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Um sem terra, olhando pelo buraco da lona preta da sua barraca, em um dos milhares de acampamentos espalhados pelo Brasil afora, viu um técnico do FMI e um secretário do Ministério da Agricultura abrindo um pacote. Ao descobrir que era um projeto de agronegócio para reforçar as exportações, a monocultura com agrotóxicos e incrementar ainda mais o uso da tecnologia na produção agrícola, ficou aterrorizado. Correu pelo Brasil afora advertindo a todos: “Há um projeto de agronegócio para fortalecer o latifúndio no Brasil!”

O desempregado da cidade disse: “Desculpe-me, sem terra. Eu entendo que isso seja um grande problema para você, mas não me prejudica em nada, não me incomoda. Não tenho nada a ver com isso. Preciso é de um emprego. Não dá mais para continuar a via sacra da humilhação que é procurar emprego. Tô cansado”. O sem terra tentou animar o desempregado: “Venha conosco e vamos montar acampamentos de desempregados em todas as capitais. Assim teremos forçaremos o Governo a mudar a política econômica neoliberal.”

O sem terra foi ao ambientalista e lhe alertou: “Há um projeto de agronegócio para fortalecer o latifúndio no Brasil!” Respondeu o ambientalista: “Desculpe-me, sem terra. Estou preocupado é em salvar as nascentes, os mananciais de abastecimento e a bacia do Rio das Velhas. Não podemos mais tolerar a devastação da natureza que cresce em uma progressão geométrica”. O sem terra cumprimentou-o: “Parabéns, a luta de vocês que também é nossa. Vamos unir as lutas ecológicas e as sociais. Lutamos por terra, mas com natureza preservada. Por isso fazemos agricultura orgânica e ecológica”.

O sem terra foi correndo pedir apoio a uma pessoa religiosa. “Comovo-me com o problema de vocês sem terra. Rezarei por vocês”, arrematou o religioso bem intencionado. O sem terra saiu pensando: por que não unir a oração com as lutas concretas de libertação dos pobres? Deus ouve o clamor dos pobres e não apenas suas orações.”

O sem terra dirigiu-se, então, ao padre e ao pastor que exclamaram: “Um projeto de agronegócio?! Isso não nos põe em perigo. É uma coisa boa para o Brasil, pois vai reforçar as nossas exportações”.

O sem terra foi procurar um sindicalista que desconversou dizendo: “Estamos preocupados é com a negociação salarial e com a próxima eleição no sindicato.”

O sem terra resolve bater na porta do presidente operário, de origem nordestina, que se justificou assim: “Tenha mais um pouco de paciência, pois estamos arrumando a casa. O espetáculo do crescimento começará em breve. Aí sim, teremos dinheiro para fazer a tão necessária Reforma Agrária”.

O sem terra não consegue engolir mais um discurso desmobilizador e puxou a orelha do presidente alertando: “Mas presidente, nós colocamos você na cadeira de presidente foi para fazer Reforma Agrária e não para fazer um governo continuísta. Por que os ricaços estão tão felizes com seu governo, e os pobres continuam de mal a pior? Só em 2003 foram assassinados 43.000 irmãos nossos, quase todos jovens.”

O sem terra foi procurar um aposentado que se revelou acomodado. “Tô preocupado é com a minha aposentadoria, pois está sendo cortada mês a mês. Trabalhei tanto! Será que vou ter que mendigar na velhice?!”

O sem terra continuou sua peregrinação em busca de apoio e chegou em uma favela. Os expulsos do campo desabafaram também: “Nós favelados estamos preocupados é com a violência, a droga e o desemprego. Mas estamos nos virando com o programa bolsa família. Precisamos é de uma Reforma Urbana. Falta saneamento, moradia, água; não somos respeitados aqui na grande cidade; somos lixo descartável”.

O sem terra arriscou conversar com um jovem. “Tô nem aí! Não me diz respeito; não me interessa; não tenho nada a ver com isso. Tô interessado em malhar meu corpo e um pouco de anabolizante me faz muito bem. Eu quero é curtir!”

O sem terra encontra um crente pregando na praça. Após ouvir pela metade o clamor do sem terra, o crente dispara: “Não se preocupe, meu irmão. Quem sofre aqui ganha o céu depois. Você deve aceitar Jesus, pois só ele pode nos salvar. Não podemos confiar em mais ninguém”.

O sem terra, indignado com a estreiteza de visão e com a falta de companheirismo, voltou para seu acampamento para continuar enfrentando o latifúndio e o agronegócio. Pela estrada cantarolava: “Só, só, só sai Reforma Agrária, com a aliança camponesa e operária…”

Naquela noite, ouviu-se um grande barulho! Meu Deus, era uma das 500 barragens de hidrelétricas das grandes empresas que tinha arrebentado! As águas, como um dilúvio, provocaram uma grande devastação. Milhares de desabrigados; diversas pessoas mortas. O pequeno agricultor desabrigado migrou para a cidade. Lá virou desempregado. Seduzido pelos narcotraficantes, é drogado. Mata o jovem que tinha o corpo em perfeita forma. Amarga, anos e anos, mofando na prisão. Na velhice percebe que uma aposentadoria de salário-mínimo não dá para a sobrevivência.

O ambientalista, no ano 2010, percebe que não foi possível despoluir o Rio das Velhas, muito menos revitalizá-lo, pois a monocultura do agronegócio, em latifúndios, tinha arrasado a mãe terra que, ressequida, sem água e intoxicada pelos agrotóxicos, gerava ainda alimentos transgênicos que causavam doenças e mais doenças e aumentava a poluição.

Moral da história:

Sempre que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando alguém está sendo desrespeitado e ameaçado, todos correm risco, mais cedo ou mais tarde!! Na sociedade todos os problemas são de todos!

Maldito aquele que inventou o “tô nem aí!”, o “não me diz respeito”, o “não me interessa”, o “não tenho nada a ver com isso” e similares.


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