONU. O presidente do Irã afirmou, durante a sua visita, que os palestinos não devem pagar por um erro ocorrido em território europeu – o holocausto – e disse que a questão palestina não foi resolvida ainda porque as propostas de paz formuladas pelo Conselho de Segurança não estão fundamentadas na justiça. A eleição do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança – no qual deveria acabar o direito de veto dos países que hoje o exercem – teria o beneplácito do Irã, segundo Ahmadinejad, pelo papel construtivo que a diplomacia brasileira poderia desempenhar nas articulações tendentes a sentar os alicerces de uma solução justa, que conduza à paz na Palestina. 

Da rápida passagem do presidente do Irã pelo Brasil se depreende, assim, que além dos resultados que a mesma possa trazer no terreno da cooperação econômica e tecnológica, ela principalmente esteve destinada a reforçar uma estratégica parceria sul-sul. Essa parceria se inscreve na aposta dos dois governos na capacidade que têm individualmente, e que a cooperação entre ambos só faz reforçar, de atuar no cenário mundial trazendo para a agenda de debates, como ponto prioritário, a paz no Oriente Médio. Mas não uma paz imposta pelas potências que nas últimas décadas têm dado as cartas na região; uma paz alicerçada em iniciativas diplomáticas que possam dar resposta aos anseios de justiça dos povos envolvidos nos conflitos.


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