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Quando se fala em Michael Jackson, a primeira imagem que me ocorre é a do negro gordinho cantando Ben. Sou fã do menininho de cabelo afro, afinado, profundo em cada nota extensa e longa. A mola propulsora de Ben, no entanto, perdeu-se no sucesso, na notoriedade, na fama, na riqueza. O dançarino veio na seqüência. Enchia a vista, desafiava a lei da gravidade, dava asas ao cantor que sonhava ser Peter Pan. Thriller lotaria o palco, convocando multidões na platéia. Mas, o gordinho é inesquecível. A criança prodígio tende a se perder por falta de infância. O menino comum brincava no quintal, corria atrás da bola, de basquete, voltava faminto da escola, ganhava um afago ou um carão. E o gordinho, coitado, ensaiava uma nova canção.

Não é à toa que Michael dizia que sua música preferida era Smile. Quem assistiu a obra clássica, inesquecível de Chaplin, ainda no cinema mudo, cuja trilha sonora tem Smile, começa a entender a inspiração do poeta que escreveu a letra, tempo depois. Na versão em português, um verso descreve a cena final de Tempos Modernos: “vai mentindo a tua dor… e ao notar que tu sorris, todo mundo irá supor que és feliz”.

O sucesso é difícil de administrar. É tão insidioso que desfaz a fraternidade, a convivência paterna e, quase sempre, constrói a solidão infinita. Quando a notoriedade também é abastada por somas fantásticas de dinheiro, a coisa fica ainda mais complicada. Talvez por isso, o sentimento de Chaplin, retratado nas notas de Smile, tenham tocado o ídolo. A versão de Braguinha manda sorrir quando a dor lhe torturar, quando nada mais restar, quando o sol perder a luz.

Quem duvida que o brilho dos refletores, de cada palco, de certa forma obnubilava e impedia o cantor de ver o sol nascer. A figura teratológica que restou de uma série de cirurgias espelha uma boa dose da angústia de quem tem tudo e não tem nada, porque tem tudo. O peso nos ombros cansados, doridos vai dos pés à cabeça. Prefiro a originalidade do nariz que veio no navio negreiro, que enfeitava largamente o rosto do gordinho de I, fazendo lembrar a crítica de Castro Alves: “Quem são estes desgraçados (…) Ontem simples, fortes, bravos / Hoje míseros escravos/ Sem luz, sem ar, sem razão…”.

De tanto ver Elisa ouvir e cantar Smile, assimilei a canção e a letra, sem ter que mentir a minha dor.

Há pouco tempo o noticiário era recheado de suposta pedofilia do papa-figo Michael Jackson. Bom tempo foi vilão. Vítima de seguidas extorsões, quase ficou pobre e fugiu. Ninguém foge de si mesmo. Por onde vai se leva, sempre. Desorientado, buscou no Oriente – Iêmen – em vez da algazarra das maternidades, a paz dos cemitérios. Abraçou a morte e descansou. Foi absolvido, finalmente. Pra que? Smile, o show não pode parar.


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