Reagindo à Crise Mundial 21/11/2009
A duração da crise
Quando escrevi “A Crise da Globalização”, em outubro do ano passado, já estava convencido de que a atual crise seria maior em profundidade e extensão geográfica que a Grande Depressão dos anos 30. Hoje, poucos duvidam disso. Mas havia a dúvida, que eu compartilhava com outros economistas, sobre sua extensão no tempo. A dos anos 30 durou cerca de dez anos. A japonesa, nos anos 90, durou mais de quinze, até confundir-se com a atual. Será que estamos condenados a essa demora?
A resposta a essa questão não está na economia, mas na política. A duração da crise depende de ações concretas dos governos e de sua coordenação. Por isso é tão difícil prever seu desfecho. Governos são comandados por conchavos políticos, por pressões de grupos e da sociedade como um todo, e, numa extensão nada desprezível, por ideologias. E é sobretudo a ideologia, que em geral recobre interesses de grupos, que pode tornar esta crise de duração indefinida.
Na Grande Depressão, praticamente não houve iniciativa do Governo Hoover para revertê-la. Seu secretário do Tesouro, Mellon, achava que a quebra de empresas e bancos e a generalização do desemprego eram formas de se purgar o capitalismo de suas ineficiências. Quando Roosevelt assumiu, o desemprego estava na casa dos 25% da força de trabalho. Em torno de cada grande metrópole norte-americana surgiram favelas de papelão, as hoovervilles. O país estava à beira da convulsão.
O New Deal, lançado em 1933, começou muito bem. Nos dois anos seguintes a economia estava em franca recuperação. Então o Governo sofreu uma recaída no liberalismo econômico por temor do déficit público: em 1936 e 1937 cortou seguidamente o orçamento fiscal e aumentou a taxa de juros. A economia, como se poderia prever, entrou novamente em recessão. Roosevelt foi esperto o suficiente para perceber que tinha feito um desastre. Aumentou de novo o gasto público, e a economia respondeu.
Foi em razão desse interregno de liberalismo econômico que os críticos do New Deal sustentam que o programa não funcionou. O que aconteceu, de fato, é que ele só não funcionou, podendo ter encurtado bastante a recuperação, por causa da recaída no liberalismo econômico. Depois veio a guerra. Costumam dizer que a guerra foi a causa real da recuperação. É falso. A economia já estava crescendo de novo em 38 e 39, e atingiria a recuperação plena em pouco tempo, com ou sem guerra.
De fato, os Estados Unidos só entraram em guerra, um pouco a contragosto, em 1941, por causa do ataque a Pearl Harbor. Era notório o baixo grau de mobilização do país, que até o momento se limitara a dar algum apoio material à Inglaterra. Costumo dizer que não foi a guerra que promoveu a recuperação, mas a recuperação que tornou possível aos Estados Unidos travarem uma guerra vitoriosa, em razão da grande contribuição do New Deal à renovação de sua infra-estrutura.
Ao longo do programa, foram construídos ou reconstruídos 820 mil quilômetros de rodovias (para se ter uma base de comparação, temos algo em torno de 80 mil quilômetros de rodovias federais), 124 mil pontes e viadutos, 120 mil prédios públicos, 15 grandes hidrelétricas, sem falar na regularização do curso para navegabilidade de três grandes rios continentais, além da drenagem de milhares de quilômetros quadrados de regiões pantanosas em seu entorno para combate à malária.
O balanço do New Deal desfaz outro fetiche: o da carga elevada em dívida pública legada às gerações futuras por causa dos déficits incorridos no financiamento dos estímulos fiscais à recuperação. No caso, o que se deixou às gerações futuras não foi apenas uma dívida de 32% do PIB, perfeitamente controlável, mas os imensos ativos mencionados acima em termos de infra-estrutura. As gerações futuras mais do que se beneficiaram do aumento de produtividade e de eficiência econômica e social daí resultante.
Vamos ao Japão. O programa de estímulo fiscal, adotado em 1991 depois de uma terrível crise oriunda do mercado imobiliário, começou muito bem. Em 1995, como se fosse uma maldição do New Deal, cortaram o orçamento. A economia tinha crescido 3%, o que era excelente para um país superdesenvolvido. Daí em diante, voltou a recessão, e a política fiscal entrou em ziguezague. Em termos acumulados, houve gastos de 6,3 trilhões de dólares, muitos deles redundantes, com pouco efeito na produtividade futura e baixo efeito multiplicador.
A lição principal dessas duas experiências é que: primeiro - não há alternativa para enfrentar uma depressão senão com a ampliação do dispêndio público deficitário; segundo - não se deve parar o programa no meio. No caso japonês, a despeito da cifra impressionante quando vista isoladamente, é provável que tenha faltado gasto, e não sobrado. No caso norte-americano, se houve erro no New Deal, a culpa foi do corte do déficit sob pressão dos conservadores.
Tomemos um contra-exemplo, a Alemanha de 1930. O chanceler Heinrich Brunning assumiu e impôs dois cortes de 50% do orçamento, jogando o peso do ajuste em cima dos trabalhadores. Ao entrar no cargo, havia 12 deputados nazistas no Parlamento. Um ano depois do primeiro corte, 107; um ano depois do segundo corte, 250. Depois veio Hitler. E depois todos sabem o que aconteceu.
À vista disso, o que se pode dizer da duração da atual crise? Ela será tanto mais breve quanto mais rapidamente os governos lançarem programas vigorosos de estímulos, e na medida em que isso seja coordenado internacionalmente. Talvez nao sejam necessários dez anos, talvez bastem cinco ou até menos. Por paradoxal que seja, a conexão global das economias que precipitou a crise numa escala mundial é o mesmo canal por onde pode fluir a recuperação. Basta articulação política, segundo o que tenho denominado de princípio da cooperação.