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Ilustração: Stock.xchng - www.sxc.hu

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O tratamento que vem sendo dado à crise que enfrentamos até agora não parece levar em conta suas reais dimensões. A crise segue sendo tratada como uma crise financeira, e que se resolverá assim que a instabilidade financeira resultante do rompimento da bolha especulativa passar, e as gigantescas perdas financeiras estancarem (ou parte substancial da riqueza fictícia desaparecer, o que é outra forma de dizer a mesma coisa). A “crise”, tratada com essa visão e pelos mecanismos que vemos até agora (socorro a bancos e empresas afetadas, busca pela estabilização financeira para os mercados voltarem a funcionar, mecanismos para a retomada do crédito), é lida como mais uma das quais o sistema passa desde os anos 90, e que em algum momento vai se estancar e permitir que o mundo volte a funcionar como vinha funcionando, talvez apenas um pouco mais regulado.

Essa é, no fundo, uma visão otimista sobre a crise e o funcionamento dos mercados, incluído aí especialmente o mercado financeiro. Com esse diagnóstico, se perde as dimensões social, ambiental, energética, política e civilizatória, da crise que hoje nos atinge. É contraditório comparar a recessão atual com a de 1929 e seguir sugerindo medidas que tentem fazer o capitalismo hegemonizado pelo mundo financeiro voltar aos trilhos do seu funcionamento anterior. Talvez esse seja o sonho dos que lideraram a capacidade de gerar mais e mais riqueza fictícia no período anterior, e que derivaram dessa capacidade prestígio e poder, mas felizmente para a grande maioria da população mundial, esse retorno não parece ser mais possível. Como na crise dos anos 30 do século passado, provavelmente a saída implicará novos rearranjos sociais e políticos, e uma nova forma de funcionamento das economias nacionais e da economia mundial.

O que estamos vendo é muito mais profundo que mais um acidente de percurso do processo de valorização dos capitais em uma economia financeirizada e desregulada. Aparenta ser o fim de uma maneira de funcionar do capitalismo internacional. Se for efetivamente isso, o que deveria estar sendo discutido não é como salvar as finanças internacionais neste momento, mas que novo modelo de funcionamento da economia se quer fazer funcionar, o que é muito mais amplo, e as finanças aí são uma parte apenas do problema, e não tem de ser “salvas”, mas reestruturadas para servir a esse novo modelo de funcionamento da economia que se decida construir.

Aparentemente a crise ainda não chegou a esse ponto de ruptura com a nostalgia do funcionamento do modelo anterior. Quando se vê as propostas em discussão, se toma como um dado, por exemplo, a continuidade do funcionamento da atual arquitetura financeira internacional, ou da estrutura regulatória do sistema multilateral de comércio. Dito de outra forma, a discussão em curso, e não apenas a dos governos, mas também na academia e em boa parte do mundo não-governamental parte da idéia da permanência do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e outras agências de fomento (de projetos, políticas e ideologia…), da Organização Mundial do Comérico (OMC) e de outros mecanismos.

Na grande maioria dos casos não se discute primeiro que funcionamento queremos para a economia internacional, que papel tem as finanças internacionais e o comércio internacional nesse funcionamento a ser buscado, e a partir daí que instrumentos são necessários para isso. No caso das instituições citadas, foram bastiões nos últimos vinte anos da difusão das idéias e instrumentos da liberalização financeira e comercial que é exatamente a causa da crise atual. A OMC, por exemplo, funciona com o princípio da liberalização progressiva do comércio internacional – portanto, frente a crise, nesse caso, a instituição ou deveria estar discutindo a mudança de seus princípios, ou deveríamos todos estar efetivamente discutindo se ela tem um papel a cumprir na regulação de um sistema multilateral de comércio que atenda a um novo modelo.

A falta de regulação dos mercados financeiros é uma boa explicação para a crise, mas essa explicação precisa ser complementada com uma boa discussão sobre o porque dos mercados financeiros terem conseguido avançar na sua desregulação, abrir a possibilidade para “driblar” a regulação que continuou existindo, e evitar que novas regulações a seu funcionamento fossem criadas. Seguramente não foi pela falta de percepção dos riscos crescentes que progressivamente iam ficando evidentes, nem pela falta de alerta de alguns analistas sobre a fragilidade do funcionamento desse sistema – ou seja, não foi por falta de aviso.

Foi pela prevalência dos interesses, e das possibilidades generosas de ganhos, dos capitais financeiros no sistema vigente até explodir na crise atual. Quem não lembra dos momentos em que o comportamento caótico e destrutivo do funcionamento desse mundo hegemonizado pelas finanças era tratado com adjetivos generosos, como por exemplo “exuberância irracional dos mercados”, que tentavam impedir uma avaliação mais séria da qual decorressem medidas efetivas de limitação de seu funcionamento. Assim, a discussão que deveria estar colocada é como limitar a possibilidade de acumular poder e riqueza pelos capitais financeiros, de modo que eles não voltem a ter a possibilidade de construir o habitat ideal para seu comportamento predador. Aos que imaginam que isso não é possível, e que acabada a crise esses capitais vão se comportar como sempre se comportaram, não seria o caso então de discutir se o mecanismo hoje usado para a salvação do sistema, uma participação ampliada do Estado no setor, não deveria deixar de ser vista como solução provisória, e não deveria ser pensada como solução definitiva? – com os necessários contrapesos de mecanismos de controle social que impeçam que o mundo financeiro público não tenha o mesmo comportamento predatório dos capitais financeiros privados.

A crise é, ao menos, um momento em que a criatividade em busca de saídas pode e deve ser exercida. É o momento por definição da disputa política de rumos. Isso foi o que aconteceu em todas as crises. Essa disputa pode ser mais ou menos feroz, mais ou menos destrutiva. Mas já está acontecendo, de certa forma, nos processos de concentração e centralização de capitais, fusões de empresas, afirmação de novos papéis hegemônicos (como no caso da China), perda de papéis de setores e empresas, entre outros sintomas. Infelizmente, a discussão formal dos governos, e a disputa institucional, ainda está passando formalmente longe dessa explicitação, e esses espaços estão sendo usados para uma disputa não explícita. É fundamental que se comece a explicitar o que realmente está em jogo, para que as sociedades não sejam apenas parte da estratégia das grandes corporações nessa disputa.


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