Políticas Rurais 23/11/2009
Fábula do sem terra
Um sem terra, olhando pelo buraco da lona preta da sua barraca, em um dos milhares de acampamentos espalhados pelo Brasil afora, viu um técnico do FMI e um secretário do Ministério da Agricultura abrindo um pacote. Ao descobrir que era um projeto de agronegócio para reforçar as exportações, a monocultura com agrotóxicos e incrementar ainda mais o uso da tecnologia na produção agrícola, ficou aterrorizado. Correu pelo Brasil afora advertindo a todos: “Há um projeto de agronegócio para fortalecer o latifúndio no Brasil!”
O desempregado da cidade disse: “Desculpe-me, sem terra. Eu entendo que isso seja um grande problema para você, mas não me prejudica em nada, não me incomoda. Não tenho nada a ver com isso. Preciso é de um emprego. Não dá mais para continuar a via sacra da humilhação que é procurar emprego. Tô cansado”. O sem terra tentou animar o desempregado: “Venha conosco e vamos montar acampamentos de desempregados em todas as capitais. Assim teremos forçaremos o Governo a mudar a política econômica neoliberal.”
O sem terra foi ao ambientalista e lhe alertou: “Há um projeto de agronegócio para fortalecer o latifúndio no Brasil!” Respondeu o ambientalista: “Desculpe-me, sem terra. Estou preocupado é em salvar as nascentes, os mananciais de abastecimento e a bacia do Rio das Velhas. Não podemos mais tolerar a devastação da natureza que cresce em uma progressão geométrica”. O sem terra cumprimentou-o: “Parabéns, a luta de vocês que também é nossa. Vamos unir as lutas ecológicas e as sociais. Lutamos por terra, mas com natureza preservada. Por isso fazemos agricultura orgânica e ecológica”.
O sem terra foi correndo pedir apoio a uma pessoa religiosa. “Comovo-me com o problema de vocês sem terra. Rezarei por vocês”, arrematou o religioso bem intencionado. O sem terra saiu pensando: por que não unir a oração com as lutas concretas de libertação dos pobres? Deus ouve o clamor dos pobres e não apenas suas orações.”
O sem terra dirigiu-se, então, ao padre e ao pastor que exclamaram: “Um projeto de agronegócio?! Isso não nos põe em perigo. É uma coisa boa para o Brasil, pois vai reforçar as nossas exportações”.
O sem terra foi procurar um sindicalista que desconversou dizendo: “Estamos preocupados é com a negociação salarial e com a próxima eleição no sindicato.”
O sem terra resolve bater na porta do presidente operário, de origem nordestina, que se justificou assim: “Tenha mais um pouco de paciência, pois estamos arrumando a casa. O espetáculo do crescimento começará em breve. Aí sim, teremos dinheiro para fazer a tão necessária Reforma Agrária”.
O sem terra não consegue engolir mais um discurso desmobilizador e puxou a orelha do presidente alertando: “Mas presidente, nós colocamos você na cadeira de presidente foi para fazer Reforma Agrária e não para fazer um governo continuísta. Por que os ricaços estão tão felizes com seu governo, e os pobres continuam de mal a pior? Só em 2003 foram assassinados 43.000 irmãos nossos, quase todos jovens.”
O sem terra foi procurar um aposentado que se revelou acomodado. “Tô preocupado é com a minha aposentadoria, pois está sendo cortada mês a mês. Trabalhei tanto! Será que vou ter que mendigar na velhice?!”
O sem terra continuou sua peregrinação em busca de apoio e chegou em uma favela. Os expulsos do campo desabafaram também: “Nós favelados estamos preocupados é com a violência, a droga e o desemprego. Mas estamos nos virando com o programa bolsa família. Precisamos é de uma Reforma Urbana. Falta saneamento, moradia, água; não somos respeitados aqui na grande cidade; somos lixo descartável”.
O sem terra arriscou conversar com um jovem. “Tô nem aí! Não me diz respeito; não me interessa; não tenho nada a ver com isso. Tô interessado em malhar meu corpo e um pouco de anabolizante me faz muito bem. Eu quero é curtir!”
O sem terra encontra um crente pregando na praça. Após ouvir pela metade o clamor do sem terra, o crente dispara: “Não se preocupe, meu irmão. Quem sofre aqui ganha o céu depois. Você deve aceitar Jesus, pois só ele pode nos salvar. Não podemos confiar em mais ninguém”.
O sem terra, indignado com a estreiteza de visão e com a falta de companheirismo, voltou para seu acampamento para continuar enfrentando o latifúndio e o agronegócio. Pela estrada cantarolava: “Só, só, só sai Reforma Agrária, com a aliança camponesa e operária…”
Naquela noite, ouviu-se um grande barulho! Meu Deus, era uma das 500 barragens de hidrelétricas das grandes empresas que tinha arrebentado! As águas, como um dilúvio, provocaram uma grande devastação. Milhares de desabrigados; diversas pessoas mortas. O pequeno agricultor desabrigado migrou para a cidade. Lá virou desempregado. Seduzido pelos narcotraficantes, é drogado. Mata o jovem que tinha o corpo em perfeita forma. Amarga, anos e anos, mofando na prisão. Na velhice percebe que uma aposentadoria de salário-mínimo não dá para a sobrevivência.
O ambientalista, no ano 2010, percebe que não foi possível despoluir o Rio das Velhas, muito menos revitalizá-lo, pois a monocultura do agronegócio, em latifúndios, tinha arrasado a mãe terra que, ressequida, sem água e intoxicada pelos agrotóxicos, gerava ainda alimentos transgênicos que causavam doenças e mais doenças e aumentava a poluição.
Moral da história:
Sempre que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando alguém está sendo desrespeitado e ameaçado, todos correm risco, mais cedo ou mais tarde!! Na sociedade todos os problemas são de todos!
Maldito aquele que inventou o “tô nem aí!”, o “não me diz respeito”, o “não me interessa”, o “não tenho nada a ver com isso” e similares.